A Direcção do Sindicato dos Jornalistas apelou hoje à participação dos jornalistas nas manifestações contra o empobrecimento e as injustiças convocadas para o próximo sábado, dia 1 de Outubro, em Lisboa e Porto.
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Televisão: Ver, comentar, criticar, sugerir
Numa das suas participações de ontem, no debate em Rede sobre a RTP que a Fundação Francisco Manuel dos Santos está a realizar, Eduardo Cintra Torres contou ter perguntado, numa das suas turmas de Estudos de Televisão na Universidade Católica, quem costumava ver programas de televisão com outros membros da família, mas que ninguém levantou o braço, a não ser uma jovem (os seus alunos têm entre 19 e 23 anos) para inquirir se “o Natal conta para a resposta...”
Considero o episódio interessante e que vale a pena pensar nas conclusões a que Cintra Torres chega. Por mim, já lá escrevi o seguinte:
O episódio singular das aulas de Eduardo Cintra Torres ontem descrito mereceria uma reflexão mais ampla sobre problemáticas que, podendo até ser conexas desta nossa discussão, infelizmente não poderão contribuir para alargar demasiado o âmbito deste debate.
Sem querer formular juízos sobre o referido episódio e o seu contexto (social, cultural, económico…), permito-me observar que, quer constitua uma singularidade, quer reflicta uma generalização, não deixa de ser preocupante a conclusão que dele se poderia extrair: a inexistência de fruição em comum (portanto, na família, em diálogo e em discussão) de bens e serviços culturais, desde logo a televisão.
A ser verdadeira (enfim, muitas famílias que conheço não são assim), tal inexistência diria muito sobre as profundas transformações na Sociedade e a sobre a saúde das famílias. Para o que interessa a este debate, tornaria o problema da fruição partilhada de televisão – especulo agora – “apenas” num resultado susceptível de constituir uma referência, uma pista, uma inspiração para produtores, programadores e distribuidores de conteúdos. Nesse sentido, há que pensar na conclusão a que Cintra Torres chega quanto às estratégias de oferta de conteúdos.
Como contribuição, respigo alguns resultados de um importante trabalho realizado em 2007 por uma vasta equipa de investigadores de várias escolas universitárias e politécnicas, liderada por José Rebelo (ISCTE) – “Estudo de Recepção dos Meios de Comunicação Social (ERC, 2008):
- Sobre a justificação da existência de serviço público de televisão, a maioria dos inquiridos (amostra de 2.205 entrevistas), pronunciou-se sempre favoravelmente, quer na sua estratificação segundo a escolarização (entre 59,1%, nos inquiridos até quatro anos de escolaridade, e 72,6% daqueles que tinham mais de 12 anos), quer segundo a idade (59,9% bo grupo até aos 30 anos e 65,8% no grupo 31-50 anos) , ou o género.
- Embora fosse a menos preferida (a primeira era a TVI, depois a SIC), a RTP1 era o canal considerado mais credível em todos os graus de escolaridade, todas as idades e ambos os géneros.
- Independentemente dos canais e dos programas da sua preferência (a informação é de longe o tipo de programa preferido), os telespectadores “não discutem, ou pouco discutem, o que vêem”, e “estranha-se, em particular, o alheamento, a esse respeito, dos que possuem formação superior”.
- De facto, apenas 19% dos inquiridos com mais de 12 anos de escolaridade discutem frequentemente programas com familiares, amigos ou colegas (a percentagem maior pertence ao grupo de indivíduos com cinco a nove anos de escolaridade).
- Por idades, as percentagens dos que o fazem é de 41,9% no grupo até aos 30 anos, 41% no grupo 31-50 anos e de 14,1% no grupo 51-64 anos.
- Quanto às contribuições com críticas e sugestões para melhorar a televisão, mais programas educativos e culturais, mais documentários, filmes e séries de qualidade representaram 30% do total da amostra, sendo sempre muito significativa a participação de inquiridos até aos 30 anos, 47,4% dos quais reclamaram mais programas de qualidade em horário nobre.
