terça-feira, 20 de setembro de 2016

A verdade verdadinha de Caracas (parte 2)


Regressemos à Venezuela.

Dia 7 de Setembro – recordam-se? – deveria registar «grandes marchas» sobre a sede e as delegações do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), com as quais a Mesa de Unidade Democrática (MUD) pressionaria nas ruas a divulgação das «condições» para a realização de um referendo revogatório do mandato do Presidente da República, Nicolás Maduro.

Dia 14 de Setembro deveria ser o dia da «tomada» de todas as cidades da Venezuela pela MUD, pelo período de 12 horas, que o governador do estado de Miranda e candidato presidencial derrotado em 2013, Henrique Capriles, quis transformar em ocupação por nada menos de 24 horas[1].   

O que aconteceu? Quase nada, a despeito de uma entusiasmada campanha de mobilização assumida pelos Media comprometidos com a oposição e a direita golpista e apostados na derrota da Revolução Bolivariana, como se não bastassem as vicissitudes internacionais e os obstáculos estruturais que ainda não foi possível ultrapassar.

O que aconteceu no dia 7 foi um grande fracasso da MUD. As suas acções foram de tal modo inexpressivas que a imprensa venezuelana afeiçoada à oposição (El Nacional e El Universal, por exemplo) teve sérias dificuldades em alimentar a «onda» nas respectivas edições electrónicas.

«A oposição venezuelana estende os protestos de rua às províncias», anunciara, horas antes, em título, o «diário global» El País, cuja implantação na América Latina promete generosos réditos ao grupo Prisa e não é alheia a uma agenda mediática hostil ao ascenso e êxito de forças progressistas na região. 

Contribuindo «jornalisticamente» para a mobilização, o jornal acrescentava em pós-título: «A Mesa de Unidade Nacional convoca uma nova jornada de marchas em todo o país depois do êxito da tomada de Caracas». A bitola, de resto muito forçada, estava marcada: era forçoso superar o «êxito».

Ao longo do dia, El País, que já não disfarça a sua campanha contra a Revolução Bolivariana nem o apoio ao derrube de Maduro, não difundiu em linha qualquer notícia, pequena que fosse, sobre o desenvolvimento das «marchas em todo o país». Não tinha como.

O tema é tratado na edição do dia: «O chavismo sai à rua em resposta à mobilização da oposição», titula, tentando enfatizar uma dimensão que as «marchas» não tiveram.

Habitualmente generoso em cifras para as «mobilizações» da MUD, El País quantifica a jornada com a expressão «milhares» – e apenas uma vez no texto, que aliás não contempla uma nota de reportagem sequer sobre os acontecimentos, incluindo sobre as concentrações do Grande Pólo Patriótico, apesar de estas serem o «gancho» da notícia.

Hábil na engenharia de títulos de tese[2], o que El País pretendia era vincar o objectivo do seu militante ministério editorial aliado da direita venezuelana. O pós-título diz tudo: «A Mesa de Unidade marchou hoje nas províncias venezuelanas para insistir com o Conselho Nacional Eleitoral para que agilize o referendo para revogar Maduro».

El País não está só na campanha internacional e tem parceiros de peso. Dois dias antes, The Wall Street Journal, cujos interesses são evidentemente coincidentes com os do capital, fazia um apelo pungente ao presidente norte-americano para que «não abandone» a Venezuela.

Sublinhando que um referendo ainda este ano «não se realizará sem a pressão da comunidade internacional» o editorial do jornal da praça financeira nova-iorquina justificava a ofensiva, ao aconselhar o presidente Barack Obama, pois este «poderia conseguir muito mais» do que «a abertura com Cuba» «se ajudasse a Venezuela antes de (Maduro) concluir o seu mandato».

Em sucessivas peças sobre o referendo, El País, como a MUD, obstina-se em acusar o CNE de não informar sobre datas e procedimentos para o referendo, dando cobertura a uma nebulosa que a direita tanto porfia em adensar.

Sucede que o CNE já publicitou como decorrerá o processo de referendo, com datas, prazos e procedimentos, tendo fixado desde 24 de Agosto a altura (entre 14 e 16 de Setembro) em que seria definitivamente anunciado o prazo para a recolha de assinaturas.

Chegados ao dia da famosa “tomada” de todas as cidades da Venezuela pela MUD, 14 de Setembro, o que aconteceu? Nada do que se assemelhasse a uma “tomada” de uma cidade, sequer de um vilório, uma manifestação, uma concentraçãozinha…

A MUD, que mantinha conservações para o diálogo com o Governo mas as pretendia secretas, decidira afinal esperar o anúncio do CNE e adiava a «conquista» da Venezuela nas ruas. Mas o jornal da Prisa não regateia o apoio à campanha da direita latino-americana em recomposição.

Omitindo que a Venezuela reagira com veemência a uma decisão que viola o tratado do Mercado Comum do Sul (Mercosul), El País respaldo à direita revanchista que recupera os comandos na região, especialmente no Brasil (foi golpe, sim, senhor!), dando voz apenas aos que pretendem impedir ilegitimamente Caracas de assumir a presidência semestral do bloco.

Adiada a famosa “tomada” urbana da Venezuela para o dia 16, que aliás impediu o CNE de cumprir o prazo para o anúncio das «condições» para o requerimento do referendo, de que nos deram conta a imprensa local e a imprensa global galhardamente representada por El País?

De que, sim, houve uma nova «marcha contra o novo atraso no revogatório», mas sem descerem ao pormenor da dimensão e dos efeitos da dita-cuja. Há detalhes dos quais o «jornalismo global de referência» se dispensa. Basta o selo de «credibilidade», não é? 


(Publicado hoje em AbrilAbril)


[1] «Oposição a Maduro convoca jornada de protesto de 24 horas”, titulava o Diário de Notícias na edição de 8 de Setembro 
[2] Ver, sobre este e outros problemas do «jornalismo de referência» de El País, «O Novo Jornalismo Fardado – El Pais e o Nacionalismo basco», de Angel Rekalde e Rui Pereira, Campo das Letras, 2003