Na dobadoira do mundo: 2 de Janeiro
Neste dia 2 de Janeiro, em 2004, foi encontrado sem vida o escritor, poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, esse mesmo de quem se continua a parafrasear “isto anda tudo ligado”. Nascido em Chaves, em 4 de Outubro de 1942, trabalhou nos jornais O Primeiro de janeiro, Diário Popular, O Século, República e na revista TV Guia.
Da
obra literária destaca-se, entre poesia e crónica: O Perfil da Estátua
(1961), Algumas Palavras (1969), Isto Anda Tudo Ligado (1970), É
Assim Que Se Faz a História (1973), Como Quem Não Quer a Coisa
(1978), Damas de Copas (1981), Profissão de Fé (1988), Contra
a Corrente (1988), Lixo (1993), Outras Fitas (1999) e A
Noiva das Astúrias (2001).
Mário, tens razão
Mário, tens razão. O tédio é o mesmo
entre o brilho da vidraça e o copo
no balcão. Na mesa vejo as taças
pegajosas e pergunto ao Cesário
se as ruas ainda são a humidade
ou é a luz dos empedrados
que nos dá a outra vida. Essa
de pedrinhas à Pessanha, ou Oriente
que buscamos, ávidos, na sombra
dos poentes, os tais de Pascoaes,
à sombra de um outeiro. Mário,
tens razão. O tédio é o mesmo,
ao olharmos a vidraça, onde a mosca
reflecte o nojo do desgosto. Ou não?
(in A Noiva Das Astúrias)
Foto: autor não identificado, com a devida vénia
