terça-feira, 26 de dezembro de 2017

O sobressalto da Altice e a embaraçosa agonia da ERC


Há pouco mais de um ano, o mercado dos media foi tomado pelo sobressalto do anúncio da intenção da multinacional de origem francesa Altice de adquirir o importante grupo Media Capital, e muito especialmente a estação de televisão TVI, a produtora de conteúdos Plural e o respectivo grupo de rádios, de grande audiência.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Uma questão de língua

Nos comícios para as eleições de quinta-feira na Catalunha (impostas pelo Governo espanhol), os líderes das organizações regionais do Partido Popular e do Ciudadanos falam em Castelhano. Não há coincidências, nem equívocos.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

A morte de um empresário


Os obituários, em geral, e os grandes destaques, em particular, são espécies que justificam estudos e reflexões sobre as opções e práticas jornalísticas. Não apenas pelo que retêm e cristalizam dos aspectos conhecidos ou ignorados da biografia dos defuntos, mas também pelo consenso que constroem sobre boa parte das figuras desaparecidas e, sobretudo, pela glorificação em que redundam, por vezes, os registos editoriais, num exercício de independência no fio da navalha.
Por exemplo, a morte recente do empresário Belmiro de Azevedo, que ocupou em pleno os noticiários aos audiovisuais e dos meios de informação em linha de 29 e 30 de Novembro, bem como foi assunto principal dos jornais deste último dia, constitui um interessante caso que seria útil analisar com detalhe crítico – tarefa que não cabe neste artigo, nem a tal se propõe, mas que se sugere a académicos.
Um voo rasante sobre o conteúdo, os ângulos de abordagem e os qualificativos evidenciam, em geral, uma atitude encomiástica e uma dificuldade de descomprometido distanciamento dos media. Não está em causa a relevância da personagem, inegável na história económica, social, política e cultural do país, assim como é inegável que o acontecimento teria de ser forçosamente notícia. A pergunta legítima consiste em saber se houve exagero no espaço e no «tom»…
Os jornais impressos, por exemplo. Os diários generalistas nacionais não regatearam as honras de primeira página com grandes destaques – a totalidade da mancha impressa, no caso do Público; cerca de 75% no caso do i; 60% no do Jornal de Notícias; 36% no do Correio da Manhã; e 34% no do Diário de Notícias.
Também não foram parcos em páginas noticiosas – 18 no Público, nove no JN, seis no i e quatro no DN e no CM (embora, nestes últimos, com um anúncio numa delas). Justificava-se? Pelo menos o facto de todos eles publicarem editorais (ou artigos de opinião do diretor ou de um adjunto) avaliza a importância transcendente conferida ao acontecimento.
É comum ouvir-se que, quando morre alguém, a imprensa não diz senão bem, ou pelo menos é comedida nas críticas, ou adia-as para outras oportunidades. Terá o vulgo razão? Em 57 peças (incluindo editoriais e artigos de opinião/depoimentos solicitados a personalidades), 38 citações/frases no discurso directo, seleccionadas de declarações antigas do próprio Belmiro de Azevedo, e 34 extraídas de reacções de personalidades, são raríssimas as expressões menos favoráveis.
O JN menciona a queixa de «desrespeito» do falecido em relação à viúva do banqueiro Pinto de Magalhães. O Público acrescentou, citando-a, naquela que é a única crítica em todas as peças publicadas nos cinco diários: «É uma pessoa dura, não tem coração». Ainda o JN menciona um reparo de um ex-eleito na freguesia natal do empresário ao que poderia ter feito pela terra e não fez. Já o CM inseriu, na sua selecção de frases do próprio: «Se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para ninguém». E ficamos por aqui.
O consenso editorial em torno da figura segue em abundância de encómios e elogiosas referências ao percurso, ao carácter, à determinação, à coragem, às virtudes, tudo bem temperado de adjectivos e virtudes do empresário – «Mais do que um empresário, Belmiro foi um exemplo de exigência permanente, um homem livre e corajoso, amigo do risco, da disciplina interior, da educação pela vida fora, da “ética rigorosa”», escreve o Público – um dos mais ricos do país, digno de figurar no catálogo obsceno de fortunas da Forbes.
Na glorificação mediática do empresário («O maior empresário português no pós-25 de Abril», disse Daniel Bessa, no Público), assinale-se o singular destaque para a sua sobranceira relação com «os políticos», a que os media preferiram chamar «coragem» e «independência», como se tal «independência» não residisse de facto de estar, precisamente, no topo do poder económico.
«Belmiro de Azevedo / O Empresário que desafiou os políticos», titula o DN na primeira página, abrindo a peça principal, no interior, com este título «Belmiro de Azevedo: o empresário que reprovou todos os governantes». Os políticos, cita dele o JN, «falam do que não sabem, do que não tem a ver com a realidade e prometem o que não podem cumprir», pois «a sua postura na política foi sempre de “contrapoder”, como fazia questão de assumir».
Ao longo dos textos, emerge a colecção de ditos caricaturizantes, alguns mesquinhos, de Belmiro sobre personalidades da vida política, incluindo o actual Presidente da República – que aliás não lhe poupou rasgadas loas –, como quem fixa na memória dos leitores uma espécie de herói que até ousou pôr na ordem os deputados da nação, «obrigando-os» a madrugarem em certa manhã parlamentar e a recebê-lo às 8 horas em comissão.
Se algum dia for realizado um estudo rigoroso, ou alguma reflexão aprofundada, sobre os obituários em geral e os destaques dos media à morte de poderosos, talvez compreendamos melhor essa espécie de fascínio pelo poder económico e um certo desdém por essa realidade democrática a que tantas vezes se referem como «os políticos»…

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Jerusalém do capital

Os Estados Unidos, por intermédio de Donald Trump, confirmaram a sua decisão de "reconhecer" Jerusalém como a capital unificada de Israel. Trump leva o ónus do discurso bronco e de uma decisão irresponsável, mas não nos fixemos demasiado nele, para não perdermos o fio à meada dos interesses que velam antes, durante e depois dele...

