Há pouco mais de um ano, o mercado dos media foi tomado pelo sobressalto do anúncio da intenção da
multinacional de origem francesa Altice de adquirir o importante grupo Media Capital,
e muito especialmente a estação de televisão TVI, a produtora de conteúdos
Plural e o respectivo grupo de rádios, de grande audiência.
terça-feira, 26 de dezembro de 2017
segunda-feira, 18 de dezembro de 2017
Uma questão de língua
Nos comícios para as eleições de quinta-feira na Catalunha (impostas pelo Governo espanhol), os líderes das organizações regionais do Partido Popular e do Ciudadanos falam em Castelhano. Não há coincidências, nem equívocos.
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
A morte de um empresário
Os obituários, em geral, e os grandes destaques, em
particular, são espécies que justificam estudos e reflexões sobre as opções e
práticas jornalísticas. Não apenas pelo que retêm e cristalizam dos aspectos
conhecidos ou ignorados da biografia dos defuntos, mas também pelo consenso que
constroem sobre boa parte das figuras desaparecidas e, sobretudo, pela
glorificação em que redundam, por vezes, os registos editoriais, num exercício
de independência no fio da navalha.
Por exemplo, a morte recente do empresário Belmiro de
Azevedo, que ocupou em pleno os noticiários aos audiovisuais e dos meios de
informação em linha de 29 e 30 de Novembro, bem como foi assunto principal dos
jornais deste último dia, constitui um interessante caso que seria útil
analisar com detalhe crítico – tarefa que não cabe neste artigo, nem a tal se
propõe, mas que se sugere a académicos.
Um voo rasante sobre o conteúdo, os ângulos de abordagem e
os qualificativos evidenciam, em geral, uma atitude encomiástica e uma
dificuldade de descomprometido distanciamento dos media. Não está em causa a relevância da personagem, inegável na
história económica, social, política e cultural do país, assim como é inegável
que o acontecimento teria de ser forçosamente notícia. A pergunta legítima
consiste em saber se houve exagero no espaço e no «tom»…
Os jornais impressos, por exemplo. Os diários generalistas
nacionais não regatearam as honras de primeira página com grandes destaques – a
totalidade da mancha impressa, no caso do Público;
cerca de 75% no caso do i; 60% no do Jornal de Notícias; 36% no do Correio da Manhã; e 34% no do Diário de Notícias.
Também não foram parcos em páginas noticiosas – 18 no Público, nove no JN, seis no i e quatro
no DN e no CM (embora, nestes últimos, com um anúncio numa delas).
Justificava-se? Pelo menos o facto de todos eles publicarem editorais (ou
artigos de opinião do diretor ou de um adjunto) avaliza a importância
transcendente conferida ao acontecimento.
É comum ouvir-se que, quando morre alguém, a imprensa não
diz senão bem, ou pelo menos é comedida nas críticas, ou adia-as para outras
oportunidades. Terá o vulgo razão? Em 57 peças (incluindo editoriais e artigos
de opinião/depoimentos solicitados a personalidades), 38 citações/frases no
discurso directo, seleccionadas de declarações antigas do próprio Belmiro de
Azevedo, e 34 extraídas de reacções de personalidades, são raríssimas as
expressões menos favoráveis.
O JN menciona a queixa de «desrespeito» do falecido em relação
à viúva do banqueiro Pinto de Magalhães. O Público
acrescentou, citando-a, naquela que é a única crítica em todas as peças
publicadas nos cinco diários: «É uma pessoa dura, não tem coração». Ainda o JN
menciona um reparo de um ex-eleito na freguesia natal do empresário ao que
poderia ter feito pela terra e não fez. Já o CM inseriu, na sua selecção de
frases do próprio: «Se não for a mão-de-obra barata, não há emprego para
ninguém». E ficamos por aqui.
O consenso editorial em torno da figura segue em abundância
de encómios e elogiosas referências ao percurso, ao carácter, à determinação, à
coragem, às virtudes, tudo bem temperado de adjectivos e virtudes do empresário
– «Mais do que um empresário, Belmiro foi um exemplo de exigência permanente,
um homem livre e corajoso, amigo do risco, da disciplina interior, da educação
pela vida fora, da “ética rigorosa”», escreve o Público – um dos mais ricos do país, digno de figurar no catálogo
obsceno de fortunas da Forbes.
Na glorificação mediática do empresário («O maior empresário
português no pós-25 de Abril», disse Daniel Bessa, no Público), assinale-se o singular destaque para a sua sobranceira
relação com «os políticos», a que os media
preferiram chamar «coragem» e «independência», como se tal «independência» não
residisse de facto de estar, precisamente, no topo do poder económico.
«Belmiro de Azevedo / O Empresário que desafiou os
políticos», titula o DN na primeira página, abrindo a peça principal, no
interior, com este título «Belmiro de Azevedo: o empresário que reprovou todos
os governantes». Os políticos, cita dele o JN, «falam do que não sabem, do que
não tem a ver com a realidade e prometem o que não podem cumprir», pois «a sua
postura na política foi sempre de “contrapoder”, como fazia questão de
assumir».
Ao longo dos textos, emerge a colecção de ditos
caricaturizantes, alguns mesquinhos, de Belmiro sobre personalidades da vida
política, incluindo o actual Presidente da República – que aliás não lhe poupou
rasgadas loas –, como quem fixa na memória dos leitores uma espécie de herói
que até ousou pôr na ordem os deputados da nação, «obrigando-os» a madrugarem
em certa manhã parlamentar e a recebê-lo às 8 horas em comissão.
Se algum dia for realizado um estudo rigoroso, ou alguma
reflexão aprofundada, sobre os obituários em geral e os destaques dos media à morte de poderosos, talvez compreendamos
melhor essa espécie de fascínio pelo poder económico e um certo desdém por essa
realidade democrática a que tantas vezes se referem como «os políticos»…
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Poder
quinta-feira, 7 de dezembro de 2017
Jerusalém do capital
Os Estados Unidos, por intermédio de Donald Trump, confirmaram a sua decisão de "reconhecer" Jerusalém como a capital unificada de Israel. Trump leva o ónus do discurso bronco e de uma decisão irresponsável, mas não nos fixemos demasiado nele, para não perdermos o fio à meada dos interesses que velam antes, durante e depois dele...
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Poder
terça-feira, 28 de novembro de 2017
Filões e agendas
1. Por estes dias, corre nas redes sociais uma
insistente torrente de interpelações aos media,
questionando-os sobre a ausência – ou pelo menos a insuficiência – de notícias
aprofundadas e sistemáticas sobre os processos relativos a alegada fraude com fundos
europeus na Tecnoforma, envolvendo duas altas figuras do PSD; de alegada
corrupção para a atribuição de «vistos gold», com a participação de figuras do
topo da Administração do Estado e até um ministro do PSD; e de alegada
corrupção na compra de submarinos à Alemanha tutelada pelo anterior presidente
do CDS-PP.
