Na dobadoira do mundo: 29 de Janeiro
Neste
dia 29 de Janeiro, em 1963, é publicado o primeiro número da revista O
Tempo e o Modo, uma pedrada no charco de conformismo lançada por um grupo
de intelectuais católicos progressistas críticos do salazarismo (António Alçada
Baptista, director; João Bénard da Costa, chefe de Redacção; Pedro Tamen,
editor; Juno de Bragança e Alberto Vaz da Silva, redactores principais; e Mário
Ventura), que enfrentou os incómodos da censura.
A esse grupo viria a juntar-se um conjunto de
colaboradores portadores de olhares e propostas no campo laico progressista e
democrático, nomeadamente Mário Soares, Jorge Sampaio, Salgado Zenha, Adérito
Sedas Nunes, António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço, Jorge de Sena, José
Rodrigues Miguéis, Óscar Lopes e José Gomes Ferreira, Medeiros Ferreira e
Manuel de Lucena, entre muitos outros.
Proclamando-se, em subtítulo, "Revista de
Pensamento e Acção", a nova publicação anunciou logo ao que vinha, num
editorial que não ilude o "estado de crise da consciência colectivs"
que no início desse ano de 1963 grassava.
"Todos sentimos que estamos perante uma
conjuntura mundial e local, que certas elites políticas, económicas e culturais
se recusam a olhar de frente e coom serenidade", nota o texto.
"Eis por que nos parece indicado, contra um
modo astucioso de tratar as coisas e os homens e as suas relações, que, ao
nível dos problemas de consciência, haja um modo novo de olhar com atenção,
ouvir e pesquisar com humildade, denunciar sem compromissos e concluir com
falibilidade", prossegue.
Pouco mais adiante, este manifesto programático
da revista, esclarece:
"Assim, pretendemos lutar, a nosso modo e
também, contra a geral 'desordem estabelecida', isentos de qualquer
confessionalismo ou partidarismo político concreto, preocupados em localizar e
fazer incidir o nosso esforços sobre a análise, clarificação e resolução dos
problemas que afetam o nosso tempo particular propondo-nos especialmente –
reflectindo uma concepção libertadora da História e da Pessoa Humana, que
acentue o primado desta sobre as necessidades materiais e técnicas colectivas
em que se baseia o seu desenvolvimento – estudar com atenção crítica todas as
formas de regressão e entrave a esse seu progressivo desenvolvimento, quer no
que se refere à organização e governo da cidade, quer ao contexto sociológico,
libertador ou opressivo, das expressões religiosas, culturais e económicas em
que o homem se move e o condicionam."
Vale a pena reter o seguinte e derradeiro
parágrafo do editorial:
"Gostaríamos que um pensamento orientado
para preocupações deste tipo fosse suficientemente forte para abalar muitos
anos de apatia e descrença; suficientemente honesto para poder merecer alguma
confiança; suficientemente humano e verdadeiro para poder unir aqueles a quem o
homem e a verdade preocupam; suficientemente convincente para poder despertar
alguma esperança."
Outras efemérides nesta data
1963 – A França, presidida pelo general Charles De
Gaulle, veta a entrada do Reino Unido na então Comunidade Económica Europeia
(CEE). Londres, que pedira a adesão em 1961, apesar da sua discordância em
relação à criação da CEE (pelo Tratado de Roma de 25 de Março de 1957, com a
Alemanha, França, Itália, Reino Unido, Bélgica e Luxemburgo), defendera antes
uma zona de livre comércio e estivera na origem da EFTA – Associação Europeia
do Comércio Livre, criada por convenção de 4 de Janeiro de 1960, entre Áustria,
Dinamarca, Noruega, Portugal, Suécia e Suíça.
O Reino Unido voltou a pedir a adesão à CEE em
1967, mas De Gaulle, receoso das relações privilegiadas de Londres com os
Estados Unidos da América, voltou a opor-se. A entrada ocorreu apenas em 1973,
já após saída do velho general do poder,
em 1969.
Foto: Hemeroteca Municipal de Lisboa
