Na dobadoira do mundo: 26 de Janeiro

Neste dia 26 de Janeiro, em 1986, passam hoje 40 anos, realiza-se a primeira volta das eleições para Presidente da República, que apuram Freitas do Amaral (46,31%) e Mário Soares (25,43%) para a segunda volta – a primeira em Portugal – que coloca a necessidade de enfrentar o risco de uma deriva ainda maior para a direita (estávamos no primeiro governo de Cavaco Silva, do PSD) e de conter o revanchismo das forças reaccionárias.

Essa necessidade constitui um desafio para as forças de esquerda, especialmente para o Partido Comunista Português (PCP), que na primeira volta combatera Mário Soares apoiando Salgado Zenha, cuja capacidade de análise, flexibilidade táctica, organização e mobilização seriam determinantes para infligir uma derrota a Freitas do Amaral e não propriamente para apoiar o ex-primeiro-ministro do PS.

Ficou célebre o “conselho” do secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, no XI Congresso (Extraordinário) do Partido, logo no dia 2 de Fevereiro, para que, ao votarem, os militantes comunistas tapassem com a mão, se necessário, o retrato de Soares no boletim de voto e apusessem a cruzinha no quadrado debaixo do de Freitas do Amaral.

“Convocado, preparado e realizado em apenas 5 dias para definir a atitude do Partido na 2.ª volta das eleições presidenciais, o Congresso foi uma poderosa afirmação da força organizada, da unidade e da influência das massas do PCP”, recorda na sua página.

“Para fazer frente à ameaça da eleição de Freitas do Amaral para Presidente da República, o Congresso considerou imperativo que os democratas e patriotas votassem em Mário Soares sem que esse voto significasse apoio a Soares nem à sua política”, explica.
Ao adoptar “uma decisão que se mostrou decisiva para o desfecho dessas eleições”, o XI Congresso (Extraordinário) foi uma importante afirmação do papel do PCP como força política indispensável da democracia portuguesa”.

A campanha eleitoral da segunda-volta foi extraordinariamente renhida, com intensificação das acções de contacto com a população nas ruas e comícios, a aposta do MASP (Movimento Mário Soares à Presidência) no debate entre os dois candidatos na RTP e especialmente nos tempos de antena, que à época tinham muita audiência.

O último tempo de antena de Soares, que jogou um papel importante na formação da opinião de muitos eleitores, foi especialmente dedicado à situação económica e laboral do jornal O Primeiro de Janeiro, então propriedade de Freitas do Amaral, por interposta sociedade (Consórcio Difusor de Notícias) gerida por quadros do CDS de sua confiança, havia vários anos com situações crónicas de salários em atraso.

A tese era simples: se Freitas não conseguia dar rumo seguro a uma empresa com 300 trabalhadores, como seria capaz de o garantir a um país inteiro?

A 16 de Fevereiro, Mário Soares ganhou a segunda volta com 51,31% dos votos.            

 

Outras efemérides neste dia

1531 – Um violento sismo – o segundo maior de que há notícia em Portugal – destrói parte da cidade de Lisboa, uma das mais importantes capitais da Europa, causando pelo menos 15 mil mortos e a destruição de mais de duas mil casas. O abalo, que sacudiu o Vale do Tejo, atingiu com especial severidade a colina de Santa Catarina.

1931 – É libertado o dirigente anticolonial Mahatma Gandhi (Mohandas Karanchad Gandhi, n. 2/10/1869 - m. 30/1/1948). Líder pela libertação do jugo britânico sobre a Índia, uso métodos não violentos, com greves de fome, marchas e desobediência civil, como o não pagamento de impostos e o boicote aos produtos britânicos, fora preso e condenado em 1922, devido a uma greve contra o aumento dos impostos, durante a qual uma multidão incendiou um posto da Polícia. A independência foi alcançada em 1947. Gandhi foi assassinado a tiro no final do ano seguinte.

1974 – Realiza-se, em casa do então capitão Vasco Lourenço, no Estoril, uma reunião alargada da Comissão Coordenadora do Movimento dos Capitães para a definição dos objetivos políticos do futuro Programa do MFA. É aprovado na generalidade um texto, elaborado por José Maria Azevedo, que serviria de introdução a um documento programático a ser aprovado numa reunião conjunta de oficiais do Movimento dos três ramos das Forças Armadas.

Mensagens populares deste blogue

Na morte do pintor António Fernando

Notas parlamentares (45)

Em defesa do jornalista Bruno Amaral de Carvalho