Do mural na Trindade ao urgente Museu da Resistência no Porto
Foi inaugurado hoje, junto à estação da Trindade do Metro do Porto, um mural colectivo de azulejos evocativo dos 50 anos do 25 de Abril e da Constituição da República Portuguesa, oferecido pelo Partido Comunista Português (PCP) à cidade do Porto.
Obra colectiva, com a participação de 736 pessoas, entre crianças e jovens, homens e mulheres das mais diversas origens, formações e profissões, o projecto foi concebido e dirigido pelo artista plástico e militante comunista Miguel Januário.
No acto inaugural, que contou com a presença e a intervenção do secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, coube-me dizer o seguinte:
Queridos camaradas,
Caros amigos,
Querido camarada Miguel Januário,
Caras e caros autores destes magníficos 736 azulejos,
Caros construtores e assentadores desta obra colectiva de que nos orgulhamos,
Termina hoje, com a sua entrega à cidade do Porto, o exaltante percurso de criação e execução deste mural colectivo “Cumprir”, que contou com a participação de largas centenas de crianças, jovens, homens e mulheres que aqui nos deixam o seu olhar, a sua interpretação e também as suas inquietações sobre o significado e o alcance desse feito maior que foi o 25 de Abril.
Ao oferecer à cidade esta obra colectiva, o PCP homenageia o Porto, mas também a região, os seus trabalhadores e as suas gentes, as colectividades e outras organizações populares, os sindicatos, os militantes comunistas e outros democratas que souberam receber e tomar nas suas mãos os desígnios de transformação revolucionária anunciados pela alvorada emancipadora desse dia generosamente proporcionada pelos militares do Movimento das Forças Armadas.
Tal como os azulejos saídos da imaginação ou da memória dos seus criadores, ou como o resultado da conjugação desses fragmentos, a localização escolhida para a sua disponibilização ao público reveste significados e assume uma importância simbólica que dão sentido ao tributo devido a todos quantos tornaram possível o 25 de Abril, a todos os que o levaram a cabo e a tantos outros que, celebrando-o, com a Revolução construíram futuro nas fábricas e nos escritórios, nos campos e no mar, nas comissões de moradores, no movimento sindical e no movimento cultural.
Hoje, como então, este local é uma estação onde chegam e de onde partem tantas gentes e outras tantas esperanças, e onde, entre vários outros pontos da cidade, muitos aqui confluíram para saudar a liberdade, logo descendo a Avenida a exigir mudanças e transformações.
O entusiasmo que tomou a cidade não foi um acidente de contágio: resultou da adesão colectiva à urgência dessas mudanças e a expressão de um clamor pela justiça amordaçado durante os 48 anos de fascismo.
Foi com essa alegria, mas também com essa plataforma de exigências que o povo do Porto foi concentrar-se na delegação da PIDE/DGS e reclamar a imediata libertação dos presos políticos, no que foi um dos momentos mais impressionantes do 25 de Abril na cidade.
Lá estavam, entre a multidão, resistentes antifascistas como Virgínia Moura, Óscar Lopes, Arnaldo Mesquita e Papiniano Carlos, e outros que tinham sofrido perseguições, prisões, torturas e a repressão do aparelho fascista.
Lá estavam esses de muitos outros que deram rosto e exemplo no combate ao fascismo (Ruy Luis Gomes, José Morgado, Lobão Vital, Maria José Ribeiro, Armando e Raúl Castro, Macedo Varela, António Mota, Agostinho Lopes, César Príncipe…) e sofreram a brutalidade policial nos comícios da oposição democrática, no Dia Internacional da Mulher, no 1.º de Maio, ou nas comemorações do 31 de Janeiro.
“O Povo Unido Jamais Será Vencido!” era a palavra de ordem nesses dias libertadores de Abril por todo o país.
Pouco mais de dois meses antes, a 31 de Janeiro de 1974, essa consigna fora usada, como um grito de revolta, na tarja que, no Coliseu do Porto, adornava a enorme mesa do comício comemorativo da malograda revolta republicana de 1891.
Também essa memória integra o extenso e valioso património de luta e de resistência do Porto e da sua região.
Evocando agora esses nomes e esses factos, lembramos que ainda falta cumprir a obrigação de criar, na antiga delegação da PIDE/DGS, o Museu da Resistência que há tantos anos se aguarda.
Devemo-lo à memória de todos cujo sacrifício tornou Abril possível – e aqui permitam-me que destaque Álvaro Cunhal, que também sofreu a prisão nessa delegação da PIDE.
E devemo-lo com urgência, quando se tenta branquear o fascismo e relativizar a repressão fascista.
Pela parte do PCP, mantemos e renovamos o compromisso de tudo fazer para o concretizar.
Viva a memória da resistência antifascista!
Viva o 25 de Abril!