sexta-feira, 30 de julho de 2010

O pâncreas de António Feio

Admirava - e admiro - António Feio. Era um grande actor. Guardo várias memórias inesquecíveis dele. Uma é a sua interpretação soberba (além da encenação) de "O Que Diz Molero" (1999), do  original de Diniz Machado, que evoco com a reprodução de uma foto do seu sítio. Outra é a sua sarcástica tirada, agradecendo um prémio (julgo que os Globos d'Ouro da SIC, mas peço desculpa se me engano), na qual diz - e cito de memória - qualquer coisa como "Agradeço muito ao meu pâncreas, porque graças a ele tenho recebido muitos convites" (lamento muito a minha inépcia, mas não consigo encontrar o vídeo do episódio). Lembro-me de que, na plateia, muita gente riu e ainda hoje a tirada é apontada como um momento de humor. Mas não me lembro de ter ouvido e visto estocada mais séria, mais profunda e penetrante na hipocrisia dos processos de mediatização das chamadas celebridades. O sorriso incomodado - e incómodo - com que proferiu aquelas palavras ficou-me marcado.