Da construção da utilidade do voto

"Inútil", disse o Doutor Rangel do voto no PS, numa entrevista concedida ontem à SIC. Calculo que nos próximos tempos comentadores encartados dedicarão uma parte do alvoroçado labor das suas delicadas meninges a glosar o novo conceito, elaborado por antonímia com o vulgar "voto útil".

Aguardaremos os contorcionismos semânticos e a ginástica argumentativa nas opinativas cabeças que enxameiam os media. Mas podemos ficar já com a certeza de que manterão a devota fixação na utilidade do voto, analisada na única perspectiva de sempre: a de que o voto só é útil quando endossado a uma ou a outra das duas formações alternantes, isto é, ora PS, ora PSD, e vice-versa. 

Trata-se, na verdade, de uma obsessão pela estabilidade, da qual a alternância e a delimitação do "arco do poder" (em parte rompida com a solução de 2015...) são instrumentos vitais, estabilidade essa muito cara ao chamado "mundo empresarial". 

Ainda ontem, precisamente, o Conselho Nacional das Confederações Patronais considerou  "fundamental que, com a celeridade possível no atual momento político, venham a ser encontradas soluções de governação que garantam uma adequada estabilidade política". 

O patronato e muitos opinadores continuam a viver mal com as "incertezas" da democracia e com a possibilidade de que o voto útil ser aquele que, afinal, contribui para dar voz às diferentes vozes de que o povo se compõe e mesmo para romper o cerco do consenso que bloqueia alternativas progressistas.

O voto útil é uma construção antidemocrática e os apelos ao seu uso representam um condicionamento da vontade dos eleitores. É "natural" que os partidos e os dirigentes da alternância, considerando-se proprietários, à vez, do pensamento dos cidadãos, não hesitem em recorrer a tal expediente. Mas os media prestariam melhor serviço se lhes não dessem tanta corda.    

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