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Filões e agendas


1. Por estes dias, corre nas redes sociais uma insistente torrente de interpelações aos media, questionando-os sobre a ausência – ou pelo menos a insuficiência – de notícias aprofundadas e sistemáticas sobre os processos relativos a alegada fraude com fundos europeus na Tecnoforma, envolvendo duas altas figuras do PSD; de alegada corrupção para a atribuição de «vistos gold», com a participação de figuras do topo da Administração do Estado e até um ministro do PSD; e de alegada corrupção na compra de submarinos à Alemanha tutelada pelo anterior presidente do CDS-PP.
Não é que as notícias não existam, como demonstra, por exemplo, uma investigação publicada há duas semanas pelo Público, mas as inúmeras mensagens veiculadas evidenciam uma insatisfação com a cobertura jornalística conferida àqueles assuntos, em contraste com a prolongada, e nalgumas fases intensa, divulgação de elementos, mesmo que por vezes irrelevantes, do processo da «Operação Marquês». A comparação sugere que certas personagens do teatro político são mais penalizadas pelo escrutínio mediático do que outras, o que suscita perplexidades ao público.
Haverá nos media uma agenda selectiva – sabe-se lá por que razões –, que fixa um alvo e não o larga até deixá-lo exangue, neutralizado e sobretudo morto civicamente, enquanto outros gozam de uma quase condescendência, para não dizer de uma espécie de imunidade mediática? E por que será que alguns meios dedicam uma atenção sistemática, quase militante, a certos alvos, mas praticamente negligenciam outros? Que razões justificarão uma e outra práticas?
Uma explicação possível, percepcionada do lado de dentro do aparelho mediático, será talvez o facto de um determinado processo constituir um filão de tal maneira suculento, mesmo antes de a acusação estar deduzida, e de circunstâncias nem sempre claras terem facilitado a fuga, a violação do próprio segredo de justiça, terem tornado irreprimível a vontade de noticiar e incontrolável o fluxo das notícias. Em contrapartida, outros filões esgotaram-se mais rapidamente e os processos terão caído em certa rotina. Será assim tão simples?
Quaisquer que sejam as justificações, parece evidente que os cidadãos estão longe de compreender o fenómeno, permanecendo uma nebulosa que alimenta uma percepção de parcialidade dos media e até de existência de agendas próprias, ora de denúncia, ora de ocultação. Talvez seja altura de arrepiar caminho e tornar mais transparentes as opções editoriais.
2.  Há uma semana, a Impresa Publishing, de Francisco Pinto Balsemão, aproveitou a alienação das suas revistas para despedir – ainda que sob a capa da fórmula, igualmente violenta, mas muito eufemística, da «rescisão por mútuo acordo» - um conjunto de jornalistas e outros trabalhadores que não seriam transferidos para o novo empregador, encetando mais um processo de «reestruturação».
O acompanhamento dado pelos media ao assunto foi escasso e contido, como acontece com frequência com os «emagrecimentos» nas empresas do grupo Balsemão, reduzido ao indispensável e sem qualquer esforço sistemático de acompanhamento do caso, em contraste com o que acontece em relação a outras empresas, sobretudo quando estas são «da concorrência». Também neste caso, os cidadãos indagarão as razões desta espécie de bipolaridade corporativa.
É provável que, na conjuntura económica e laboral dos media, funcione algum mecanismo de contenção, mais ou menos em razão do temor de que o mal alastre a outras empresas e atinja – ou volte a atingir – outras redacções, induzindo uma prudência frágil que consiste em desvalorizar (e silenciar…) o mal dos outros para o que o nosso se não ponha a caminho. Mas também não se descarta a hipótese de uma certa acomodação à ideia da inevitabilidade das «reestruturações» e das suas consequências para os jornalistas e outros trabalhadores do sector.
Talvez os leitores, os ouvintes e os espectadores mais atentos sejam levados a reflectir sobre este problema, bem como a questionar-se sobre a falta de consciência crítica entre os jornalistas, a ponto de quase desistirem de manter – ou mesmo colocar – na agenda dos media os problemas da sua própria profissão e das suas empresas.
É certo que, ao contrário do que pensam muitos cidadãos, os jornalistas não detêm o poder definitivo sobre o conteúdo dos órgãos de informação aos quais vendem a sua força de trabalho, e que é sempre mais fácil publicar notícias sobre as fragilidades da «concorrência» directa do que garantir um acompanhamento sistemático do sector que ponha em evidência, perante o público, os problemas do sector. Mas é grande o risco de se limitarem mais a fazer o «jornalismo do patrão» do que o jornalismo para os cidadãos.
3. Na passada sexta-feira, vários órgãos de informação alimentaram, em paragonas e repetidas peças, a ideia de que «os salários no privado vão descer em 2018», devido ao fim do pagamento dos subsídios de férias e de Natal em duodécimos. Várias delas enredaram-se nas mais bizarras acrobacias de aritmética na tentativa de demonstrar que tal medida «vai retirar rendimento mensal»[1] aos trabalhadores do sector privado (e do público, não?).
O raciocínio, muito colado à posição do PSD, que se opôs à justa medida proposta pelo PCP, assenta numa convicção tão errada quanto perigosa – a de que os trabalhadores «deixam de receber em duodécimos», como se esse fosse o direito a preservar.
O raciocínio escamoteia os factos essenciais:
- Os subsídios de férias e de Natal estão fixados na lei para serem pagos por forma a que os trabalhadores possam satisfazer as despesas inerentes ao gozo daquele período e das festividades sem sacrifício do seu rendimento mensal, tendo assim durante décadas, e essa é que é a normalidade;
- Em 2013, o Governo PSD/CDS-PP, depois de ter roubado aos trabalhadores da Administração Pública e do sector empresarial do Estado, os subsídios de férias e de Natal, impôs o pagamento em duodécimos aos trabalhadores do sector privado;
- Se pretendessem receber os subsídios nas alturas devidas e não em duodécimos, teriam de notificar expressamente (aliás em prazos muito curtos) as empresas, constituindo indesmentível maioria esmagadora (entre 2% e 20%, segundo as fontes) aqueles que optaram por manter a «normalidade»;
- Aquela imposição tinha por objectivos gerar nos trabalhadores a ilusão de que os seus «rendimentos mensais» não estavam a ser afectados pelas medidas fiscais gravosas, nomeadamente a sobretaxa do IRS, e, a prazo, acomodá-los à ideia da «desnecessidade» de tais subsídios e à sua extinção.
O raciocínio adere muito à agenda da direita e do patronato, em relação à qual os media estão demasiado sensíveis, tão largo e profundo é o seu divórcio em relação ao mundo do trabalho e aos problemas dos trabalhadores. Talvez seja útil aos editores e aos proprietários de meios de informação reflectir por que razões os trabalhadores se vão divorciado deles…  


[1] Um exemplo extraído do Correio da Manhã, cuja manchete era exactamente «Salário do privado desce em Janeiro»

sábado, 25 de novembro de 2017

A ilusão em duodécimos


Estou a pensar, a propósito desta estranha "polémica" desencadeada pela resistência do PSD à proposta do PCP de extinção do pagamento em duodécimos dos subsídios de férias e de Natal, em quanto é curta a memória e em como foram quase eficazes os ataques aos direitos dos trabalhadores feitos pelo governo PSD/CDS.
A imposição daquela forma de pagamento - na realidade, para iludir os trabalhadores e disfarçar o agravamento fiscal de então, bem como para ir os preparando para a extinção a prazo daqueles subsídios - data de 2013. Mas em tão escassos anos tornou-se a normalidade, pelos vistos para muitos!


