Televisão:Um testemunho e uma hipótese
Nas minhas viagens pelo país, há um elemento que me fascina tanto como inquieta – as ruínas de edifícios e estruturas abandonadas, ora pontuando paisagens como chagas pulurentas, ora agigantando-se tragicamente em zonas industriais, ora alastram em impotência em aldeias, vilas e cidades. Ao fascínio estético das leituras da luz, das cores e das sombras, dos desafios da desconstrução e da imaginação, alia-se a interpelação por vezes angustiada da memória: que homens e mulheres povoaram estes agora-destroços, o que se pensou e melhor ou pior se fez, que sonhos se construíram ou se frustraram, que riquezas se produziram ou se desmoronaram, que futuros se não cumpriram, neste chalé escanzelado entre pinheiros-mansos a olhar um mar antigo, nesta fábrica esventrada e chaminé periclitante e teimosamente hasteada, neste sanatório acometido de silvados e desespero, nesta estação de caminho-de-ferro enferrujada e destino único para o passado?... Deu-se o caso, há uma semana, de a RTP2 transmitir...