quarta-feira, 23 de março de 2016

E se pudéssemos escutar Johana Tablada?

Johana Tablada interrogada por João Adelino de Faria

Só há alguns minutos pude ver, "rebobinando-o", o programa informativo "360º" da RTP3 de segunda-feira passada, no qual participou a embaixadora de Cuba em Lisboa, Johana Tablada.

Faço desde já quatro ressalvas, ou declarações de interesses:
1.ª - Tenho uma consideração pessoal pelo meu camarada de profissão João Adelino de Faria, por razões que não vêm agora ao caso, e também profissional, embora várias vezes discorde do modo como conduz as suas entrevistas e muitas outras dos seus textos de opinião na imprensa.
2.ª - Tenho uma grande admiração pela Revolução cubana e pelo homérico esforço e pelo denodado sacrifício com que o povo e o governo cubanos têm resistido mais de meio século a um violento e injusto bloqueio imposto pelos Estados Unidos da América, ao qual a generalidade dos países ocidentais não teve, durante décadas, a decência de opor-se activamente.
3.ª - Em Novembro de 1999, tive ocasião de visitar Havana, de contactar várias entidades, de conhecer Fidel Castro, de cujo memorável discurso na Aula Magna da Universidade de Havana guardo uma preciosa cópia taquigráfica, de conversar as horas que quis com as pessoas que quis sobre a realidade, os problemas e os anseios do povo cubano, de circular pelas ruas de uma cidade extraordinária e de reflectir sobre as dúvidas ideológicas que a situação de então e o futuro me colocavam.
4.ª - Em Maio do ano passado, tive a oportunidade, por mero agendamento profissional, de entrevistar para o "Jornal de Notícias" a embaixadora de Cuba em Lisboa, Johana Tablada, com quem tive também a ocasião de conversar para além da entrevista formal e cuja inteligência, cultura, conhecimentos e convicções me não deixaram dúvidas.

Dito isto, e independentemente de outros eventuais desenvolvimentos sobre o tema, devo dizer que o programa "360º", em particular, e os telespectadores, em geral, perderam muito por João Adelino de Faria não ter sabido perguntar e, sobretudo, não ter sabido escutar Johana Tablada com a serenidade que se impunha e sem o habitual preconceito anti-"regime".  

É uma pena. Se isso tivesse acontecido, e se o programa tivesse tido a arte de balancear as contribuições de Johana Tablada e do Professor Filipe Vasconcelos Romão (muito interessante), teria sido um excelente momento de Serviço Público de Televisão. E talvez prevenisse os editores da RTP para os disparates das reportagens primárias dos seus enviados a Havana - esta última, e os anteriores.