Esta manchete é uma descarada mentira


quarta-feira, 15 de novembro de 2017

O JN e a cidade



Estou a pensar, matutando na dupla efeméride que espero viver no próximo ano - 130 anos de existência do "Jornal de Notícias" e 30 anos da minha integração no seu corpo redactorial, vindo do entretanto extinto "O Primeiro de Janeiro" - nas múltiplas funções que a presença de um jornal cumpre, ou deveria cumprir, na vida de uma cidade, de preferência no centro da cidade. 

São elas que conferem aos jornais a dimensão de instituições únicas e insubstituíveis, sobretudo quando os jornais sentem e reflectem o pulsar das cidades e nas suas redacções pulsam todos os mundos.
Penso também no quanto os seus edifícios (o do JN foi o segundo construído de raiz no Porto, muito depois de "O Comércio do Porto", também já extinto) emergem na paisagem de emoções que também povoam e definem a cidade. Também por isso fazem parte da alma da urbe.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Os media e as armas nucleares


Por estes dias, o Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) está a dinamizar uma importante campanha de angariação de subscritores de uma petição com vista à assinatura (e ratificação), por Portugal, do Tratado de Proibição das Armas Nucleares, adotado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 7 de Julho passado.
A iniciativa não tem tido acolhimento nos media, seguramente muito ocupados com outros temas e pouco inclinados a promover a discussão de assuntos de importância vital para a comunidade, mas cuja utilidade imediata – e imediatamente mensurável em audiência – não vislumbrarão.
Foi transitório o interesse mediático (aliás sem grande entusiasmo) pelo tema quando, a 6 de Outubro, foi anunciada a atribuição do Prémio Nobel da Paz à Campanha Internacional pela Abolição das Armas Nucleares (ICANW, no acrónimo em Inglês), cujo trabalho empenhado e decisivo deve ser justamente destacado.
Setenta e dois anos depois do lançamento das bombas nucleares sobre Hiroshima (6 de Agosto de 1945) e Nagazaki (três dias depois), no Japão, com a morte imediata, ou nos meses seguintes, de 215 mil pessoas, não obstante o apelo à eliminação das armas nucleares aprovado pela então jovem ONU, em 24 de Janeiro de 1946 (menos de seis meses após a tragédia) e apesar de o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (1 de Julho de 1968) impor o desarmamento geral e a eliminação total dos arsenais nucleares, o risco de uma catástrofe é real e nenhum passo decisivo foi dado para cumprir aqueles objectivos.
Nove países (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido, França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte) possuem um total de cerca de 15 mil ogivas nucleares. Além daqueles, cinco outros (Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia) têm estacionadas armas nucleares nos respectivos territórios. E outros 23 – Portugal, Coreia do Sul e Japão incluídos – fazem parte de “alianças nucleares”, com a NATO à cabeça, que os colocam nas rotas destes dispositivos de morte cuja eficácia a imaginação do cidadão comum não alcança.
Uns dois terços dos países do mundo – praticamente o hemisfério sul – estão livres de armas nucleares, mas só por ingenuidade se pode crer que estarão ao abrigo de uma conflagração nuclear, seja pela detonação deliberada de um engenho, seja por erro ou por acidente.
Desde praticamente os alvores da era nuclear militar que os movimentos de cientistas, com os físicos Frédéric Joliot-Curie, Albert Einstein e Joseph Rotblat e o filósofo e matemático Bertrand Russel à cabeça, aos quais se juntaram inúmeros outros intelectuais, alertaram para os elevados riscos que impendem sobre a humanidade e se empenharam contra a bomba nuclear.
Dos artigos publicados imediatamente após o lançamento da bomba de Hiroshima e dos programas de rádio, nomeadamente de Russel, ao Apelo de Estocolmo (1950), passando por inúmeros artigos e entrevistas, debates e manifestos, milhares de intelectuais não cessaram de avisar para a elevada probabilidade de destruição maciça e em larguíssima escada – seja por impacto direito da deflagração, seja pelo transporte de cinzas e poeiras radioactivas, transportando radioisótopos que permanecerão activos por milhares e até dezenas de milhares de anos.
Embora se registe uma (ainda muito incompleta) redução das armas nucleares (eram mais de 20 mil em 2010 e mais de 70 mil nos anos 1980), a crescente sofisticação dos arsenais, à força de vultuosos investimentos, a mobilidade e a capacidade de propulsão são surpreendentes e muito perigosas. Estima-se, por exemplo, que dois terços das 300 ogivas francesas estejam embarcadas em mísseis balísticos em submarinos e podem alcançar dez mil quilómetros de distância.
Independentemente de quem possui as armas nucleares, não há a menor dúvida de que constituem uma ameaça real à segurança e ao futuro da humanidade e de que, apesar da retórica desculpabilizadora baseada na invocada necessidade de dissuasão tão frequente e hipocritamente usada no discurso “diplomático” dos detentores de armas e dos seus seguidores, estamos perante uma séria questão de ética da legitimidade.
Não são apenas as convenções de direito internacional humanitário que proíbem os ataques indiscriminados, ou as armas que, pela sua natureza, possam causar danos supérfluos ou ferimentos desnecessários e que impõem o princípio de que o direito dos países em conflito a escolher os métodos e meios de combate não é ilimitado.
É sobretudo a exigível sã consciência de que qualquer ser humano deve possuir acerca dos limites ao seu poder, de que a ninguém é lícito decidir sobre a vida ou a morte dos povos e o destino da própria humanidade, assim como, por maiores que sejam as divergências, não há uso benigno possível para o poder de destruição tão letal e tão extenso hoje ao alcance do homem.
Porém, os media não proporcionam o mínimo debate sobre um tema tão decisivo na vida dos povos. Pode ser por indiferença – o que é deplorável –, ou até pode ser por um critério de prioridades na agenda – o que é preocupante –, mas a escassez ou mesmo ausência de discussão e reflexão no espaço público deixam os cidadãos e os próprios jornalistas desarmados perante o arsenal argumentativo dos detentores de armas nucleares e seus vassalos e seguidores.
É assim que pouco ou nada se questiona a posição seguidista do Governo português, que esteve fora das negociações do novo Tratado e evidentemente não quer assinar (e muito menos fazer ratificar) o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, com o singelo argumento segundo o qual esse acto, «que declara ilegais as armas nucleares» não seria compaginável com a circunstância de ser membro da NATO, que «é uma aliança nuclear». Esta é aliás o maior detentor de ogivas do mundo: além das 6800 dos Estados Unidos, 300 da França e 215 do Reino Unido, sem contar com as 80 do amigo Israel[1].
Ou que se come e cala, numa obediente «independência» jornalística, incensando acriticamente a doutrina da NATO (herdeira ideológica da doutrina de hegemonia planetária que os Estados Unidos deixaram tragicamente plasmada nos ataques a Hiroshima e Nagazaki, quando já era mais do que evidente, desde 1944, que a Alemanha nazi não possuía a bomba atómica), ou se questiona o poder ilegítimo que a Aliança Atlântica outorga a si própria de impor a sua paz ao mundo, aliás bem patente no seu comunicado de 20 de Setembro, a propósito da abertura às assinaturas do Tratado de Proibição das Armas Nucleares.
Continuaremos a calar?