Não é que as notícias não existam, como demonstra, por
exemplo, uma
investigação publicada há duas semanas pelo Público,
mas as inúmeras mensagens veiculadas evidenciam uma insatisfação com a
cobertura jornalística conferida àqueles assuntos, em contraste com a
prolongada, e nalgumas fases intensa, divulgação de elementos, mesmo que por
vezes irrelevantes, do processo da «Operação Marquês». A comparação sugere que
certas personagens do teatro político são mais penalizadas pelo escrutínio
mediático do que outras, o que suscita perplexidades ao público.
Haverá nos media
uma agenda selectiva – sabe-se lá por que razões –, que fixa um alvo e não o
larga até deixá-lo exangue, neutralizado e sobretudo morto civicamente,
enquanto outros gozam de uma quase condescendência, para não dizer de uma
espécie de imunidade mediática? E por que será que alguns meios dedicam uma
atenção sistemática, quase militante, a certos alvos, mas praticamente
negligenciam outros? Que razões justificarão uma e outra práticas?
Uma explicação possível, percepcionada do lado de dentro do
aparelho mediático, será talvez o facto de um determinado processo constituir
um filão de tal maneira suculento, mesmo antes de a acusação estar deduzida, e
de circunstâncias nem sempre claras terem facilitado a fuga, a violação do
próprio segredo de justiça, terem tornado irreprimível a vontade de noticiar e
incontrolável o fluxo das notícias. Em contrapartida, outros filões
esgotaram-se mais rapidamente e os processos terão caído em certa rotina. Será
assim tão simples?
Quaisquer que sejam as justificações, parece evidente que os
cidadãos estão longe de compreender o fenómeno, permanecendo uma nebulosa que
alimenta uma percepção de parcialidade dos media
e até de existência de agendas próprias, ora de denúncia, ora de ocultação.
Talvez seja altura de arrepiar caminho e tornar mais transparentes as opções
editoriais.
2. Há uma semana, a Impresa Publishing, de
Francisco Pinto Balsemão, aproveitou a alienação das suas revistas para
despedir – ainda que sob a capa da fórmula, igualmente violenta, mas muito
eufemística, da «rescisão por mútuo acordo» - um conjunto de jornalistas e
outros trabalhadores que não seriam transferidos para o novo empregador,
encetando mais um processo de «reestruturação».
O
acompanhamento dado pelos media ao
assunto foi escasso e contido, como acontece com frequência com os
«emagrecimentos» nas empresas do grupo Balsemão, reduzido ao indispensável e
sem qualquer esforço sistemático de acompanhamento do caso, em contraste com o
que acontece em relação a outras empresas, sobretudo quando estas são «da
concorrência». Também neste caso, os cidadãos indagarão as razões desta espécie
de bipolaridade corporativa.
É
provável que, na conjuntura económica e laboral dos media, funcione algum mecanismo de contenção, mais ou menos em
razão do temor de que o mal alastre a outras empresas e atinja – ou volte a
atingir – outras redacções, induzindo uma prudência frágil que consiste em
desvalorizar (e silenciar…) o mal dos outros para o que o nosso se não ponha a
caminho. Mas também não se descarta a hipótese de uma certa acomodação à ideia
da inevitabilidade das «reestruturações» e das suas consequências para os
jornalistas e outros trabalhadores do sector.
Talvez
os leitores, os ouvintes e os espectadores mais atentos sejam levados a
reflectir sobre este problema, bem como a questionar-se sobre a falta de
consciência crítica entre os jornalistas, a ponto de quase desistirem de manter
– ou mesmo colocar – na agenda dos media
os problemas da sua própria profissão e das suas empresas.
É
certo que, ao contrário do que pensam muitos cidadãos, os jornalistas não detêm
o poder definitivo sobre o conteúdo dos órgãos de informação aos quais vendem a
sua força de trabalho, e que é sempre mais fácil publicar notícias sobre as
fragilidades da «concorrência» directa do que garantir um acompanhamento
sistemático do sector que ponha em evidência, perante o público, os problemas
do sector. Mas é grande o risco de se limitarem mais a fazer o «jornalismo do
patrão» do que o jornalismo para os cidadãos.
3. Na passada sexta-feira, vários órgãos de
informação alimentaram, em paragonas e repetidas peças, a ideia de que «os
salários no privado vão descer em 2018», devido ao fim do pagamento dos
subsídios de férias e de Natal em duodécimos. Várias delas enredaram-se nas
mais bizarras acrobacias de aritmética na tentativa de demonstrar que tal
medida «vai retirar rendimento mensal»[1]
aos trabalhadores do sector privado (e do público, não?).
O
raciocínio, muito colado à posição do PSD, que se opôs à justa medida proposta
pelo PCP, assenta numa convicção tão errada quanto perigosa – a de que os
trabalhadores «deixam de receber em duodécimos», como se esse fosse o direito a
preservar.
O
raciocínio escamoteia os factos essenciais:
-
Os subsídios de férias e de Natal estão fixados na lei para serem pagos por
forma a que os trabalhadores possam satisfazer as despesas inerentes ao gozo
daquele período e das festividades sem sacrifício do seu rendimento mensal,
tendo assim durante décadas, e essa é que é a normalidade;
-
Em 2013, o Governo PSD/CDS-PP, depois de ter roubado aos trabalhadores da
Administração Pública e do sector empresarial do Estado, os subsídios de férias
e de Natal, impôs o pagamento em duodécimos aos trabalhadores do sector privado;
-
Se pretendessem receber os subsídios nas alturas devidas e não em duodécimos,
teriam de notificar expressamente (aliás em prazos muito curtos) as empresas, constituindo
indesmentível maioria esmagadora (entre 2% e 20%, segundo as fontes) aqueles
que optaram por manter a «normalidade»;
-
Aquela imposição tinha por objectivos gerar nos trabalhadores a ilusão de que
os seus «rendimentos mensais» não estavam a ser afectados pelas medidas fiscais
gravosas, nomeadamente a sobretaxa do IRS, e, a prazo, acomodá-los à ideia da
«desnecessidade» de tais subsídios e à sua extinção.
O
raciocínio adere muito à agenda da direita e do patronato, em relação à qual os
media estão demasiado sensíveis, tão
largo e profundo é o seu divórcio em relação ao mundo do trabalho e aos
problemas dos trabalhadores. Talvez seja útil aos editores e aos proprietários
de meios de informação reflectir por que razões os trabalhadores se vão divorciado
deles…
[1] Um
exemplo extraído do Correio da Manhã, cuja manchete era exactamente «Salário do
privado desce em Janeiro»
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Jornalismo
sábado, 25 de novembro de 2017
A ilusão em duodécimos
Estou a pensar, a propósito desta estranha "polémica" desencadeada pela resistência do PSD à proposta do PCP de extinção do pagamento em duodécimos dos subsídios de férias e de Natal, em quanto é curta a memória e em como foram quase eficazes os ataques aos direitos dos trabalhadores feitos pelo governo PSD/CDS.
