Na dobadoira do mundo: 28 de Janeiro

Neste dia 28 de Janeiro, em 1916, há 110 anos, passam hoje, nasce, em Melo, concelho de Gouveia, o escritor Vergílio Ferreira (m. Lisboa, 1/3/1996), nome maior da literatura portuguesa do século XX, autor de uma extensa obra literária, sobretudo ficção (Manhã Submersa, Cântico Final, entre outros títulos fundamentais), mas também de ensaio e de obra diarística. Com passagem relativamente breve pelo neo-realismo, foi marcado essencialmente pela modelação existencialista de Jean-Paul Sartre, tendo sido especial alvo da Censura (Vagão J, por exemplo) e largamente premiado. Entre outros títulos, destacam-se os romances O Caminho Fica Longe (1943), Vagão “J” (1946), Manhã Submersa (1954), Aparição (1959), Cântico Final (1960), Estrela Polar (1962), Alegria Breve (1965), Signo Final (1979), Em Nome da Terra (1990) e Cartas a Sandra (1996).


"Sentia-se profundamente bem, quando as dores o esqueciam um pouco, sentia um prazer quente, como um bafo na face, em olhar a neve que não cessava de cair, em escutar essa vibração íntima do silêncio que alastrava com ela sobre a terra. E ao ouvir uma palavra erradia dos vultos breves que passavam no caminho, ao pressentir de novo essa obscura união da montanha ao frémito dos astros, de tocar, como numa suspeita, o intrínseco recolhimento do mundo a uma hora primordial de verdade indizível – qualquer coisa mais forte e intocável do que uma presença na noite o gravava de um apelo de paz, de resignação, de desistência, como a evidência serena de um limite atingido."

In Cântico Final

 

 

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