[1] Usa-se aqui, tal como em relação aos restantes detentores de arsenais nucleares, a informação regular do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo (SIPRI, no acrónimo em Inglês), que não consta como insuspeita quanto ao independência, pelo menos nos media mainstream…, mas é mencionada, por vezes, a hipótese de Israel possuir realmente umas 200 ogivas. 

sábado, 11 de novembro de 2017

Sobre tudo o que mexe


Começando por declarar que declino a investidura de afilhado da Sra. Dra. Maria Cavaco que, sem me ver tido nem achado, o Presidente da República quis impor-me, venho manifestar preocupação com as piruetas temáticas que S. Exa. faz para estar permanentemente na berlinda mediática.
Acrescento, aproveitando esta oportunidade, que ainda estou para perceber por que razões os órgãos de informação alinham neste jogo - tantas vezes patético - de colocar S. Exa. a pronunciar-se sobre tudo o que possa bulir. Um destes dias, talvez se pronuncie ex cathedra sobre a morfologia da caganita do rato-almiscarado e a vida sentimental do gambozino.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Os jornalistas e as armas nucleares



Correspondendo ao amável convite do Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC), participei hoje num debate sobre o Tratado de Proibição das Armas Nucleares, cuja assinatura e ratificação urgente, especialmente pelos países detentores de arsenais nucleares e pelos membros da NATO, defendi.
Sabendo-se muito bem quem tem armas nucleares – 15 mil ogivas detidas por nove países, com os Estados Unidos e a Federação Russa à frente, e incluindo a China, o Reino Unido, a França, Israel ou o Coreia do Norte, com potências e capacidades de propulsão extraordinárias – e o gravíssimo risco que uma deflagração representa para a Humidade, discordei do argumento central usado pelas potências nucleares e a carneirada da NATO (Portugal incluído) para recusar o Tratado: o da preservação do equilíbrio mundial.
Com nove países dotados de um poder extraordinário de uso indiscriminado de armas de aniquilamento de cidades e decidir sobre a vida de povos inteiros, é claramente manifesto o desequilíbrio, com pelo que argumentar pelo “equilíbrio” tresanda a desonestidade insustentável e a hipocrisia insuportável.
Por outro lado, tanto o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares de 1968 como o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, adoptado em 7 de Julho passado mas que ainda carece de ratificação por pelo menos 50 estados, propugnam um desarmamento geral, multilateral e, evidentemente, simultâneo. Só esse processo garantirá o equilíbrio prometido.
Nas actuais condições, é imperioso que os intelectuais reforcem o valor do seu papel central na desmistificação da propaganda belicista, bem como na desmontagem do discurso desculpabilizador dos que teimam em manter os seus arsenais com a alegação de que com isso o mundo estará mais seguro. 
Na verdade, as armas com o potencial de destruição indiscriminada – com a morte e o sofrimento de centenas de milhar ou até milhões de pessoas inocentes – não são boas ou más consoante as mãos em que se encontram.
Todos somos poucos para exigir atitudes concretas. Assinar a petição exigindo às autoridades portuguesas a assinatura e ratificação do Tratado ajudará muito.

(A foto é do perfil de Ilda Figueiredo, presidente do CPPC, a quem agradeço o convite)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pugilatos


Suponho que o futebol se joga dentro do campo e que são os seus resultados e o desempenho das equipas que interessam ao público. 
Já me faz muita confusão que os media tenham encetado há anos por uma espécie de pugilato verbal entre dirigentes. 
Mas alguém faz o favor de explicar-me por que razões têm relevância mediática - isto é, interesse para o público - as bocas dos assessores de imprensa (perdão, directores de comunicação!) dos clubes nas redes sociais?
É só para saber. 
Agradecido.


A Revolução de Outubro


Pensando na Revolução de Outubro, no significado imenso que vai para além das extraordinárias transformações e conquistas no século XX e no que se projecta no futuro, estou também a matutar no quanto se diz por estes dias, em rançosos preconceitos e ódios mal dissimulados.
Enfim, se a desdenham tanto, por que razões a temem?


domingo, 5 de novembro de 2017

Catalunha


a) Puigdemont e outros membros do Governo autónomo catalão aguardam em liberdade a tramitação na Bélgica, enquanto os restantes membros estão encarcerados às ordens de um afloramento franquista em Espanha; e
b) Enquanto Oriol Junqueras e outros elementos enviados para a prisão pela Audiência Nacional foram algemados, Puigdemont em seus companheiros foram conduzidos sem algemas entre a esquadra de polícia onde se apresentaram esta manhã o o Tribunal de Instrução Criminal onde foram ouvidos.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Ambivalência cívica


A algumas horas da eventual decisão da juíza de turno na Audiência Nacional espanhola, Carmen Lamela, sobre a emissão de um pedido europeu de detenção do presidente eleito da Generalitat da Catalunha, estou a matutar nesta espécie de ambivalência cívica que cerca Carles Puigdemont.
Por um lado, é mal compreendido por muitos que tenha "fugido" para a Bélgica, furtando-se, dizem, à Justiça e escapando à prisão preventiva que o Estado espanhol impôs aos seus companheiros de "Govern", comportamento este pouco solidário com os mais de dois milhões de catalães que enfrentaram o risco e a brutalidade do referendo de 1 de Outubro.
Por outro, talvez seja compreensível que se refugie, enquanto for possível, na "capital da União Europeia", onde pode "circular livremente e em tranquilidade" (a correspondente da RTP em Madrid enfatizava que Puigdemont bebia um café enquanto a Audiência Nacional enviava os seus colegas para a cadeia). É que, enquanto for possível, ele e os restantes quatro membros do seu governo poderão continuar a falar ao mundo e a denunciar os desmandos que, em nome de um estado de direito, o Estado espanhol está praticando.
O encarceramento de parte do governo autónomo da Catalunha e a vigilância policial - assim mesmo, sem aspas - aplicada à Mesa do Parlamento catalão são mais um passo profundamente errado da gestão franquista da chamada "questão catalã". Se Madrid não o entendeu até agora, só piorará as coisas.