A imposição daquela forma de pagamento - na realidade, para iludir os trabalhadores e disfarçar o agravamento fiscal de então, bem como para ir os preparando para a extinção a prazo daqueles subsídios - data de 2013. Mas em tão escassos anos tornou-se a normalidade, pelos vistos para muitos!
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Trabalho
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
O JN e a cidade
Estou a pensar, matutando na dupla efeméride que espero viver no próximo ano - 130 anos de existência do "Jornal de Notícias" e 30 anos da minha integração no seu corpo redactorial, vindo do entretanto extinto "O Primeiro de Janeiro" - nas múltiplas funções que a presença de um jornal cumpre, ou deveria cumprir, na vida de uma cidade, de preferência no centro da cidade.
São elas que conferem aos jornais a dimensão de instituições únicas e insubstituíveis, sobretudo quando os jornais sentem e reflectem o pulsar das cidades e nas suas redacções pulsam todos os mundos.
Penso também no quanto os seus edifícios (o do JN foi o segundo construído de raiz no Porto, muito depois de "O Comércio do Porto", também já extinto) emergem na paisagem de emoções que também povoam e definem a cidade. Também por isso fazem parte da alma da urbe.
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Porto
terça-feira, 14 de novembro de 2017
Os media e as armas nucleares
Por estes dias, o Conselho Português para a Paz e a Cooperação
(CPPC) está a dinamizar uma importante campanha de angariação de subscritores
de uma
petição com vista à assinatura (e ratificação), por Portugal, do Tratado
de Proibição das Armas Nucleares, adotado pela Organização das Nações
Unidas (ONU) em 7 de Julho passado.
A iniciativa não tem tido acolhimento nos media, seguramente muito ocupados com
outros temas e pouco inclinados a promover a discussão de assuntos de
importância vital para a comunidade, mas cuja utilidade imediata – e
imediatamente mensurável em audiência – não vislumbrarão.
Foi transitório o interesse mediático (aliás sem grande
entusiasmo) pelo tema quando, a 6 de Outubro, foi anunciada a atribuição do
Prémio Nobel da Paz à Campanha Internacional
pela Abolição das Armas Nucleares (ICANW, no acrónimo em Inglês), cujo
trabalho empenhado e decisivo deve ser justamente destacado.
Setenta e dois anos depois do lançamento das bombas nucleares
sobre Hiroshima (6 de Agosto de 1945) e Nagazaki (três dias depois), no Japão, com
a morte imediata, ou nos meses seguintes, de 215 mil pessoas, não obstante o
apelo à eliminação das armas nucleares aprovado pela então jovem ONU, em 24 de Janeiro
de 1946 (menos de seis meses após a tragédia) e apesar de o Tratado de Não
Proliferação de Armas Nucleares (1 de Julho de 1968) impor o desarmamento
geral e a eliminação total dos arsenais nucleares, o risco de uma catástrofe é
real e nenhum passo decisivo foi dado para cumprir aqueles objectivos.
Nove países (Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido,
França, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte) possuem um total de cerca
de 15 mil ogivas nucleares. Além daqueles, cinco outros (Bélgica, Alemanha,
Itália, Holanda e Turquia) têm estacionadas armas nucleares nos respectivos
territórios. E outros 23 – Portugal, Coreia do Sul e Japão incluídos – fazem
parte de “alianças nucleares”, com a NATO à cabeça, que os colocam nas rotas
destes dispositivos de morte cuja eficácia a imaginação do cidadão comum não
alcança.
Uns dois terços dos países do mundo – praticamente o hemisfério sul – estão
livres de armas nucleares, mas só por ingenuidade se pode crer que estarão ao
abrigo de uma conflagração nuclear, seja pela detonação deliberada de um
engenho, seja por erro ou por acidente.
Desde praticamente os alvores da era nuclear militar que os
movimentos de cientistas, com os físicos Frédéric Joliot-Curie, Albert Einstein
e Joseph Rotblat e o filósofo e matemático Bertrand Russel à cabeça, aos quais
se juntaram inúmeros outros intelectuais, alertaram para os elevados riscos que
impendem sobre a humanidade e se empenharam contra a bomba nuclear.
Dos artigos publicados imediatamente após o lançamento da
bomba de Hiroshima e dos programas de rádio, nomeadamente de Russel, ao Apelo
de Estocolmo (1950), passando por inúmeros artigos e entrevistas, debates e
manifestos, milhares de intelectuais não cessaram de avisar para a elevada
probabilidade de destruição maciça e em larguíssima escada – seja por impacto
direito da deflagração, seja pelo transporte de cinzas e poeiras radioactivas,
transportando radioisótopos que permanecerão activos por milhares e até dezenas
de milhares de anos.
Embora se registe uma (ainda muito incompleta) redução das
armas nucleares (eram mais de 20 mil em 2010 e mais de 70 mil nos anos 1980), a
crescente sofisticação dos arsenais, à força de vultuosos investimentos, a
mobilidade e a capacidade de propulsão são surpreendentes e muito perigosas.
Estima-se, por exemplo, que dois terços das 300 ogivas francesas estejam
embarcadas em mísseis balísticos em submarinos e podem alcançar dez mil
quilómetros de distância.
Independentemente de quem possui as armas nucleares, não há
a menor dúvida de que constituem uma ameaça real à segurança e ao futuro da
humanidade e de que, apesar da retórica desculpabilizadora baseada na invocada
necessidade de dissuasão tão frequente e hipocritamente usada no discurso
“diplomático” dos detentores de armas e dos seus seguidores, estamos perante
uma séria questão de ética da legitimidade.
Não são apenas as convenções de direito internacional
humanitário que proíbem os ataques indiscriminados, ou as armas que, pela sua
natureza, possam causar danos supérfluos ou ferimentos desnecessários e que
impõem o princípio de que o direito dos países em conflito a escolher os
métodos e meios de combate não é ilimitado.
É sobretudo a exigível sã consciência de que qualquer ser
humano deve possuir acerca dos limites ao seu poder, de que a ninguém é lícito
decidir sobre a vida ou a morte dos povos e o destino da própria humanidade,
assim como, por maiores que sejam as divergências, não há uso benigno possível
para o poder de destruição tão letal e tão extenso hoje ao alcance do homem.
Porém, os media não
proporcionam o mínimo debate sobre um tema tão decisivo na vida dos povos. Pode
ser por indiferença – o que é deplorável –, ou até pode ser por um critério de
prioridades na agenda – o que é preocupante –, mas a escassez ou mesmo ausência
de discussão e reflexão no espaço público deixam os cidadãos e os próprios
jornalistas desarmados perante o arsenal argumentativo dos detentores de armas
nucleares e seus vassalos e seguidores.
