O plebiscito mediático do recandidato Cavaco Silva

Passe a presunção, pois sempre ouvi dizer que elogio em boca própria é vitupério, mas devo pertencer a um grupo provavelmente reduzido que (i) lê os relatórios da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) e (ii) considera que os relatórios da ERC são úteis – e por isso são públicos – para que todos nós – jornalistas, cidadãos e por aí fora – tenhamos uma ou mais ideias de como anda a dita Comunicação Social (e a ERC, claro!).
Posso não concordar com o modelo adoptado pelo poder político para o Regulador dos media, posso discordar desta ou daquela conclusão nesta ou naquela deliberação ou neste ou naquele relatório, posso não – ou sim – em relação a uma série de coisas, mas essa divergência (aliás suponho que publicamente conhecida ou publicamente escrutinável (presunçoso reincidente!) só torna clara a minha independência e a minha autoridade moral (outra vez a presunção!) para declarar que não considero os relatórios da ERC, mesmo os relativos ao pluralismo informativo, instrumentos de “interferência nas redacções” e que muitas vezes estou de acordo, total ou parcialmente, com o Regulador.
Feita esta declaração de interesses, vamos ao caso.
Na sua primeira Deliberação de 2011 na área do Pluralismo, o Conselho Regulador da ERC adoptou um relatório sobre a cobertura jornalística das eleições presidenciais de 23 de Janeiro passado. No meu modesto entendimento, o relatório é pouco ambicioso (sabe-me a pouco…), mas é, mesmo assim, muito interessante e serve de base de discussão, por exemplo, acerca do modo como o sistema mediático montou uma “cobertura jornalística” em função de uma avaliação prospectiva dos resultados eleitorais e como fez dela uma espécie de plebiscito mediático do recandidato Cavaco Silva.
Outro dado curioso – e agora fora do relatório da ERC – é o facto de, a menos que eu ande mais distraído do que penso, o mesmo relatório não ter merecido mais do que umas linhas noticiosas e de nenhum editorialista, nenhum politólogo, nenhum cronista, nenhum crítico terem discorrido sobre os elementos do documento.

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