Notas de campanha (9)

1. Esta é uma variante da repressão machista do simples acto de aceitar propaganda política. A cena passa-se à saída de uma fábrica. O casal segue num automóvel, transpondo o portão (ele tinha ido buscá-la). Do lado do condutor, um camarada oferece-lhe um dos documentos, mas o homem rejeita-o num gesto brusco. A mulher baixa o vidro para pedir um desdobrável. No momento em que lho estendo, ele acelera a fundo, frustrando à companheira o direito à informação.

2. "Não voto para a Câmara, porque não nos resolvem o problema da ponte!", esbraceja a mulher. Procuramos explicar-lhe que vale a pena votar na CDU, que temos levado o caso à Assembleia Municipal, mas precisamos de ter mais força. Ela desconfia. Custa-lhe crer que conheçamos sequer o problema. Pisão, em Ardegães, freguesia de Águas Santas, é um lugar esconso que não consta no mapa da Maia do "desenvolvimento harmonioso" que só existe no imaginário do presidente cessante. Há uns cinco anos que a ponte centenária não pode ser utilizada sequer por peões e em Março as cheias agravaram a ruína de um pilar e fizeram desabar várias lajes do tabuleiro. Insisto que conhecemos bem o caso e até o descrevo (ver informação aqui), mas que a CDU apenas com dois deputados municipais não consegue fazer mais. "Sim, realmente é preciso mais", reconhece. "Boa sorte!" E desceu para os moinhos do Pisão cuja ponte está muito longe do paraíso maiato.

3. Outra cena da Maia real: Como o lugar, a mercearia está cada vez mais vazia. "É por causa do Continente e dos que se foram daqui", explica a merceeira. "Só ficaram os caloteiros. Quando têm dinheiro, vão ao supermercado; quando não têm, vêm aqui, para o fiado".

4. No centro da cidade, um homem sacode o braço, rejeitando ostensivamente a propaganda. "Não quero nada disso! Eu, de política, não quer nada!" E vota? Que não. Então outros decidem por si... "Não faz mal!"

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