sábado, 28 de outubro de 2017

Portugal e a Catalunha


Estou a pensar, matutando ainda no comunicado oficial do Governo português de ontem sobre a "declaração unilateral de independência no Parlamento da Catalunha", nas declarações, sobre o mesmo assunto, do ministro dos Negócios Estrangeiros e do primeiro-ministro, bem como na breve nota oficial, também de ontem, do Presidente da República, por que razões Marcelo Rebelo de Sousa telefonou a Filipe de Bourbon, "em nome da fraternidade entre os dois países e do respeito pelo Estado de Direito".
Quanto mais penso, mais receio que o gesto tenha, se não a ressonância de uma vassalagem inadmissível, o significado de deferência e de cumplicidade excessivas.

sábado, 21 de outubro de 2017

Uma questão de liberdade

A malta que se pronuncia contra a "ditadura" do Maduro e a falta de liberdades na Venezuela e o controlo dos meios de informação na Venezuela, que diz essa malta a esta coisa do franquista Rajoy capturar a autonomia catalã, controlar a polícia regional, as telecomunicações e a internet e a comandar com pulso firme os meios públicos de informação catalães? Sim, que diz essa malta?

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Descontracção e incêndios


Estou a pensar na despretensiosa imagem que registei, no domingo à tarde, em plena Serra da Freita, descendo para Arouca, como mero auxiliar de memória da tragédia que este Sol funesto (o termómetro mostrava 32 graus Celsius, se não me engano) atrás de uma gigantesca cortina de fumo prenunciava, ou que eu não sabia que estava acontecendo.
Deu-se o caso de, estando em passeio descontraído, ter decidido passar de Vouzela a Arouca, com destino ao Porto, por vias secundárias, a reabastecer a alma e a inteligência de país real. 
Por três ou quatro vezes, porém, fui obrigado a desvios e a procurar rotas seguras, fosse por ordem da GNR, fosse por algum conhecimento do terreno, fosse pelo precioso auxílio de mapas e GPS, fosse pelo "instinto" de algum modo treinado em décadas de caminhadas em montes e vales, fosse pelos conhecimentos e experiência do muito que tenho lido, ouvido, observado e escrito ao longo de mais de 30 anos, designadamente sobre Natureza, floresta e fogos florestais.
Ando a matutar nisto desde que, regressado ao país mediático, me inteirei da tragédia dos incêndios desse dia, do brutal preço em vidas e da imprudência que eu próprio cometi. Especialmente por esta, eu seria o último a pedir a demissão da ministra da Administração Interna.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Manipulações por interposta pessoa


No dia 1 de Outubro, a Catalunha foi a votos, num referendo sobre a eventual declaração de independência que os media da direita espanhola (ou madrilena…), o serviço público de televisão e até o maior jornal «de referência» internacional em castelhano – El País – não se cansam de cunhar como «ilegal» e mesmo de tentar ridicularizar.
El País, que antes de imprimir sob o cabeçalho a modernaça divisa «El periódico global» se ufanava de ostentar «O diário independente da manhã», emparceirou com El Mundo, La Razón e o ABC, por exemplo, às ordens do Governo espanhol na defesa das suas teses «constitucionalistas» e na perigosa aversão ao diálogo com a Generalitat.
É público e notório – as imagens e os sons chocantes correram mundo – que a Polícia Nacional e a Guarda Civil espanholas tomaram a Catalunha e desencadearam uma repressão brutal, incluindo com cargas policiais violentas sobre os catalães que protegiam as secções de voto, as urnas e os boletins de voto, que insistiram em expressar a sua vontade e se manifestavam em defesa da liberdade de expressão.
A Imprensa internacional – portuguesa incluída – viu tudo isso e não pôde deixar de chamar as coisas pelo nome que exigiam nas primeiras páginas do dia seguinte. Por exemplo, os britânicos The Times, The Guardian e Financial Times não deixaram de enfatizar em manchete as centenas de feridos pela repressão policial, que o francês Libération sintetizou com expressiva eficácia: «O golpe de força».
Enfatuados na sua cruzada legalista que se tem prolongado mês após mês, semana a semana, dia após dia (basta contar-lhes os editoriais…), emprestando legitimidade ao uso manifestamente desproporcionado e ilegítimo da força, La Razón titulou a toda a largura da primeira página: «Firmeza contra o golpe». El País não lhe ficou atrás: «O Governo impede pela força o referendo ilegal».
«Referendo ilegal» - é assim que a «referência» do «jornalismo de rigor» espanhol cunha sistematicamente o «desafio independendista» (outra referência recorrente) nas notícias, nos editoriais e nos artigos de opinião, fiel, de resto, à sua tradição «legalista» e de fiel jurado da Constituição de 1978 pelo menos desde a cobertura, ostensivamente enviesada, dos factos relacionados com o movimento independentista basco, não só em relação à organização ETA, mas também relativamente às actividades e posições das forças e partidos legais.
A devoção «legalista» do «pediódico global» depende, no entanto, da latitude e dos interesses em presença. Por exemplo, o pretenso referendo organizado em Julho pela oposição na Venezuela, manifestamente ilegal, mereceu amplíssimo apoio de El País e de outros meios de informação espanhóis e os grandes media em geral, tal como as manifestações violentas que causaram mais de 140 mortos eram sempre legítimas.
Legal e embevecidamente acarinhada pela imprensa de Madrid foi também, claro, a manifestação dos unionistas espanhóis realizadas no dia 8 – a «maioria silenciosa», como a crismaram, com uma ressonância ideológica que nos é muito familiar e que convoca a atenção para o franquismo e o fascismo que ressurgem despudoradamente à luz do dia, embora tolerado pelos media «constitucionalistas».
Poucos de ocuparam de pormenores como a presença de símbolos falangistas e saudações nazis, ou a explicar o que é uma tal Sociedade Civil Catalã, na realidade uma organização que agrega e organiza a hostilidade ao nacionalismo catalão e à participação democrática, numa base em que também entra gente da extrema-direita e cuja apresentação contou com delegações da Frente Nacional francesa e da Fundação Nacional Francisco Franco.   
«Histórica manifestação contra o separatismo e pela Constituição», titulou El País em entusiasmada manchete, encimada por um antetítulo não menos inspirada: «Centenas de milhar de pessoas inundam as ruas de Barcelona». O jornal «independente» tinha um fito: desconstruir a «narrativa» do independentismo segundo a qual as ruas e praças da capital catalã lhe pertencem.
No seu esforço militante pela sua verdade, El País, que tolera pouco a diversidade de opiniões nas suas páginas, a ponto de dispensar um dos mais prestigiados colaboradores, John Carlin, que escrevera uma série de artigos divergentes sobre a Catalunha, nem sequer se dá ao trabalho de disfarçar a sua catalanofobia e a indisfarçável urticária que lhe causam as intervenções nomeadamente do presidente da Generalitat, Carles Puigdemont. Ainda ontem, um texto não assinado publicado na edição em linha, pretendendo «desmontar» as posições do líder catalão, titulava sem rebuço: «As insistentes mentiras de Puigdemont».
Num panorama mediático em que boa parte dos títulos assume de forma mais ou menos aberta a respectiva orientação ideológica, o caso do tratamento do «desafio independentista» catalão nas páginas da grande imprensa não é absolutamente estranho no plano doméstico, ainda que o assunto esteja na ordem do dia em muitos espaços de discussão.
Mas assume gravidade a ter em conta quando, precisamente jornais como El País, gozando, externamente de prestígio e de credibilidade, são frequentemente fonte de informação para muitos jornalistas – seja como deslocados em reportagem no país, seja na «cobertura» recuada, nas redacções, dos acontecimentos em Espanha ou no Mundo.
Nomeadamente em Portugal, é muitas vezes detectável que tais jornais são fonte única de muitas notícias. Nesse sentido, uma abordagem crítica ao comportamento editorial dos media espanhóis – no caso – não pode deixar de revestir o maior interesse para os leitores, os ouvintes e os espectadores portugueses. Para que saibamos todos como se faz a informação que nos «vendem» e possamos prevenir manipulações por interposta pessoa.     