- Ainda no capítulo das contribuições para melhorar a televisão, contrariamente às expectativas dos investigadores, a percentagem de respostas de indivíduos com formação superior foi de apenas 12%. Analisando-se as sugestões por anos de escolaridade, verifica-se, por exemplo, que este grupo está pouco receptivo à produção portuguesa (apenas 1,9% a sugerem), é o que menos pede que se reduzam as repetições de filmes, séries, etc. (5,4%) e é o que menos pede mais programas de qualidade em horário nobre (7,1%).
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011
O fim da taluda meritocrática escolar
O ministro da Educação bem pode esfalfar-se a explicar que, no lamentável episódio dos cheques-prémio para os melhores alunos das escolas secundárias, houve "um problema de comunicação", pois, argumenta, já no dia 13 de Setembro o ME tinha comunicado às escolas que, afinal, a taluda meritocrática instituída pela penúltima ministra não seria entregue.
Mesmo admitindo que algumas escolas se desleixaram e não comunicaram atempadamente (?!) a abolição do cobiçado galardão de 500 euros que deveria ser entregue depois de amanhã, sempre se há-de concordar que mais semana menos semana de aviso não contam para um campeonato que - salvo erro - o presidente da associação de directores de escolas explicou esta manhã (ouvi-o na Antena 2), de forma muito simples e directa, ser o das expectativas dos alunos (legitimamente constituídas há muito) no referido prémio e da credibilidade das instituições.
Dito de outro modo: quaisquer que sejam as razões da desistência do ofertante - e já lá irei - simplesmente não é bonito, é aliás muito feio, dizer que afinal não se dá o rebuçado prometido. Mostra que os homens políticos dão afinal pouco ou nenhum valor à palavra dada - e, quer concorde quer não concorde, para a entrega deste ano, a palavra já estava dada.
E quanto às razões de desistência do ofertante: não tenho dúvida de que um tal prémio suscita pelo menos muitas dúvidas, valendo pouco a minha opinião de que ele simplesmente não faz sentido, mas teria sido bom que o ministro tivesse explicado melhor as suas razões. E, simplesmente, não o fez.
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terça-feira, 27 de setembro de 2011
O potencial da RTP e o precioso filão nacional por explorar
Tendo-me alongado na participação anterior, no debate a RTP que o sítio da Fundação Francisco Manuel dos Santos está a promover, não aflorei sequer algumas questões pertinentes tratadas pelos meus ilustres colegas e pelo magnífico moderador deste debate. É o que tento fazer agora.
Atalho de imediato para a matéria que parece corresponder a uma urgência do Governo (em rigor, do PSD, mas do Governo por mera solidariedade intra-coligação) que é a privatização de um canal da RTP (e outro da RDP, não esqueçamos), para concordar com Pedro Norton na conclusão de que não há espaço para mais um operador privado de televisão.
Mesmo quem não tem acesso às contas mais miúdas das empresas e às tabelas reais de publicidade praticadas pelos operadores de televisão, “percebe-se” quão violenta está sendo a disputa do magro bolo publicitário, não só entre eles, mas também entre o segmento televisão e outros – imprensa em particular.
E não é uma questão de mera percepção ao alcance dos cidadãos. Ainda há menos de duas semanas, foi tornado público o Relatório da Regulação do sector relativo a 2010, em cuja introdução o presidente do Conselho Regulador da ERC, Azeredo Lopes, escrevia:
“A tendência actual para a prática de taxas de descontos inimagináveis (…) vai, obrigatoriamente, fazer com que a concorrência pela publicidade (que cada vez mais parece a peau de chagrin de que falava um autor) seja cada vez mais agressiva. Para dar um exemplo concreto, e como descrição mais precisa do fenómeno, foram reportados e demonstrados perante o regulador situações em que um operador generalista cobrava um preço tal por spot que, pura e simplesmente, concorria, directamente, com um determinado jornal local”.