É assim que pouco ou nada se questiona a posição seguidista
do Governo português, que esteve fora das
negociações do novo Tratado e evidentemente não quer assinar (e muito menos
fazer ratificar) o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, com o singelo
argumento segundo o qual esse
acto, «que declara ilegais as armas nucleares» não seria compaginável com a
circunstância de ser membro da NATO, que «é uma aliança nuclear». Esta é aliás
o maior detentor de ogivas do mundo: além das 6800 dos Estados Unidos, 300 da
França e 215 do Reino Unido, sem contar com as 80 do amigo Israel[1].
Ou que se come e cala, numa obediente «independência»
jornalística, incensando acriticamente a doutrina da NATO (herdeira ideológica
da doutrina de hegemonia planetária que os Estados Unidos deixaram tragicamente
plasmada nos ataques a Hiroshima e Nagazaki, quando já era mais do que
evidente, desde 1944, que a Alemanha nazi não possuía a bomba atómica), ou se
questiona o poder ilegítimo que a Aliança Atlântica outorga a si própria de
impor a sua paz ao mundo, aliás bem
patente no seu comunicado
de 20 de Setembro, a propósito da abertura às assinaturas do Tratado de
Proibição das Armas Nucleares.
Continuaremos a calar?
[1] Usa-se
aqui, tal como em relação aos restantes detentores de arsenais nucleares, a
informação regular do Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo
(SIPRI, no acrónimo em Inglês), que não consta como insuspeita quanto ao
independência, pelo menos nos media mainstream…,
mas é mencionada, por vezes, a hipótese de Israel
possuir realmente umas 200 ogivas.
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sábado, 11 de novembro de 2017
Sobre tudo o que mexe
Começando por declarar que declino a investidura de afilhado da Sra. Dra. Maria Cavaco que, sem me ver tido nem achado, o Presidente da República quis impor-me, venho manifestar preocupação com as piruetas temáticas que S. Exa. faz para estar permanentemente na berlinda mediática.
Acrescento, aproveitando esta oportunidade, que ainda estou para perceber por que razões os órgãos de informação alinham neste jogo - tantas vezes patético - de colocar S. Exa. a pronunciar-se sobre tudo o que possa bulir. Um destes dias, talvez se pronuncie ex cathedra sobre a morfologia da caganita do rato-almiscarado e a vida sentimental do gambozino.
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quinta-feira, 9 de novembro de 2017
Os jornalistas e as armas nucleares
Correspondendo ao amável convite do Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC), participei hoje num debate sobre o Tratado de Proibição das Armas Nucleares, cuja assinatura e ratificação urgente, especialmente pelos países detentores de arsenais nucleares e pelos membros da NATO, defendi.
Sabendo-se muito bem quem tem armas nucleares – 15 mil ogivas detidas por nove países, com os Estados Unidos e a Federação Russa à frente, e incluindo a China, o Reino Unido, a França, Israel ou o Coreia do Norte, com potências e capacidades de propulsão extraordinárias – e o gravíssimo risco que uma deflagração representa para a Humidade, discordei do argumento central usado pelas potências nucleares e a carneirada da NATO (Portugal incluído) para recusar o Tratado: o da preservação do equilíbrio mundial.
Com nove países dotados de um poder extraordinário de uso indiscriminado de armas de aniquilamento de cidades e decidir sobre a vida de povos inteiros, é claramente manifesto o desequilíbrio, com pelo que argumentar pelo “equilíbrio” tresanda a desonestidade insustentável e a hipocrisia insuportável.
Por outro lado, tanto o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares de 1968 como o Tratado de Proibição de Armas Nucleares, adoptado em 7 de Julho passado mas que ainda carece de ratificação por pelo menos 50 estados, propugnam um desarmamento geral, multilateral e, evidentemente, simultâneo. Só esse processo garantirá o equilíbrio prometido.
Nas actuais condições, é imperioso que os intelectuais reforcem o valor do seu papel central na desmistificação da propaganda belicista, bem como na desmontagem do discurso desculpabilizador dos que teimam em manter os seus arsenais com a alegação de que com isso o mundo estará mais seguro.
Na verdade, as armas com o potencial de destruição indiscriminada – com a morte e o sofrimento de centenas de milhar ou até milhões de pessoas inocentes – não são boas ou más consoante as mãos em que se encontram.
Todos somos poucos para exigir atitudes concretas. Assinar a petição exigindo às autoridades portuguesas a assinatura e ratificação do Tratado ajudará muito.
(A foto é do perfil de Ilda Figueiredo, presidente do CPPC, a quem agradeço o convite)
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terça-feira, 7 de novembro de 2017
Pugilatos
Suponho que o futebol se joga dentro do campo e que são os seus resultados e o desempenho das equipas que interessam ao público.
Já me faz muita confusão que os media tenham encetado há anos por uma espécie de pugilato verbal entre dirigentes.
Mas alguém faz o favor de explicar-me por que razões têm relevância mediática - isto é, interesse para o público - as bocas dos assessores de imprensa (perdão, directores de comunicação!) dos clubes nas redes sociais?
É só para saber.
Agradecido.
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A Revolução de Outubro
Pensando na Revolução de Outubro, no significado imenso que vai para além das extraordinárias transformações e conquistas no século XX e no que se projecta no futuro, estou também a matutar no quanto se diz por estes dias, em rançosos preconceitos e ódios mal dissimulados.
Enfim, se a desdenham tanto, por que razões a temem?
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domingo, 5 de novembro de 2017
Catalunha
a) Puigdemont e outros membros do Governo autónomo catalão aguardam em liberdade a tramitação na Bélgica, enquanto os restantes membros estão encarcerados às ordens de um afloramento franquista em Espanha; e
b) Enquanto Oriol Junqueras e outros elementos enviados para a prisão pela Audiência Nacional foram algemados, Puigdemont em seus companheiros foram conduzidos sem algemas entre a esquadra de polícia onde se apresentaram esta manhã o o Tribunal de Instrução Criminal onde foram ouvidos.
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sexta-feira, 3 de novembro de 2017
Ambivalência cívica
A algumas horas da eventual decisão da juíza de turno na Audiência Nacional espanhola, Carmen Lamela, sobre a emissão de um pedido europeu de detenção do presidente eleito da Generalitat da Catalunha, estou a matutar nesta espécie de ambivalência cívica que cerca Carles Puigdemont.
Por um lado, é mal compreendido por muitos que tenha "fugido" para a Bélgica, furtando-se, dizem, à Justiça e escapando à prisão preventiva que o Estado espanhol impôs aos seus companheiros de "Govern", comportamento este pouco solidário com os mais de dois milhões de catalães que enfrentaram o risco e a brutalidade do referendo de 1 de Outubro.
Por outro, talvez seja compreensível que se refugie, enquanto for possível, na "capital da União Europeia", onde pode "circular livremente e em tranquilidade" (a correspondente da RTP em Madrid enfatizava que Puigdemont bebia um café enquanto a Audiência Nacional enviava os seus colegas para a cadeia). É que, enquanto for possível, ele e os restantes quatro membros do seu governo poderão continuar a falar ao mundo e a denunciar os desmandos que, em nome de um estado de direito, o Estado espanhol está praticando.