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

domingo, 8 de outubro de 2017

Che


Outro barbudo da Sierra Maestra, Ernesto "Che" Guevara, assassinado há 50 anos.

sábado, 7 de outubro de 2017

Espontaneidades


Estou a pensar no problema do significado das palavras e do seu alcance e efeitos em Jornalismo. 
Vem a propósito do que escutei de uma repórter enviada a Barcelona, cobrindo a manifestação de apelo ao diálogo. É "espontânea", dizia ela. 
Basta observar as imagens por breves instantes, atentar um pouco na uniformidade estilística e gráfica de materiais - palavras de ordem e respectivos suportes - ostentados em grandes quantidades. Percebe-se, logo de relance, que de nada de espontâneo tem a iniciativa.
Estou a pensar também nas razões pelas quais jornalistas gostam tanto de apresentar como espontâneo - e não haveria qualquer mal se o fosse - o que revela aturada preparação.
E receio poder vir a chegar à conclusão de que correm nas veias de certo jornalismo concepções de democracia um pouco, digamos, retorcidamente preconceituosas.

domingo, 1 de outubro de 2017

Franco revive na acção de Rajoy

Francisco Franco ressuscitou na cabeça e na acção de Mariano Rajoy e nos bastões da Guarda Civil espanhola. Na hora da verdade, o fascismo varrido para debaixo do tapete na "transição para a democracia" irrompe com toda a força. Depois não se queixem...

