Na dobadoira do mundo: 31 de Janeiro

 

Neste dia 31 de Janeiro, em 1891, eclode no Porto a malograda Revolta Republicana do "31 de Janeiro", como ficou conhecida, consumando uma sublevação civil-militar no rescaldo da contestação ao "Ultimato Inglês" de 11 de Janeiro de 1890 sobre territórios portugueses em África e ao tratado luso-britânico de 20 de Agosto do mesmo ano, aproveitando as brechas abertas no sistema monárquico-constitucional que vinham desde 1850 e mobilizando forças contra a submissão aos interesses da Inglaterra.

Após uma conspiração pouco discreta (dirigentes republicanos queixavam-se de que os preparativos eram revelados e comentados pelos cafés) ao longo de 1890 e durante Janeiro, insuflada por periódicos republicanos como O Rebate, O Ultimatum, A Pátria e A República Portuguesa, a insurreição foi desencadeada às primeiras horas da madrugada.

Comandadas por apenas três oficiais de baixa patente (um capitão, um tenente e um alferes), as forças sublevadas dos quartéis de Caçadores 9 e Infantaria 10, compostas essencialmente por sargentos (classe que contestava o sistema de promoções a oficiais), cabos e soldados rasos, começaram por ocupar o então Campo de Santo Ovídio, hoje Praça da República, na tentativa de obterem a adesão de Infantaria 18, ali sediado.

Por volta das seis da manhã, as duas colunas marcharam sobre a Praça de D. Pedro, aclamadas nas ruas e das varandas, durante o percurso, por operários, empregados, estudantes e intelectuais, e tomaram a Câmara Municipal, então situada naquela praça.

Da varanda, o prestigiado advogado e jornalista republicano Augusto Alves da Veiga, rodeado de outras figuras nomeadamente do clube republicano portuense Centro Democrático Federal 15 de Novembro, proclama a República, anuncia a formação de um governo provisório e faz içar a bandeira vermelha e verde.

A conspiração, no entanto, não lograra o apoio de outros centros republicanos e muito menos do directório do Partido Republicano Português (PRP) e o levantamento militar não mobilizou outras guarnições – nem mesmo do regimento de Infantaria 18, que não se juntou aos revoltosos.

Quando as colunas sublevadas e inúmeros populares – que deram corpo à indignação face à situação social que se agravava – subiam a então Rua de Santo António, hoje 31 de Janeiro, com o intuito de tomarem o Quartel-General e a estação de telégrafo, foram surpreendidos pelo fogo aberto sem aviso pela Guarda Municipal (GM), fazendo-os recuar ou entrar em debandada.

Sitiados nos Paços do Concelho, onde alguns se tinham refugiado, os militares revoltosos foram atacados pela GM, apoiada por outras unidades militares fiéis ao regime, com fogo de artilharia, mas não se renderam.

Tendo fugido, foram quase todos capturados, julgados e condenados a penas pesadas de deportação. Certamente subestimado, número de mortos apontado foi de pelo menos 12 e o de feridos 40. Os revoltosos civis que não conseguiram fugir e exilar-se, foi presos, beneficiando depois de uma amnistia, mas também forçados ao exílio.

Durante o fascismo, as comemorações do "31 de Janeiro" constituíram importantes actos de oposição e resistência, perseguidas e reprimidas pela PIDE e pela polícia de choque (ver 1962), especialmente nos actos evocativos junto do monumento erigido no Cemitério do Prado do Repouso.  

 

Outras efemérides nesta data

1797 – Nasce em Himmelpfortgrund, Viena, o compositor austríaco Franz Schubert (m. 19/11/1828), autor fundamental na transição do período clássico da música para o período romântico, com importantes composições sinfónicas, música de câmara, para canto (lied) e ópera.

1962 – A pretexto da evocação da Revolta Republicana de 31 de Janeiro de 1891, milhares de trabalhadores de todos os sectores e estudantes (o número de Fevereiro do jornal clandestino  Avante! refere 50 mil pessoas) manifestam-se nas ruas do Porto contra o fascismo, gritando "Portugal sim! Salazar não!", e contra a guerra colonial, iniciada no ano anterior. A polícia de choque exerce uma forte repressão sobre os manifestantes, convocados pelo PCP, e a censura silenciou nos jornais os protestos.

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