E passo à seguinte – a alegação de Eduardo Cintra Torres segundo a qual “cresce o número de pessoas que considera a RTP inútil, que não se revê nela, que defende a sua extinção”.
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Sobre a definição de serviço público de televisão
Compreende-se a inquietação dos cidadãos perante a (aparente) inexistência de uma definição de serviço público de televisão, pelo menos tão perceptível, tão tangível e tão mensurável como as relativas a outros serviços públicos.
Se usarmos o exemplo dos serviços de águas invocado hoje por Eduardo Cintra Torres, no debate a RTP que o sítio da Fundação Francisco Manuel dos Santos está a promover, fica muito clara para o comum dos cidadãos a relação entre os preços e as taxas que estes pagam e a quantidade e a qualidade do bem que lhe é fornecido – a água de abastecimento – e do serviço que lhe é prestado com a drenagem das águas residuais.
No entanto, nem todos têm a preocupação de informar-se sobre dados essenciais à formação de uma cidadania informada e esclarecida, como: (i) os níveis de atendimento, isto é, a percentagem de população servida; (ii) os parâmetros da qualidade da água de abastecimento na rede; (iii) os níveis de tratamento das águas residuais; (iv) a qualidade do meio hídrico receptor das águas residuais tratadas; (v) os níveis de eficiência dos sistemas (custos na origem vs. taxas de perdas e desperdícios vs. encargos para o consumidor; (vi) e etc., etc….
Detive-me deliberadamente naquelas variáveis para chamar a atenção, por analogia – se a analogia pode ser consentida aqui –, para as dimensões tantas vezes intangíveis de uma apreciação (e de uma valoração!) dos bens e serviços de natureza pública colocados à nossa disposição como decorrência da nossa condição cidadã: o Estado tem obrigação de suprir as nossas necessidades de água, não apenas com um abastecimento em quantidade e qualidade adequadas, mas também prevenindo os efeitos nefastos para o meio ambiente (sobre-exploração na origem e poluição do meio receptor).
O moderador teve a gentileza de deixar-me o desafio de enunciar, “em termos concretos, o que entendo por serviço público”, nomeadamente de televisão.
Creio que a própria Lei da Televisão apropria e densifica o que me parece corresponder a um largo consenso sobre conceito de serviço público de televisão e que o legislador tem tido o cuidado de estabelecer a diferença entre dois patamares distintos:
a) Por um lado, estabelece os “fins da actividade de televisão” (Art.º 9-º), isto é, para todos os operadores – portanto, público e privados;
b) Por outro lado, fixa muito concretamente as “obrigações específicas” da concessionária de serviço público (Art.º 51-º).
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
RTP: pública ou privada? Pública, obviamente!
Está a decorrer, até ao dia 10 de Outubro, no sítio da Fundação Francisco Manuel dos Santos, um debate em linha sobre a privatização da RTP, no qual participo como convidado. O pretexto é o mais recente livro de Eduardo Cintra Torres - "A Televisão e o Serviço Público" - editado na colecção de ensaios da FFMS. O autor é aliás o convidado principal da iniciativa, na qual participa também o administrador do grupo Impresa Pedro Norton. Escuso de esclarecer que a resposta à pergunta "RTP: pública ou privada?" é, obviamente: pública!
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Já um requiem pelo Poder Local democrático...
O Governo apresentou o seu "Documento Verde da Reforma da Administração Local", através do qual prepara o fim do Poder Local democrático como o conhecemos, que o Partido Socialista já saudou, segundo as edições em linha dos órgãos de comunicação social (reacção indisponível, às 23 horas, no sítio do PS), enquanto o Partido Comunista Português já condenou "o livro negro de subversão". Também aqui o Bloco Central funciona. Por enquanto. Vamos ver o debate que nos está reservado pelo país real fora nos próximos meses...
Recado da senhora Merkel sobre a soberania perdida
A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, defende sanções para os países que não cumpram os critérios de estabilidade. Entre essas sanções, estaria a perda de soberania. Então já não a tínhamos perdidos?