O encarceramento de parte do governo autónomo da Catalunha e a vigilância policial - assim mesmo, sem aspas - aplicada à Mesa do Parlamento catalão são mais um passo profundamente errado da gestão franquista da chamada "questão catalã". Se Madrid não o entendeu até agora, só piorará as coisas.
sábado, 28 de outubro de 2017
Portugal e a Catalunha
Estou a pensar, matutando ainda no comunicado oficial do Governo português de ontem sobre a "declaração unilateral de independência no Parlamento da Catalunha", nas declarações, sobre o mesmo assunto, do ministro dos Negócios Estrangeiros e do primeiro-ministro, bem como na breve nota oficial, também de ontem, do Presidente da República, por que razões Marcelo Rebelo de Sousa telefonou a Filipe de Bourbon, "em nome da fraternidade entre os dois países e do respeito pelo Estado de Direito".
Quanto mais penso, mais receio que o gesto tenha, se não a ressonância de uma vassalagem inadmissível, o significado de deferência e de cumplicidade excessivas.
sábado, 21 de outubro de 2017
Uma questão de liberdade
A malta que se pronuncia contra a "ditadura" do Maduro e a falta de liberdades na Venezuela e o controlo dos meios de informação na Venezuela, que diz essa malta a esta coisa do franquista Rajoy capturar a autonomia catalã, controlar a polícia regional, as telecomunicações e a internet e a comandar com pulso firme os meios públicos de informação catalães? Sim, que diz essa malta?
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Descontracção e incêndios
Estou a pensar na despretensiosa imagem que registei, no domingo à tarde, em plena Serra da Freita, descendo para Arouca, como mero auxiliar de memória da tragédia que este Sol funesto (o termómetro mostrava 32 graus Celsius, se não me engano) atrás de uma gigantesca cortina de fumo prenunciava, ou que eu não sabia que estava acontecendo.
Deu-se o caso de, estando em passeio descontraído, ter decidido passar de Vouzela a Arouca, com destino ao Porto, por vias secundárias, a reabastecer a alma e a inteligência de país real.
Por três ou quatro vezes, porém, fui obrigado a desvios e a procurar rotas seguras, fosse por ordem da GNR, fosse por algum conhecimento do terreno, fosse pelo precioso auxílio de mapas e GPS, fosse pelo "instinto" de algum modo treinado em décadas de caminhadas em montes e vales, fosse pelos conhecimentos e experiência do muito que tenho lido, ouvido, observado e escrito ao longo de mais de 30 anos, designadamente sobre Natureza, floresta e fogos florestais.
Ando a matutar nisto desde que, regressado ao país mediático, me inteirei da tragédia dos incêndios desse dia, do brutal preço em vidas e da imprudência que eu próprio cometi. Especialmente por esta, eu seria o último a pedir a demissão da ministra da Administração Interna.
terça-feira, 17 de outubro de 2017
Manipulações por interposta pessoa
No dia 1 de Outubro, a Catalunha foi a votos, num referendo
sobre a eventual declaração de independência que os media da direita espanhola (ou madrilena…), o serviço público de
televisão e até o maior jornal «de referência» internacional em castelhano – El País – não se cansam de cunhar como
«ilegal» e mesmo de tentar ridicularizar.
El País, que antes
de imprimir sob o cabeçalho a modernaça divisa «El periódico global» se ufanava
de ostentar «O diário independente da manhã», emparceirou com El Mundo, La Razón e o ABC, por exemplo, às ordens do Governo
espanhol na defesa das suas teses «constitucionalistas» e na perigosa aversão
ao diálogo com a Generalitat.
É público e notório – as imagens e os sons chocantes
correram mundo – que a Polícia Nacional e a Guarda Civil espanholas tomaram a
Catalunha e desencadearam uma repressão brutal, incluindo com cargas policiais
violentas sobre os catalães que protegiam as secções de voto, as urnas e os
boletins de voto, que insistiram em expressar a sua vontade e se manifestavam
em defesa da liberdade de expressão.
A Imprensa internacional – portuguesa incluída – viu tudo
isso e não pôde deixar de chamar as coisas pelo nome que exigiam nas primeiras
páginas do dia seguinte. Por exemplo, os britânicos The Times, The Guardian e
Financial Times não deixaram de
enfatizar em manchete as centenas de feridos pela repressão policial, que o
francês Libération sintetizou com
expressiva eficácia: «O golpe de força».
Enfatuados na sua cruzada legalista que se tem prolongado
mês após mês, semana a semana, dia após dia (basta contar-lhes os editoriais…),
emprestando legitimidade ao uso manifestamente desproporcionado e ilegítimo da
força, La Razón titulou a toda a
largura da primeira página: «Firmeza contra o golpe». El País não lhe ficou atrás: «O Governo impede pela força o
referendo ilegal».
«Referendo ilegal» - é assim que a «referência» do
«jornalismo de rigor» espanhol cunha sistematicamente o «desafio
independendista» (outra referência recorrente) nas notícias, nos editoriais e
nos artigos de opinião, fiel, de resto, à sua tradição «legalista» e de fiel
jurado da Constituição de 1978 pelo menos desde a cobertura, ostensivamente
enviesada, dos factos relacionados com o movimento independentista basco, não
só em relação à organização ETA, mas também relativamente às actividades e
posições das forças e partidos legais.
A devoção «legalista» do «pediódico global» depende, no
entanto, da latitude e dos interesses em presença. Por exemplo, o pretenso
referendo organizado em Julho pela oposição na Venezuela, manifestamente
ilegal, mereceu amplíssimo apoio de El
País e de outros meios de informação espanhóis e os grandes media em geral, tal como as
manifestações violentas que causaram mais de 140 mortos eram sempre legítimas.
Legal e embevecidamente acarinhada pela imprensa de Madrid
foi também, claro, a manifestação dos unionistas espanhóis realizadas no dia 8
– a «maioria silenciosa», como a crismaram, com uma ressonância ideológica que
nos é muito familiar e que convoca a atenção para o franquismo e o fascismo que
ressurgem despudoradamente à luz do dia, embora tolerado pelos media «constitucionalistas».
Poucos de ocuparam de pormenores como a presença de símbolos
falangistas e saudações nazis, ou a explicar o que é uma tal Sociedade Civil
Catalã, na realidade uma organização que agrega e organiza a hostilidade ao
nacionalismo catalão e à participação democrática, numa base em que também
entra gente da extrema-direita e cuja apresentação contou com delegações da
Frente Nacional francesa e da Fundação Nacional Francisco Franco.
«Histórica manifestação contra o separatismo e pela Constituição»,
titulou El País em entusiasmada
manchete, encimada por um antetítulo não menos inspirada: «Centenas de milhar
de pessoas inundam as ruas de Barcelona». O jornal «independente» tinha um
fito: desconstruir a «narrativa» do independentismo segundo a qual as ruas e
praças da capital catalã lhe pertencem.