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Os jornalistas e a Paz


Um dos monumentos mais impressionantes visitáveis na Península Ibérica é a basílica-cripta de Santa Cruz do Vale dos Caídos, em San Lorenzo del Escorial, província de Madrid, dominando, com ostensiva grandiosidade a Serra de Guadarrama.
Além da expressão da soberba faraónica do caudilho fascista espanhol – Francisco Franco – e do expoente de uma estética do poder violentamente antidemocrático e opressor, é chocante o seu significado.
Embora viesse a ser local de inumação – entre os 36 mil soldados que ali foram enterrados – de alguns combatentes republicanos mortos na Guerra Civil de Espanha (1936-39), cujas famílias declararam por eles o seu «arrependimento», mas também como espécie de sinal de «conciliação nacional» imposto por países estrangeiros depois da II Grande Guerra (1939-45), o Vale dos Caídos foi concebido por Franco para sua própria glorificação como vencedor e em honra dos combatentes falangistas.
Na sua concepção e arquitectura e na estética das obras de arte que alberga, assim como no significado que encerra, o Vale dos Caídos – aliás construído com base na mão-de-obra escrava de milhares de combatentes republicanos, comunistas e outros democratas vencidos e encarcerados – representa uma ofensa à memória de todos quantos lutaram e derramaram o seu sangue por uma Espanha livre, justa, fraterna e em paz e a todos quantos continuam ainda a bater-se na defesa dos valores da liberdade, da igualdade, do progresso e convivência pacífica entre os povos.
Por muito que tentem reduzi-lo a um local de interesse meramente turístico, o Vale dos Caídos adquire especial importância nesta altura.
Por um lado, porque o tema do seu significado intrínseco regressou recentemente à ordem do dia em Espanha, com a decisão parlamentar de exumar Francisco Franco e José Antonio Primo de Rivera, fundador do partido Falange Espanhola e do fascismo espanhol, em torno do qual se juntaram as forças que derrubaram pela força e com o sinistro apoio nazi a II República Espanhola.
Por outro, porque convoca a necessidade de uma reflexão sobre os intelectuais e a paz, bem a propósito de um interessante debate promovido no passado dia 8 pelo Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) e a Organização da Bienal Internacional de Arte Gaia 2017[1].
Uma primeira abordagem poderia tratar dos limites éticos e de consciência moral que os artistas certamente enfrentam, quando se questionam sobre ao serviço de quem e de que causas e objectivos empregam as suas capacidades e o seu engenho criador, ou mesmo que ditames subjugam a sua liberdade.
Uma segunda poderia questionar de um modo muito particular os jornalistas e o jornalismo, designadamente sobre os inevitáveis embaraços deontológicos – entendida e deontologia, precisamente, como a ética dos deveres – quando o seu ofício de informar é, ou pode ser, traído pela instrumentalização e pela manipulação da palavra; ou, sobretudo, quando é capturado por interesses e agendas de interesses obscuros.
Uns e outros só podem estar ao serviço do bem comum, do progresso, do bem-estar espiritual e material, da felicidade do homem e da Humanidade, sendo de esperar deles um compromisso indeclinável com a paz e o respeito pela autodeterminação dos povos e o direito à plena soberania das nações.
Tantos anos volvidos sobre o fim da II Grande Guerra (aconteceu há 72 anos) e o longo e sinistro rasto de destruição e morte que deixou no Mundo, é hoje impossível ignorar os sinais dramáticos de uma perigosa escalada na retórica belicista, nas suas diversas expressões, especialmente a partir do Imperialismo e dos Estados Unidos da América, a par de uma preocupante corrida armamentista, não só em termos de armas convencionais, mas sobretudo de arsenal nuclear, com o aumento extraordinário da capacidade de propulsão dos engenhos de morte massiva.
Nove países – com os Estados Unidos na dianteira – possuem, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, cerca de 15 mil ogivas nucleares, muitas vezes mais potentes do que as bombas de Hiroxima (6 de Agosto de 1945; 145 mil mortos) ou de Nagazaki (três dias depois; 78 mil mortos).
Muitas delas estão carregadas, ou prontas a embarcar em mísseis balísticos intercontinentais capazes de atingir distâncias até cinco mil, oito mil ou mesmo mais de dez mil quilómetros.
Cinco outros países não são os donos delas, mas têm estacionadas nos seus territórios armas nucleares ao abrigo dos programas de «cooperação» militar e estratégicos da NATO – incluindo a Turquia, nas proximidades da Síria, numa região do globo especialmente sensível.
Outros 23 outros países – incluindo Portugal – mantêm alianças «nucleares» com os Estados Unidos e/ou a NATO e podem, a qualquer momento, ter em trânsito armas nucleares, seja no contexto de navegação de «rotina» nos mares e ar nacionais, seja no quadro de manobras ou mesmo de eventual ofensiva em regiões já em tensão aberta, como é o caso da Península da Coreia, ou em tensão crescente, no Leste da Europa, onde dizem que cresce a «ameaça russa».
Essa retórica belicista justifica-se claramente pelo afã do domínio imperialista, mas também pela abundância de lucros crescentes a que aspira o complexo militar industrial dos países grandes produtores e exportadores de armas, que explicam as razões pelas quais os Estados Unidos mantêm alta a «parada» na Península Coreana, em tão perigosa tensão.
Ao continuar a rejeitar, ostensiva e altivamente, a proposta sino-russa de um roteiro de paz e diálogo assente na suspensão dos testes balísticos e nucleares da Coreia do Norte, por um lado, e das manobras militares dos Estados Unidos e da Coreia do Sul, por outro, com o objectivo de desnuclearizar a região e baixar a temperatura da confrontação, Washington está bem ciente dos proventos que vai facturando.
De facto, os Estados Unidos são o maior exportador de armas, com nada menos de um terço do bolo deste comércio em todo o mundo, com quase dez mil milhões de dólares facturados no ano passado, só à sua conta.
Não admira que países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, a Coreia do Sul e a Turquia estejam entre os países que mais armas importam, nem que o presidente Donald Trump esteja a pressionar cada vez mais os seus seguidores na NATO a aumentar as respectivas despesas militares em pelo menos 2% do Produto Interno Bruto nacional. Note-se que meia centena de países gasta em defesa 2% ou mais do seu PIB e alguns bem acima.
Apesar da suas obrigações, designadamente no âmbito do Tratado de Não Proliferação de armas nucleares (1968) e do Tratado Estratégico de Redução de Armas com a Rússia (2010), os EUA, estão a «reduzir» o seu arsenal em número de ogivas, mas enveredaram por um perigoso programa de modernização, ainda no mandato de Barack Obama, de 400 mil milhões de dólares entre 2017 e 2026, que não ficará por aqui.
De facto, com a sua fanfarronice bem conhecida, o sucessor de Obama na Casa Branca gabou-se, há poucas semanas, de que tinha «dado ordens» para tornar o programa nuclear militar norte-americano ainda «mais moderno e mais forte», e não se cansa de ameaçar usar todos os meios – contra a Coreia, mas também noutras latitudes.
Muitas pessoas estranham o que parece ser uma estranha obsessão dos jornalistas por números, designadamente quanto aos valores envolvidos nestas gigantescas operações de intimidação e especialmente quanto ao aprovisionamento, produção e comércio «estratégico» de armas.
Alguns textos mais ou menos «especializados» em temas de defesa, em geral, e em indústria de defesa, em particular, parece revelarem uma estranha frieza e uma objectividade desumanizada, rendidos à linguagem neutra – dizem… – da Economia e indiferentes ao sofrimento causado ou potencial.
É possível que assim seja nalguns casos, mas também devemos reconhecer que são frequentes as abordagens jornalísticas sustentadas em números absolutos ou dados estatísticos que apontam o dedo ao problema da proliferação de armas, à corrida armamentista e à resistência suicida à abolição das armas de destruição maciça e especialmente das armas nucleares.
De facto, não devemos ignorar – e muito menos excluir – o valor intrínseco dessa informação se podemos usá-la ao serviço da tomada de consciência e da promoção de olhares mais informados sobre o problema e transformar os dados sobre gastos com armamento em unidades de medida de inviabilização da felicidade humana.
Por exemplo: quantas vacinas para muitas doenças ainda letais, quantos livros, quantas pinturas ou esculturas, quantas escolas, quantas bibliotecas e quantos teatros ou museus, quantos hospitais vale uma bomba?  
É seguro, citando o ex-vice-secretário-geral das Nações Unidas Jan Eliasson, que «não há mãos certas para armas erradas», mas talvez seja bem mais provável que uma notícia «errada» possa ser revertida e servir causas certas.


[1] O presente artigo retoma, adaptando-a, parte da comunicação inicial do autor no debate, sob o tema «Artistas pela Paz», bem como notas resultantes da rica troca de impressões com o público.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A Autoeuropa e o fervor anti-sindical

A última semana foi marcada pela greve dos trabalhadores da Autoeuropa, que os órgãos de comunicação social não se cansaram de rotular «histórica», mas não necessariamente pelas melhores razões segundo a leitura prevalecente nos próprios media.