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domingo, 25 de setembro de 2011
Do acto profundamente político do patriarca católico de Lisboa
Quando o cidadão José da Cruz Policarpo diz, como cardeal patriarca de Lisboa da Igreja Católica, que "o ministério dos bispos é de uma ordem que pode ficar prejudicado se nos metermos na política directa como ela é feita hoje, em que ninguém sai de lá com as mãos limpas" está a praticar um acto profundamente político e não pode ignorar os efeitos desta afirmação.
Quando responde, na entrevista publicada hoje no JN, que não responde à pergunta (de Alexandra Serôdio) sobre se queria comentar as políticas sociais deste Governo, alegando que responder seria "política directa", mas logo acrescenta, referindo-se à intervenção da Tróica, que "o protocolo internacional é para cumprir", está a dar aos cidadãos (católicos ou não) uma indicação muito clara de submissão à intervenção estrangeira.
Mas está a ir mais longe, numa posição, profunda e directamente política, que, se não tem essa intenção (lá saberá o prelado o que pretende...), produz o inegável resultado da persuasão (política e psicológica) quanto à inevitabilidade das malfeitorias das tróicas nacional e estrangeira e do Governo. Citemos:
"Se as medidas tomadas são mais justas ou não, nem as analisei... Elas, em grande parte, são o cumprimento de um protocolo que podemos discutir, mas é o que é. (...) Eu não sei dizer se, para a maior parte dos problemas, há mais do que uma solução. Não sei dizer. Desconfio que não há."
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sábado, 24 de setembro de 2011
Uma boa notícia
O semanário "Expresso" noticia hoje que a Polícia Judiciária apanhou a "toupeira" do Serviço de Informações Estratégias de de Defesa (SIED) na operadora de telecomunicações Optimus que teria vasculhado ilicitamente as comunicações do jornalista Nuno Simas. Para já, é uma boa notícia. Aguardemos...
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Com falinhas mansas e modos suaves
Com falinhas mansas, sorrisos e modos suaves, um dos mandatários da Tróica e do patronato nas vestes de ministro da Economia bem tem repetido aos jornalistas que a profunda e gravíssima reforma da lei laboral é apenas "uma pequena parte" da grande reforma económica. Porém, a evidência não engana: o que o Governo prepara é a absoluta liberalização dos despedimentos.
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sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Ora essa!
Afinal, ser funcionário público não é um privilégio. Vem o Tribunal Constitucional dizer (por maioria, com três votos de vencido, com declarações de voto a ler com atenção) que "quem recebe por verbas públicas não está em posição de igualdade com os restantes cidadãos", já que está vinculado "à prossecução do interesse público"...
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quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Justiça de classe
Está anunciado: a ministra da Justiça propõe-se perdoar as custas a quem desista do processo em tribunal. Vai escrito sem ponto de exclamação porque, pelos vistos, tendemos a achar normais dislates e violências deste tipo.
A medida não é apenas economicista: é profundamente reaccionária e traduz uma atitude muito grave face a um direito fundamental dos cidadãos – o de encontrar a paz jurídica, ou também a paz social, que é o que espera quem demanda ou quem é demandado num tribunal.
Trata-se, já se sabia, de um direito cada vez menos ao alcance dos cidadãos, pois a Justiça é cara, muito cara, até para a assim chamada classe média. Basta ver o valor das custas, para não falar dos honorários do advogado. Manter uma querela é um luxo acessível a quem tem muito dinheiro. Pelos vistos, a ministra quer reservar a Justiça para quem o tem.
A principal perversidade da anunciada medida está no incentivo à renúncia à Justiça, através de uma figura – a desistência – que deveria fazer arrepiar os profissionais do foro e os actores políticos, pela ambiguidade do seu significado em cada circunstância, pela imagem que projecta do autor ou do arguido, independentemente de quem propõe e de quem aceita a desistência, e pelo aprofundamento da convicção da falência da Justiça que a solução gera junto dos cidadãos.
O problema da projecção da imagem das partes no processo, especialmente do arguido, não é de somenos importância.