No seu esforço militante pela sua verdade, El País, que tolera pouco a diversidade
de opiniões nas suas páginas, a ponto de dispensar um dos mais prestigiados
colaboradores, John Carlin, que escrevera uma série de artigos divergentes
sobre a Catalunha, nem sequer se dá ao trabalho de disfarçar a sua catalanofobia e a indisfarçável
urticária que lhe causam as intervenções nomeadamente do presidente da
Generalitat, Carles Puigdemont. Ainda ontem, um texto não assinado publicado na
edição em linha, pretendendo «desmontar» as posições do líder catalão, titulava
sem rebuço: «As insistentes mentiras de Puigdemont».
Num panorama mediático em que boa parte dos títulos assume
de forma mais ou menos aberta a respectiva orientação ideológica, o caso do tratamento
do «desafio independentista» catalão nas páginas da grande imprensa não é
absolutamente estranho no plano doméstico, ainda que o assunto esteja na ordem
do dia em muitos espaços de discussão.
Mas assume gravidade a ter em conta quando, precisamente
jornais como El País, gozando,
externamente de prestígio e de credibilidade, são frequentemente fonte de
informação para muitos jornalistas – seja como deslocados em reportagem no
país, seja na «cobertura» recuada, nas redacções, dos acontecimentos em Espanha
ou no Mundo.
Nomeadamente em Portugal, é muitas vezes detectável que tais
jornais são fonte única de muitas notícias. Nesse sentido, uma abordagem
crítica ao comportamento editorial dos media
espanhóis – no caso – não pode deixar de revestir o maior interesse para os
leitores, os ouvintes e os espectadores portugueses. Para que saibamos todos
como se faz a informação que nos «vendem» e possamos prevenir manipulações por
interposta pessoa.
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Jornalismo
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
domingo, 8 de outubro de 2017
sábado, 7 de outubro de 2017
Espontaneidades
Estou a pensar no problema do significado das palavras e do seu alcance e efeitos em Jornalismo.
Vem a propósito do que escutei de uma repórter enviada a Barcelona, cobrindo a manifestação de apelo ao diálogo. É "espontânea", dizia ela.
Basta observar as imagens por breves instantes, atentar um pouco na uniformidade estilística e gráfica de materiais - palavras de ordem e respectivos suportes - ostentados em grandes quantidades. Percebe-se, logo de relance, que de nada de espontâneo tem a iniciativa.
Estou a pensar também nas razões pelas quais jornalistas gostam tanto de apresentar como espontâneo - e não haveria qualquer mal se o fosse - o que revela aturada preparação.
E receio poder vir a chegar à conclusão de que correm nas veias de certo jornalismo concepções de democracia um pouco, digamos, retorcidamente preconceituosas.
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Jornalismo
domingo, 1 de outubro de 2017
Franco revive na acção de Rajoy
Francisco Franco ressuscitou na cabeça e na acção de Mariano Rajoy e nos bastões da Guarda Civil espanhola. Na hora da verdade, o fascismo varrido para debaixo do tapete na "transição para a democracia" irrompe com toda a força. Depois não se queixem...
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Os jornalistas e a Paz
Um dos
monumentos mais impressionantes visitáveis na Península Ibérica é a
basílica-cripta de Santa Cruz do Vale dos Caídos, em San Lorenzo del Escorial,
província de Madrid, dominando, com ostensiva grandiosidade a Serra de
Guadarrama.
Além da
expressão da soberba faraónica do caudilho fascista espanhol – Francisco Franco
– e do expoente de uma estética do poder violentamente antidemocrático e
opressor, é chocante o seu significado.
Embora
viesse a ser local de inumação – entre os 36 mil soldados que ali foram
enterrados – de alguns combatentes republicanos mortos na Guerra Civil de
Espanha (1936-39), cujas famílias declararam por eles o seu «arrependimento»,
mas também como espécie de sinal de «conciliação nacional» imposto por países
estrangeiros depois da II Grande Guerra (1939-45), o Vale dos Caídos foi
concebido por Franco para sua própria glorificação como vencedor e em honra dos
combatentes falangistas.
Na sua
concepção e arquitectura e na estética das obras de arte que alberga, assim
como no significado que encerra, o Vale dos Caídos – aliás construído com base
na mão-de-obra escrava de milhares de combatentes republicanos, comunistas e
outros democratas vencidos e encarcerados – representa uma ofensa à memória de todos
quantos lutaram e derramaram o seu sangue por uma Espanha livre, justa,
fraterna e em paz e a todos quantos continuam ainda a bater-se na defesa dos
valores da liberdade, da igualdade, do progresso e convivência pacífica entre
os povos.
Por muito
que tentem reduzi-lo a um local de interesse meramente turístico, o Vale dos
Caídos adquire especial importância nesta altura.
Por um
lado, porque o tema do seu significado intrínseco regressou recentemente à
ordem do dia em Espanha, com a decisão parlamentar de exumar Francisco Franco e
José Antonio Primo de Rivera, fundador do partido Falange Espanhola e do
fascismo espanhol, em torno do qual se juntaram as forças que derrubaram pela
força e com o sinistro apoio nazi a II República Espanhola.
Por outro,
porque convoca a necessidade de uma reflexão sobre os intelectuais e a paz, bem
a propósito de um interessante debate promovido no passado dia 8 pelo Conselho
Português para a Paz e a Cooperação (CPPC) e a Organização da Bienal
Internacional de Arte Gaia 2017[1].
Uma
primeira abordagem poderia tratar dos limites éticos e de consciência moral que
os artistas certamente enfrentam, quando se questionam sobre ao serviço de quem
e de que causas e objectivos empregam as suas capacidades e o seu engenho
criador, ou mesmo que ditames subjugam a sua liberdade.
Uma
segunda poderia questionar de um modo muito particular os jornalistas e o
jornalismo, designadamente sobre os inevitáveis embaraços deontológicos –
entendida e deontologia, precisamente, como a ética dos deveres – quando o seu
ofício de informar é, ou pode ser, traído pela instrumentalização e pela
manipulação da palavra; ou, sobretudo, quando é capturado por interesses e
agendas de interesses obscuros.
Uns e
outros só podem estar ao serviço do bem comum, do progresso, do bem-estar
espiritual e material, da felicidade do homem e da Humanidade, sendo de esperar
deles um compromisso indeclinável com a paz e o respeito pela autodeterminação
dos povos e o direito à plena soberania das nações.
Tantos
anos volvidos sobre o fim da II Grande Guerra (aconteceu há 72 anos) e o longo
e sinistro rasto de destruição e morte que deixou no Mundo, é hoje impossível
ignorar os sinais dramáticos de uma perigosa escalada na retórica belicista,
nas suas diversas expressões, especialmente a partir do Imperialismo e dos
Estados Unidos da América, a par de uma preocupante corrida armamentista, não
só em termos de armas convencionais, mas sobretudo de arsenal nuclear, com o
aumento extraordinário da capacidade de propulsão dos engenhos de morte massiva.
