Portugueses, os turistas de recurso

Alentejo, pormenor.

Tenho a sorte de conhecer razoavelmente  país, de ter viajado e pernoitado nas várias regiões - do litoral ao interior, e de preferência neste - ao longo dos anos, muito antes e durante o, pelos vistos, estado de graça junto dos turistas estrangeiros, agora quebrado com a pandemia de Covid-19. Espero continuar a frui-lo o melhor que puder.

Conheço o país real das principais cidades a aldeias e cantos recônditos, dos museus mais ricos ou mais modestos onde me reencontro com a memória e o conhecimento, às montanhas onde refresco a alma com os ventos lavados ou me procuro no céu polvilhado de estrelas, passando pelas aldeias em declínio onde as ruínas me falam das gentes, ou pelos bosques onde a Natureza me fala de mistérios essenciais da vida.

Sou do tempo em que todos nos sentíamos essenciais, onde quer que nos sentássemos para merendar ou simplesmente para recostar o corpo e dessedentar de uma caminhada, ou a quem quer que nos dirigíssemos, fosse para buscar informações sobre lugares, monumentos e memórias, fosse para beber da fonte luminosa dos saberes populares.

Mas sou também do tempo em que paisagens, costumes, lugares, falares, sabores, cheiros, edifícios, tradições foram erigidos à sacrossanta categoria de mercadoria, em que uma generosa fritada de peixes do rio, pratos de presunto, orelheira, bucho de porco e polvo com molho verde, umas azeitonas, pão de milho ou centeio e o refrigério de um jarro de vinho - festim fraterno sob a generosidade de uma parreira - foram alçados à dignidade de coisa gourmet, o que quer que isso seja.

Com certa bonomia, fui aturando um crescendo de impertinência e até de alguma má-educação de empregados e gerentes de hotelaria e restauração para com os turistas tugas, tornados inconvenientes ao ambiente selecto de tabernas e estalagens do torrão pátrio e estranhos à clientela vinda de outras paragens.

Confesso que aturei por vezes tudo isso perdoando-lhes o atrevimento e a ignorância, na esperança de que algum proveito obtivessem dessa experiência, quando mais não fosse em matéria moral, isto é, de ensinamento útil para as coisas da vida, relativizando as ideias de grandeza e a soberba de circunstância.

De algum modo, esta crise que suspendeu a actividade de restaurantes, hotéis e outros lugares ajudou-me a perdoar essa gente e a desejar que, quanto mais não seja pela garantia de sobrevivência de quem precisa de trabalhar, tudo se recomponha e que ganhem honestamente a vida.

Dá-se o caso de ter visto, nas últimas 24 horas, reportagens televisivas fazendo apelos lancinantes aos portugueses para que frequentem instalações turísticas "exclusivas", nomeadamente no Douro vinhateiro, deixadas vagas pelos turistas estrangeiros e mostrando a oportunidade que agora se nos abre a todos - pobres dos portugueses! - com 50% de desconto e outras promoções.

Retenho especialmente a frase cínica (cito de memória): "Se não podem vir os estrangeiros, que venham os portugueses". Como quem diz que venha a ralé, que com ela se contentará o negócio à míngua de moeda mais nobre. 

Pobre país, miserável promoção turística, mesquinho jornalismo de frete.

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