Imaginemos que A, pessoa pacata, com a vida arrumadinha e com rendimentos aceitáveis mas à justa para os encargos com a família e esganando o orçamento para suportar custas, honorários de advogado, etc., está acusado da prática de certo crime por B, pessoa com proventos superiores – por vezes muito superiores – disposta gastar o que for preciso para levar o pleito até à derradeira instância.
A dada altura, continuemos aqui a imaginar, surge – não importa a origem nem a motivação – a hipótese de um acordo que poderá fazer extinguir o processo, tentação eventual para A, porque pode aliviar a pressão sobre a vida pessoal, familiar e profissional e suspender os encargos com o processo.
A tentação será grande, mas, cedendo-lhe, A ficará sempre com a impressão (ou um dia há-de ser tentado a pensá-lo) de que o acordo não foi afinal tão honroso como esperava. Sobretudo, jamais poderá gritar a plenos pulmões: “eu estava acusado deste ou daquele crime e os tribunais não me deram como culpado!” Porque, por mais ou menos discreto que seja o processo, alguém sabia dele e a sombra de que “algo” ficou por esclarecer há-de pairar muitos anos sobre o seu amor-próprio.
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Plano de reestruturação da RTP ferido de ilegalidade - acusa SJ
O Sindicato dos Jornalistas (SJ) acusa a RTP de violar a lei, com a cumplicidade do Governo, por ter excluído a Comissão de Trabalhadores do processo de reestruturação da empresa entregue ao Governo no dia 20.
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Violência estatal num Estado neo-liberal
O paradigma liberal valoriza os direitos individuais e resiste à intervenção estatal - em nome do colectivo esmagador.
Pois bem, com o anúncio de mais uma violência do Governo, em nome do Estado, cuja consiste em alargar o conceito de justa causa de despedimento ao alegado incumprimento de objectivos, sempre gostava de saber onde vai parar a defesa liberal dos direitos individuais - ao trabalho, à dignidade pessoal e profissional, à defesa contra o arbítrio, por aí fora...
Em argumentando-se com o cumprimento de objectivos, chamo desde já a atenção para os gravíssimos problemas de saúde pública que se agravarão com esta medida, se ela, por desgraça, passar. Sim, porque a saúde mental dos trabalhadores, quadros dirigentes incluídos - e de que maneira! - é um problema de saúde pública com gravíssimas repercussões na economia (sendo ela o fiel da balança vigente...).
Ou seja, escuso de argumentar com os velhos e ressabiados complexos de esquerda, com os direitos dos trabalhadores, etc., etc. É que basta ir fazendo contas!
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Júlio Resende (1917-2011)
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| Júlio Resende (foto obtida no Lugar do Desenho) |
O mestre Júlio Resende morreu hoje, aos 93 anos de idade, na sua casa em Valbom, Gondomar, separada do Douro, o rio da sua cidade - o Porto - e da sua vida, por pouco mais que uma estrada, a estrada que passa quase rente à sua Ribeira Negra (1984).
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
Pode uma entrevista ser feita por amigo?
Problema prático de jornalismo, e não só...
A entrevista concedida, domingo, pelo ex-presidente do FMI Dominique Strauss-Kahn (DSK) ao canal francês TF1 colocou um problema prático de jornalismo muito interessante: pode um jornalista entrevistar um amigo?
O facto de a pivô do serviço noticioso que fez a entrevista, Claire Chazal ser amiga - pelo menos da mulher de DSK, segundo uns; do casal, segundo outros - está a lançar um curioso debate nos media franceses sobre o risco de a proximidade, ou a intimidade, entre entrevistador e entrevistado gerar um conflito de interesses.
Um dos aspectos a reter desse debate é a alegação, nomeadamente pelo sociólogo dos media Jean-Marie Charon, de que num órgão de informação anglo-saxónico esse risco seria previamente analisado e evitado.