Nove
países – com os Estados Unidos na dianteira – possuem, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, cerca de 15 mil ogivas nucleares, muitas
vezes mais potentes do que as bombas de Hiroxima (6 de Agosto de 1945; 145 mil mortos)
ou de Nagazaki (três dias depois; 78 mil mortos).
Muitas
delas estão carregadas, ou prontas a embarcar em mísseis balísticos
intercontinentais capazes de atingir distâncias até cinco mil, oito mil ou
mesmo mais de dez mil quilómetros.
Cinco
outros países não são os donos delas, mas têm estacionadas nos seus territórios
armas nucleares ao abrigo dos programas de «cooperação» militar e estratégicos
da NATO – incluindo a Turquia, nas proximidades da Síria, numa região do globo
especialmente sensível.
Outros 23
outros países – incluindo Portugal – mantêm alianças «nucleares» com os Estados
Unidos e/ou a NATO e podem, a qualquer momento, ter em trânsito armas
nucleares, seja no contexto de navegação de «rotina» nos mares e ar nacionais,
seja no quadro de manobras ou mesmo de eventual ofensiva em regiões já em
tensão aberta, como é o caso da Península da Coreia, ou em tensão crescente, no
Leste da Europa, onde dizem que cresce a «ameaça russa».
Essa
retórica belicista justifica-se claramente pelo afã do domínio imperialista,
mas também pela abundância de lucros crescentes a que aspira o complexo militar
industrial dos países grandes produtores e exportadores de armas, que explicam
as razões pelas quais os Estados Unidos mantêm alta a «parada» na Península
Coreana, em tão perigosa tensão.
Ao continuar
a rejeitar, ostensiva e altivamente, a proposta sino-russa de um roteiro de paz
e diálogo assente na suspensão dos testes balísticos e nucleares da Coreia do
Norte, por um lado, e das manobras militares dos Estados Unidos e da Coreia do
Sul, por outro, com o objectivo de desnuclearizar a região e baixar a
temperatura da confrontação, Washington está bem ciente dos proventos que vai
facturando.
De facto,
os Estados Unidos são o maior exportador de armas, com nada menos de um terço
do bolo deste comércio em todo o mundo, com quase dez mil milhões de dólares
facturados no ano passado, só à sua conta.
Não admira
que países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, a Coreia do Sul e
a Turquia estejam entre os países que mais armas importam, nem que o presidente
Donald Trump esteja a pressionar cada vez mais os seus seguidores na NATO a
aumentar as respectivas despesas militares em pelo menos 2% do Produto Interno
Bruto nacional. Note-se que meia centena de países gasta em defesa 2% ou mais do
seu PIB e alguns bem acima.
Apesar da
suas obrigações, designadamente no âmbito do Tratado de Não Proliferação de
armas nucleares (1968) e do Tratado Estratégico de Redução de Armas com a
Rússia (2010), os EUA, estão a «reduzir» o seu arsenal em número de ogivas, mas
enveredaram por um perigoso programa de modernização, ainda no mandato de
Barack Obama, de 400 mil milhões de dólares entre 2017 e 2026, que não ficará
por aqui.
De facto,
com a sua fanfarronice bem conhecida, o sucessor de Obama na Casa Branca
gabou-se, há poucas semanas, de que tinha «dado ordens» para tornar o programa
nuclear militar norte-americano ainda «mais moderno e mais forte», e não se
cansa de ameaçar usar todos os meios – contra a Coreia, mas também noutras
latitudes.
Muitas
pessoas estranham o que parece ser uma estranha obsessão dos jornalistas por
números, designadamente quanto aos valores envolvidos nestas gigantescas
operações de intimidação e especialmente quanto ao aprovisionamento, produção e
comércio «estratégico» de armas.
Alguns
textos mais ou menos «especializados» em temas de defesa, em geral, e em
indústria de defesa, em particular, parece revelarem uma estranha frieza e uma objectividade desumanizada, rendidos à
linguagem neutra – dizem… – da Economia e indiferentes ao sofrimento causado ou
potencial.
É possível
que assim seja nalguns casos, mas também devemos reconhecer que são frequentes
as abordagens jornalísticas sustentadas em números absolutos ou dados
estatísticos que apontam o dedo ao problema da proliferação de armas, à corrida
armamentista e à resistência suicida à abolição das armas de destruição maciça
e especialmente das armas nucleares.
De facto,
não devemos ignorar – e muito menos excluir – o valor intrínseco dessa
informação se podemos usá-la ao serviço da tomada de consciência e da promoção
de olhares mais informados sobre o problema e transformar os dados sobre gastos
com armamento em unidades de medida de inviabilização da felicidade humana.
Por
exemplo: quantas vacinas para muitas doenças ainda letais, quantos livros,
quantas pinturas ou esculturas, quantas escolas, quantas bibliotecas e quantos
teatros ou museus, quantos hospitais vale uma bomba?
É seguro, citando
o ex-vice-secretário-geral das Nações Unidas Jan Eliasson, que «não há mãos certas para armas erradas», mas talvez seja bem mais provável que uma notícia «errada»
possa ser revertida e servir causas certas.
[1]
O presente artigo retoma, adaptando-a, parte da comunicação inicial do autor no
debate, sob o tema «Artistas pela Paz», bem como notas resultantes da rica troca
de impressões com o público.
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Causas,
Jornalismo
terça-feira, 5 de setembro de 2017
A Autoeuropa e o fervor anti-sindical
A última semana foi marcada pela greve dos trabalhadores da
Autoeuropa, que os órgãos de comunicação social não se cansaram de rotular
«histórica», mas não necessariamente pelas melhores razões segundo a leitura
prevalecente nos próprios media.
Foi uma greve tão histórica que pelo menos dois jornais[1]
guindaram a «figura da semana», não o líder sindical ou a organização sindical
que conduziu a importante jornada de luta, mas, de forma exaltante, nada menos
que a pessoa – o antigo coordenador da Comissão de Trabalhadores – que mais se
destacou no ataque ostensivo e ofensivo aos sindicatos e aos próprios
trabalhadores que massivamente votaram e cumpriram a greve.
Com o fervor anti-sindical dos editocratas e para gáudio dos
patrões[2],
que vêem reflorescer o divisionismo entre os trabalhadores, os media, que abandonaram há quase três
décadas a «rotina» informativa sobre trabalho e sindicalismo, mostraram sem
pudor o lado obscuro da captura do campo jornalístico pelos interesses do
capital.
Mário Soares teve a ambição de «partir a espinha à
Intersindical», mas não o conseguiu, nem com a central sindical fabricada com
conluio com Sá Carneiro. Revisitando o que se leu, ouviu e viu nos meios de
informação em relação à luta dos trabalhadores da Autoeuropa – na senda, de
resto, do comportamento em relação a outras lutas –, apetece perguntar se os media se assumem os herdeiros dessa
missão.