Foi uma greve tão histórica que pelo menos dois jornais[1] guindaram a «figura da semana», não o líder sindical ou a organização sindical que conduziu a importante jornada de luta, mas, de forma exaltante, nada menos que a pessoa – o antigo coordenador da Comissão de Trabalhadores – que mais se destacou no ataque ostensivo e ofensivo aos sindicatos e aos próprios trabalhadores que massivamente votaram e cumpriram a greve.
Com o fervor anti-sindical dos editocratas e para gáudio dos patrões[2], que vêem reflorescer o divisionismo entre os trabalhadores, os media, que abandonaram há quase três décadas a «rotina» informativa sobre trabalho e sindicalismo, mostraram sem pudor o lado obscuro da captura do campo jornalístico pelos interesses do capital.
Mário Soares teve a ambição de «partir a espinha à Intersindical», mas não o conseguiu, nem com a central sindical fabricada com conluio com Sá Carneiro. Revisitando o que se leu, ouviu e viu nos meios de informação em relação à luta dos trabalhadores da Autoeuropa – na senda, de resto, do comportamento em relação a outras lutas –, apetece perguntar se os media se assumem os herdeiros dessa missão.
O que é patente é que, sem a mínima prudência no resguardo de imparcialidade que deveriam seguir, os órgãos de informação que se reclamam independentes tomaram partido por um dos lados, numa ressonância pública e impúdica das campainhas de alarme dos interesses patronais que retiniram com fragor nas redacções.
Uma análise, mesmo não exaustiva, ao conteúdo da «cobertura» jornalística da jornada, tanto na sua preparação desde o início de Agosto como no próprio dia e nos dias seguintes, evidencia oito linhas-força, ou ideias-chave, da narrativa patronal e do divisionismo, à qual os meios de informação deram enfático destaque.
Em muitos casos, fizeram-no com abundância e sobrevalorização de pormenores, designadamente as «contrapartidas» da empresa, que os mal-agradecidos trabalhadores parecem recusarem, como se tivessem ensandecido, para escândalo de editorialistas, patrões e dirigentes do CDS, do PSD e… de outros partidos que se dizem de esquerda.
Ei-las:
Primeira – Portugal necessita absolutamente da Autoeuropa e do reforço da sua capacidade produtiva, pois a empresa, com um volume de negócios anual de 1,5 milhões de euros[3], representa 4% das nossas exportações[4] e 1% do PIB[5].
Segunda – Essa necessidade justifica e legitima alterações gravosas aos horários de trabalho, com a imposição de trabalho ao sábado, que passa a ser dia “normal”, e a diminuição da retribuição do trabalho suplementar, que na realidade passa a ser pago com bonificações que, evidentemente, os trabalhadores deveriam aceitar[6].
Terceira – A Comissão de Trabalhadores estabeleceu um pré-acordo com a Administração da Empresa, mas os trabalhadores, acometidos por uma súbita irresponsabilidade colectiva, decidiram causar danos muito sérios à “paz social” que reinou, praticamente incólume, durante mais de duas décadas na empresa, rejeitando o texto com 74,6% dos resultados de uma consulta directa e por voto secreto.
Quarta – Isso aconteceu porque os trabalhadores foram instrumentalizados «por quatro ou cinco populistas»[7] do sindicato «afecto à CGTP» e desautorizaram a Comissão de Trabalhadores, que se demitiu em consequência dos resultados da consulta[8].
Quinta – O sindicato, que pelos vistos não metia prego nem estopa na Autoeuropa, está a «preencher o vazio deixado pela demissão» da CT, ameaçando a obra de paz social e obtendo um «protagonismo» ilegítimo, pois a Administração só negoceia com a dita comissão[9].
Sexta – O sindicato carece de legitimidade não só para conduzir a luta, mas também para representar os trabalhadores, apesar a confirmação da rejeição do pré-acordo entre a CT e a administração e da greve do dia 30, bem como o mandato para que represente os trabalhadores em reunião urgente com a Administração ter sido sufragada em plenário com mais de três mil trabalhadores, com apenas sete abstenções e um voto contra[10].
Sétima – Se a administração da empresa «não conseguir convencer os trabalhadores»[11], o mais certo, numa linha de pura chantagem, é deslocalizar a produção do novo modelo da Wolkswagen para outro país, como acontecera, alega-se, com a fábrica da Opel na Azambuja.
Oitava – Tudo o que doravante acontecer de mau será culpa dos sindicatos[12].             
Em contrapartida, aspectos essenciais foram claramente subvalorizados, desvalorizados e até escamoteados, designadamente o direito ao descanso, à saúde e às relações sociais e familiares, o valor efectivamente baixo da retribuição do trabalho suplementar, o risco de retrocesso de direitos, incluindo, de futuro, o de descanso ao domingo, bem como a obrigação da empresa de respeitar os seus compromissos com o estado Português[13], que a tem apoiado.
Mas isso, face aos sacrossantos interesses do capital, são minudências informativas pouco relevantes…


[1] Sol (suplemento B.I.) e Público, edições de 2 de Setembro
[2] Veja-se, entre outros materiais, a entrevista – mais uma! – do presidente da CIP ao Expresso (edição de 2 2 de Setembro): «O que se passa na Autoeuropa é uma luta por poder sindical, adulterando um activo enorme que é a estabilidade social da empresa».
[3] Expresso, 2 de Setembro
[4] Público, 29 de Agosto e 2 de Setembro
[5] Diário de Notícias, 29 de Setembro
[6] Pormenores sobre esta contrapartida encontram-se na generalidade dos meios de informação, incluindo em editoriais e artigos de opinião, valorizando a generosidade da empresa. Só falta sugerirem que, tendo em conta a importância estratégica da Autoeuropa, não viria mal ao mundo se os trabalhadores vendessem também o domingo… 
[7] António Chora, entrevista, aliás carregada de insultos, incluindo à inteligência e à autonomia dos trabalhadores, ao Jornal de Negócios, 30 de Agosto
[8] É curioso que nenhum órgão de informação, que se tenha presente, tenha perguntado à Comissão de Trabalhadores por que razões não acatou a decisão democrática, aliás tão esmagadora, dos trabalhadores.
[9] Veja-se, entre outras muitas outras peças, que incensam o «papel único» da CT, numa espécie de sindicalismo de substituição, isto é, arredando para fora da empresa os sindicatos e pondo-a a negociar matérias da competência legal dos sindicatos, a já referida entrevista de Chora ao «Negócios» e a curiosa chamada a toda a largura da primeira página do i de 30 de Agosto: «Trabalhadores das empresas fornecedoras da Autoeuropa estão contra a greve». Dentro, o jornal destaca que empresas fornecedoras e a comissão coordenadora das comissões de trabalhadores do Parque Industrial de Palmela insurgem-se contra a «o protagonismo dos sindicatos». Esquece-se apenas de referir que a posição da referida «coordenadora» data de 27 dias antes e que já não era propriamente novidade…  
[10] Público, 29 de Agosto
[11] Diário de Notícias, 29 de Agosto
[12] Veja-se, entre outras peças, escamoteando que a deslocalização da fábrica da Opel estava há muito decidida, a entrevista de Chora já referida, o parágrafo final do editorial do Diário de Notícias de 30 de Agosto: «Em 22 anos, só duas greves gerais beliscaram a paz social na Autoeuropa. Essa tradição parece ter os dias contados e, perante a manobra do poder dos sindicatos nas últimas semanas, só resta esperar que os mais de 3300 trabalhadores da Autoeuropa não acabem estes dias carregados de direitos e sem fábrica para trabalhar».    
[13] Como alerta, em rara referência, o dirigente do SITE Sul, Público, 29 de Agosto