Note-se que a entrevista, a primeira a uma televisão depois da eclosão do afair DSK, durante a qual o ex-"patrão" do FMI parece visar a redenção mediática ("... puso la cara del hombre inocente y perseguido al romper um silencio de cuatro meses", Miguel Mora, "El País", 19/09/2011) foi noticiada pela generalidade dos media de todo o Mundo como tendo sido conduzida por Fulana de Tal, amiga de. À guisa de declaração de interesses feita por terceiros...
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segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Direito a defesa
A querela entre o bastonário da Ordem dos Advogados e a ministra da Justiça sobre o pagamento das "oficiosas" é mais preocupante do que parece. É legítimo recear que também neste capítulo o Governo vai cortar a direito contra os do costume e que a consequência gravíssima seja a de tornar ainda mais difícil o acesso à Justiça e que o direito a ser representado por advogado independentemente da condição social e económica é cada vez mais letra morta.
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domingo, 18 de setembro de 2011
FW: Cavaleiros da Ordem do Infante Dom Henrique
Com a devida vénia, replico a transcrição de mensagem em correio electrónica que por aí corre:
Com este acrescento:Exmo. Sr. Presidente da República, Dr. Aníbal Cavaco Silva,
o meu nome é Catarina Patrício, sou licenciada em Pintura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, fiz Mestrado em Antropologia na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sou doutoranda em Ciências da Comunicação também pela FCSH-UNL, projecto de investigação "Dissuasão Visual: Arte, Cinema, Cronopolítica e Guerra em Directo" distinguido com uma bolsa de doutoramento individual da Fundação para a Ciência e Tecnologia. A convite do meu orientador, lecciono uma cadeira numa Universidade. Tenho 30 anos.Não sinto qualquer orgulho na selecção de futebol nacional. Não fiquei tão pouco impressionada... O futebol é o actual opium do povo que a política subrepticiamente procura sempre exponenciar. A atribuição da condecoração de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique a jogadores de futebol nada tem que ver com "a visão de mundo" (weltanschauung) que Aquele português tinha. A conquista do povo português não é no relvado. Sinto orgulho no meu percurso, tenho trabalhado muito e só agora vejo alguns resultados. Como é que acha que me sinto quando vejo condecorado um jogador de futebol? Depois de tanto trabalho e investimento financeiro em estudos?!! Absolutamente indignada.Sinto orgulho em muitos dos professores que tive, tanto no ensino secundário como no superior. Sinto orgulho em tantos pensadores e teóricos portugueses que Vossa Excelência deveria condecorar. Essas pessoas sim são brilhantes, são um bom exemplo para o país... fizeram-me e ainda fazem querer ser sempre melhor. Tenho orgulho nos meus jovens colegas de doutoramento pela sua persistência nos estudos, um caminho tortuoso cujos resultados jamais são imediatos, isto numa contemporaneidade que sublinha a imediaticidade. Tenho orgulho até em muitos dos meus alunos, que trabalham durante o dia e com afinco estudam à noite.... São tantos os portugueses a condecorar...e o Senhor Presidente da República condecorou com a distinção de Cavaleiro da Ordem do Infante Dom Henrique jogadores de futebol... e que alcançaram o segundo lugar... que exemplo são para a nação? Carros de luxo, vidas repletas de vaidades... que exemplo são?!Apresento-lhe os meus melhores cumprimentos,Catarina
Já agora, vale a pena ver o que é e a quem se destina a Ordem do Infante Dom Henrique:http://www.ordens.presidencia.pt/?idc=186 A futebolistas??!! Que, ainda por cima, mais não conseguiram que um segundo lugar?! Assim vai este País. Já os antigos Romanos promoviam a política "Panem et circenses". Com os resultados que são conhecidos.Por cá, como já vai faltando o pão, quanto mais circo melhor…Transcrevo:"A Ordem do Infante D. Henrique destina-se a distinguir quem houver prestado serviços relevantes a Portugal, no País e no estrangeiro, assim como serviços na expansão da cultura portuguesa ou para conhecimento de Portugal, da sua História e dos seus valores.O Grande-Colar da Ordem do Infante D. Henrique é o mais alto grau da Ordem e é concedido pelo Presidente da República a Chefes de Estado estrangeiros. O Grande-Colar pode ainda ser concedido pelo Presidente da República a antigos Chefes de Estado e a pessoas cujos feitos, de natureza extraordinária e especial relevância para Portugal, os tornem merecedores dessa distinção.".