O que é patente é que, sem a mínima prudência no resguardo
de imparcialidade que deveriam seguir, os órgãos de informação que se reclamam
independentes tomaram partido por um dos lados, numa ressonância pública e
impúdica das campainhas de alarme dos interesses patronais que retiniram com
fragor nas redacções.
Uma análise, mesmo não exaustiva, ao conteúdo da «cobertura»
jornalística da jornada, tanto na sua preparação desde o início de Agosto como
no próprio dia e nos dias seguintes, evidencia oito linhas-força, ou
ideias-chave, da narrativa patronal e do divisionismo, à qual os meios de
informação deram enfático destaque.
Em muitos casos, fizeram-no com abundância e sobrevalorização
de pormenores, designadamente as «contrapartidas» da empresa, que os
mal-agradecidos trabalhadores parecem recusarem, como se tivessem ensandecido,
para escândalo de editorialistas, patrões e dirigentes do CDS, do PSD e… de
outros partidos que se dizem de esquerda.
Ei-las:
Primeira – Portugal necessita absolutamente da Autoeuropa e
do reforço da sua capacidade produtiva, pois a empresa, com um volume de
negócios anual de 1,5 milhões de euros[3],
representa 4% das nossas exportações[4]
e 1% do PIB[5].
Segunda – Essa necessidade justifica e legitima alterações
gravosas aos horários de trabalho, com a imposição de trabalho ao sábado, que
passa a ser dia “normal”, e a diminuição da retribuição do trabalho suplementar,
que na realidade passa a ser pago com bonificações que, evidentemente, os
trabalhadores deveriam aceitar[6].
Terceira – A Comissão de Trabalhadores estabeleceu um
pré-acordo com a Administração da Empresa, mas os trabalhadores, acometidos por
uma súbita irresponsabilidade colectiva, decidiram causar danos muito sérios à
“paz social” que reinou, praticamente incólume, durante mais de duas décadas na
empresa, rejeitando o texto com 74,6% dos resultados de uma consulta directa e
por voto secreto.
Quarta – Isso aconteceu porque os trabalhadores foram
instrumentalizados «por quatro ou cinco populistas»[7]
do sindicato «afecto à CGTP» e desautorizaram a Comissão de Trabalhadores, que
se demitiu em consequência dos resultados da consulta[8].
Quinta – O sindicato, que pelos vistos não metia prego nem
estopa na Autoeuropa, está a «preencher o vazio deixado pela demissão» da CT,
ameaçando a obra de paz social e obtendo um «protagonismo» ilegítimo, pois a
Administração só negoceia com a dita comissão[9].
Sexta – O sindicato carece de legitimidade não só para
conduzir a luta, mas também para representar os trabalhadores, apesar a confirmação
da rejeição do pré-acordo entre a CT e a administração e da greve do dia 30,
bem como o mandato para que represente os trabalhadores em reunião urgente com
a Administração ter sido sufragada em plenário com mais de três mil
trabalhadores, com apenas sete abstenções e um voto contra[10].
Sétima – Se a administração da empresa «não conseguir
convencer os trabalhadores»[11],
o mais certo, numa linha de pura chantagem, é deslocalizar a produção do novo
modelo da Wolkswagen para outro país, como acontecera, alega-se, com a fábrica
da Opel na Azambuja.
Oitava – Tudo o que doravante acontecer de mau será culpa dos
sindicatos[12].
Em contrapartida, aspectos essenciais foram claramente
subvalorizados, desvalorizados e até escamoteados, designadamente o direito ao
descanso, à saúde e às relações sociais e familiares, o valor efectivamente
baixo da retribuição do trabalho suplementar, o risco de retrocesso de
direitos, incluindo, de futuro, o de descanso ao domingo, bem como a obrigação
da empresa de respeitar os seus compromissos com o estado Português[13],
que a tem apoiado.
Mas isso, face aos sacrossantos interesses do capital, são minudências
informativas pouco relevantes…
[1] Sol (suplemento B.I.) e Público, edições
de 2 de Setembro
[2] Veja-se,
entre outros materiais, a entrevista – mais uma! – do presidente da CIP ao Expresso (edição de 2 2 de Setembro): «O
que se passa na Autoeuropa é uma luta por poder sindical, adulterando um activo
enorme que é a estabilidade social da empresa».
[3] Expresso, 2 de Setembro
[4] Público, 29 de Agosto e 2 de Setembro
[5] Diário de Notícias, 29 de Setembro
[6]
Pormenores sobre esta contrapartida encontram-se na generalidade dos meios de
informação, incluindo em editoriais e artigos de opinião, valorizando a generosidade da empresa. Só falta
sugerirem que, tendo em conta a importância estratégica da Autoeuropa, não
viria mal ao mundo se os trabalhadores vendessem também o domingo…
[7] António
Chora, entrevista, aliás carregada de insultos, incluindo à inteligência e à
autonomia dos trabalhadores, ao Jornal de
Negócios, 30 de Agosto
[8] É
curioso que nenhum órgão de informação, que se tenha presente, tenha perguntado
à Comissão de Trabalhadores por que razões não acatou a decisão democrática,
aliás tão esmagadora, dos trabalhadores.
[9] Veja-se,
entre outras muitas outras peças, que incensam o «papel único» da CT, numa
espécie de sindicalismo de substituição, isto é, arredando para fora da empresa
os sindicatos e pondo-a a negociar matérias da competência legal dos sindicatos,
a já referida entrevista de Chora ao «Negócios» e a curiosa chamada a toda a
largura da primeira página do i de 30
de Agosto: «Trabalhadores das empresas fornecedoras da Autoeuropa estão contra
a greve». Dentro, o jornal destaca que empresas fornecedoras e a comissão
coordenadora das comissões de trabalhadores do Parque Industrial de Palmela
insurgem-se contra a «o protagonismo dos sindicatos». Esquece-se apenas de
referir que a posição da referida «coordenadora» data de 27 dias antes e que já
não era propriamente novidade…
[10] Público, 29 de Agosto
[11] Diário de Notícias, 29 de Agosto
[12]
Veja-se, entre outras peças, escamoteando que a deslocalização da fábrica da
Opel estava há muito decidida, a entrevista de Chora já referida, o parágrafo
final do editorial do Diário de Notícias
de 30 de Agosto: «Em 22 anos, só duas greves gerais beliscaram a paz social na
Autoeuropa. Essa tradição parece ter os dias contados e, perante a manobra do
poder dos sindicatos nas últimas semanas, só resta esperar que os mais de 3300
trabalhadores da Autoeuropa não acabem estes dias carregados de direitos e sem
fábrica para trabalhar».
[13] Como
alerta, em rara referência, o dirigente do SITE Sul, Público, 29 de Agosto
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