Na dobadoira do mundo: 15 de Fevereiro
Neste dia 15 de Fevereiro, em 1931, passam
hoje 95 anos é publicado pela primeira vez o jornal Avante!, órgão
central do Partido Comunista Português (PCP), fundado dez anos antes (6 de
Março de 1921) e nesta altura a viver em difíceis condições de clandestinidade,
com a instauração da chamada Ditadura Militar pelo golpe fascista de 28 de Maio
de 1926.
A primeira página do Avante!, o
jornal comunista que, em todo o mundo, mais tempo resistiu à clandestinidade e
sempre produzido e impresso no país, foi inteiramente preenchida por uma
saudação “Ao proletariado de Portugal”, que continua em grande parte da 4.ª e
última página.
Na saudação, o jornal analisa o quadro
de “persistente repressão”, exploração e miséria sobre os trabalhadores e o
povo, salienta o papel do PCP, "chamando os que sofrem a incorporarem-se
nas fileiras revolucionárias", e explica a necessidade da sua criação:
“Um órgão de imprensa se nos tornava
indispensável para denunciar ao povo português todas as tropelias, todas as
maldades e todos os crimes que contra ele se praticam diariamente. Esse órgão
será AVANTE! que surge da sombra da clandestinidade, mas que iluminará o
caminho que o proletariado português deverá seguir para alcançar o poder
político e económico do país, para alcançar a sua emancipação.”
Nos primeiros dez anos, em
consequência das enormes dificuldades do trabalho do PCP na clandestinidade,
que se reflectem na produção, impressão e distribuição, a publicação do Avante!
foi irregular, embora nunca tenha sido interrompida, tendo até chegado a ser
semanal nos anos 1937/38.
Com a reorganização do Partido de 1940/1941
e a melhoria da actividade, incluindo com maior estabilidade das tipografias
clandestinas, nunca mais deixou de publicar-se com regularidade, pelo menos uma
vez por mês, aprofundando o seu papel de agitação e propaganda e formação ideológica,
de consciencialização e mobilização do movimento operário e de divulgação de
informações que nenhum outro jornal estava em condições de dar.
Durante o fascismo, apesar das difíceis
condições da sua produção, é o único jornal verdadeiramente livre da censura à
imprensa, capaz de divulgar as actividades e posições do PCP, notícias das
lutas dos trabalhadores, das greves e acções de massas, de informar sobre os
avanços dos Aliados e da União Soviética na II Guerra Mundial, nas batalhas nas
farsas eleitorais, na denúncia da guerra colonial e no apoio aos movimentos de
libertação, de esclarecer sobre da situação nacional e internacional.
Quem hoje quiser aprofundar o
conhecimento designadamente de greves de empresas ou de sectores, de
manifestações como o 1.º de Maio ou o Dia Internacional da Mulher, de
comemorações como o 31 de Janeiro ou o 5 de Outubro, assim como de posições e
informes do PCP sobre a situação política, económica e social no país e no
estrangeiro, ou os seus próprios congressos, apenas nas edições clandestinas do
Avante! encontra um importante manancial de elementos.
O número de Março de 1974, por
exemplo, é um impressionante repositório das inúmeras empresas por todo o país atingidas
pela onda de mais de 100 mil trabalhadores em luta, dos quais 60 mil cumpriram
greves e paralisações, a par dos elementos que autorizavam o jornal a anunciar
no título principal: “Está em marcha um grande movimento de massas” e a exortar
à preparação do 1.º de Maio.
Vale a pena consultar também número de
Abril desse ano, redigido, composto e impresso antes da Revolução do 25 de
Abril, encabeçado por um sugestivo título – “Não dar tréguas ao fascismo” – e com
uma abordagem muito explícita ao “movimento que abrange centenas de oficiais”
feita num texto, também de primeira página, singularmente intitulado “Aliar à
luta antifascista os patriotas das Forças Armadas”. Estava em marcha a aliança
libertadora.
Publicado pela primeira vez “à luz do dia”
da liberdade, em 17 de Maio de 1974, com a belíssima tiragem de meio milhão de
exemplares, na qual anunciava, em manchete “Os comunistas no Governo Provisório”,
o Avante! prosseguiu e aprofundou a sua tarefa de informação,
esclarecimento, consciencialização e mobilização, cobrindo as conquistas dos
trabalhadores e das comissões de moradores.
Hoje, o Avante! continua a ser o único
jornal que “acompanha a actualidade do País e do mundo na perspectiva dos
trabalhadores e dos povos, das suas aspirações e lutas, que noticia o que os
outros ocultam e desmonta narrativas dominantes” (in Avante!,
12/2/2026).
