Memória nos 50 anos do jornal "o diário"

Partilho abaixo, com a devida vénia, a belíssima - e muito oportuna - evocação, pelo José Goulão, do cinquentenário, ontem, da publicação do jornal "o diário", a acertada reflexão sobre o papel que desempenhou e a tanta falta que faz nos dias que correm, bem como a memória dos camaradas de profissão que nele trabalharam.

Ocorre-me também, com frequência, tudo isso.

Tive o privilégio de acamaradar em serviço com muitos deles, de vir a ser camarada de redacção nas redacções onde trabalhei ou colaborei e de integrar com muitos também os órgãos do Sindicato dos Jornalistas. Foram e são de primeiríssima água.

De entre as acertadas notas de memória e reflexão do José Goulão, retenho em particular a referência ao ódio que esse jornal único (e definitivamente irrepetível?) inspirava nos diversos sectores da direita (e nalguma dita esquerda...). O lema "A verdade a que temos direito" que "o diário" ostentava causava mossa.

Recordo, a propósito, uma pequena história pessoal.

Na Redacção onde iniciei a minha profissão de jornalista, a de "O Primeiro de Janeiro", passam agora 45 anos, estava proibida a entrada e a colocação dos exemplares de "o diário" nas colecções de jornais que recebíamos em permuta (prática saudável desses tempos: todos os jornais recebiam exemplares oferecidos pelos confrades).

Havia uma explicação: puro preconceito, puro boicote ao jornal "comuna" pela gente que mandava no "PJ", então propriedade do então presidente do CDS, Diogo Freitas do Amaral, através de uma entidade chamada CDN - Consórcio Difusor de Notícias, titular das acções do jornal entregue pela herdeira do velho Manuel Pinto de Azevedo Júnior ao fundador do partido.

Só por favor e cumplicidade de alguns contínuos um ou outro jornalista conseguiam consultar, às ocultas, ou levar para casa dissimuladamente os exemplares que eram escondidos à chegada. Era uma coisa irritante, insuportável.

Um dia, decidi fazer uma requisição formal de um "o diário", como se fosse um qualquer produto do aprovisionamento - fita de máquina de escrever, esferográfica... Resultou: por ordem do então director, Pedro Feytor Pinto (sabem quem foi, não sabem?), "o diário" passou a ficar disponível na Redacção do "Janeiro".

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Do perfil José Goulão no Facebook, com a devida vénia:

UM JORNAL QUERIDO E ODIADO
Passaram hoje 50 anos sobre o dia em que surgiu pela primeira vez nas bancas o matutino "o diário". Quase 30 dos trabalhadores que o fizeram juntaram-se para assinalar a data e, sobretudo, para evocar aquilo que nos juntou e tornou possível que durante 15 efémeros anos os mais desfavorecidos tivessem voz, os governos nascidos da Novembrada não tivessem sossego, para que a realidade do país não fosse escondida - desde a corrupção às malfeitorias de quantos, aos mais altos níveis quiseram, como continuam a querer, apagar o 25 de Abril da História de Portugal.
Não foi um convívio lamechas, nem de saudosismo. Nas memórias reunidas prevaleceu o que nos juntou e não demos demasiada importância às mil e uma razões que nos separaram porque cada vida é uma vida e nenhuma delas é linear. Mas os que estivemos, e falo apenas por mim, separámo-nos com a consciência de que entre 1976 e 1990, desempenhámos a nossa missão com o máximo respeito pelos portugueses que se reviram nesse jornal. "o diário" foi amado pelos leitores, que chegaram a proporcionar tiragens diárias de 120 mil exemplares, uma cifra astronómica nos dias de hoje; e foi odiado pelo poder que sequestrou a democracia, para fazer dela o que lhe convém, de maneira a eternizar-se e que criou o estado a que isto chegou.
Ter sido um jornal incómodo e odiado pela clique política dominante continua a ser um motivo de orgulho para nós. Percebemos que "o diário" não viveu em vão, serviu uma informação realista, democrática e rigorosa a quem tinha de servir e foi temido por aqueles que tentam criar, e vão conseguindo, um ambiente social vazio de opinião, conformado e manipulado.
"o diário", sobrevivendo com escassez de meios, foi atacado com obsessão doentia pelos poderes cada vez mais fortes e punitivos, até que acabou derrotado em 13 de Junho de 1990, ao cabo de 15 anos de luta. Os fazedores de historietas com as quais tentam construir a História oficial, mas que é uma história de fazer de conta, explicam que, por servir os extractos populacionais mais desfavorecidos, mas maioritários que servia, o jornal acabou por ser vítima da esplendorosa queda do muro de Berlim e da implosão da União Soviética. A arte de misturar alhos com bugalhos funciona assim, associando, de maneira espúria, o fim de um obstáculo que tanto incomodava os poderes à criação de uma situação mundial onde, finalmente, iríamos ter uma era de felicidade para todos e em todo o lado do planeta, na qual quem tem de mandar, manda e quem tem de obedecer, obedece. Uma situação que nos trouxe à iminência da catástrofe e na qual hoje vivemos.
Desde o desparecimento de "o diário" não se ergueu mais nenhuma voz capaz de causar engulhos à opinião cada vez mais única e viciada em que tentam obrigar-nos a vegetar.
Para os que não o conheceram, saibam que "o diário" teve uma qualidade jornalística única, foi formado, e também soube formar, uma plêiade de jornalistas que marcaram a imprensa portuguesa, muitos no activo e exercendo, com muito engenho e dignidade, a sua actividade de sempre, e muitos que já desapareceram e deixaram cá as suas marcas, que ninguém apagará. Nomes como Miguel Urbano Rodrigues, Armando Pereira da Silva, Miguel Serrano, Daniel Ricardo, David Lopes Ramos, João Paulo Guerra, Luís de Barros, Teresa Horta, Joaquim Benite, Adelino Tavares da Silva, Baptista Bastos, Alberto Villaverde Cabral, Araújo Moreira, Baltazar Ortega, João Alferes Gonçalves, Ribeiro Cardoso, Galvão Correia são gigantes da comunicação social portuguesa cuja obra, exemplo e memória deveriam fazer corar de vergonha os que aviltaram a profissão até ao estado de subserviência a que a o jornalismo chegou perante os poderes.
As suas memórias estiveram hoje connosco, na companhia de outros craques que continuam entre nós, como Rogério Carapinha, Carlos Coutinho, António Melo, Lina Pacheco Pereira, Fernando Negreira, José Carlos Pratas, Luís Severo, Luís Manuel Vasconcelos, Luís Frade, Orlando César, José Luís Fernandes, Frederico de Carvalho, Ana Fonseca, Paulo Paixão, Paulo Caetano, Martins Morim, Nuno Gomes dos Santos, entre alguns outros. Todos fizeram "o diário" valer a pena e cumprir corajosamente a sua missão inconformista, democrática e de âncora do pluralismo de expressão e opinião. Nomes aos quais se juntam todos os trabalhadores e trabalhadoras de sectores sem os quais o jornal não teria existido, desde o design e artes gráficas até ao secretariado de redacção, passando pelo Centro de Documentação, serviços da Editorial Caminho (a genuína), motoristas, telefonistas. Uma evocação também para os gráficos, montadores, revisores da Heska Portuguesa em tempos onde a informática estava muito longe de desempenhar o papel actual.
"o diário" durou pouco, teve uma vida rica mas demasiado curta, insuficiente para ajudar a democracia e o pluralismo de opinião e expressão a consolidar-se. Mas cumprimos a nossa tarefa enquanto pudemos. O caminho valeu a pena e pode ser um exemplo para quem queira e possa retomar a tarefa. É fundamental que isso aconteça.

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