Afinal, o défice é outro
Sim, há um défice enorme, maior do que o outro e aparentemente mais oculto do que o da Madeira: o de juízo crítico - na sociedade, nos media...
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sábado, 17 de setembro de 2011
Sobre a ERC
Está aqui uma síntese do que disse, ontem, na Comissão para a Ética, Sociedade e Comunicação da Assembleia da República, no âmbito das audições sobre avaliação do modelo de regulação do sector e o primeiro mandato do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.
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sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Extinguir, fundir, extinguir ou fundir...
Ainda não se sabe exactamente o que o Governo vai fazer, mas parece-me que esta provável demagogia pode sair muito cara à Nação.
Espero voltar ao assunto..
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Volta ao mundo de realidade climática
São 19 horas de 14 de Setembro na Cidade do México, México, 01h00 do dia 15 em Portugal continental. A volta ao Mundo da Realidade climática proposta pelo antigo vice-presidente norte-americano e Nobel da Paz, Al Gore, está a começar.
Até logo, à meia noite em Portugal continental, 19 horas em Nova Iorque, a iniciativa "24 Horas de Realidade" une 24 cidades em 24 zonas horárias com palestras e debates (além de 30 minutos de um novo vídeo de Gore) sobre os efeitos da crise climática sobre a qual há um largo consenso mundial mas uma acção insuficiente no concerto das nações. Há também negacionistas, mas também para eles o debate está aberto.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Xeque ao peão
Para que conste.
Este automóvel está estacionado a bloquear literalmente um passeio e nem a floreira lhe resistiu. E não, não é o único nestas condições - nem no Hospital de S. João, nem em muitos outros lugares do Porto e do país.
A indiferença pelos peões - que somos todos nós, não é?! - é tal que é frequente encontrar placas em zonas de obras pedindo "desculpas aos senhores automobilistas pelo incómodo" e mostrando o maior desprezo pelos que utilizam a via apeados.
Desculpem o desabafo, ok?
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Frase do dia
"Até admito que consiga acabar com o défice, corremos é o risco de acabar com o país"
Jerónimo de Sousa, dirigindo-se ao primeiro-ministro, esta tarde, na Assembleia da República (citado pela TVI em linha)
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terça-feira, 13 de setembro de 2011
Quem rouba também dá esmolas
Uma das notícias do dia anuncia que o "Estado vai gastar 30 milhões de euros" com a tarifa social de electricidade e de gás natural para os mais pobres. A medida ainda não está disponível sob a forma de diploma legal, mas dá para perceber o embuste da coisa. Na verdade, o Estado não vai gastar coisa nenhuma.
A coisa explica-se facilmente. A partir de 1 de Outubro, o IVA sobre a electricidade e o gás natural passa de 6% para 23%. Como dizia o outro, é só fazer as contas e concluir que o Governo faz um assalto colossal aos bolsos das famílias. A partir da mesma data, segundo a propaganda governamental, as famílias mais pobres terão um "desconto" de 6% na electricidade e 25% no gás natural.
A pergunta impõe-se, mas não vi ainda resposta (distracção minha!...): esse assim chamado desconto é para aplicar sobre o preço actual daqueles serviços ou sobre o preço brutalmente agravado pelo aumento do IVA? Qualquer que seja a resposta, não vejo, falho de competência como sou em matéria de finanças, como é que o Estado vai gastar, pois parece-me apenas que só vai deixar de arrecadar um pedacinho muito pequenino do roubo.
Parvos como andamos, ainda pensamos nos convencemos de que, assaltando-nos, nos dão alguma coisa. Ou, visto de outro ângulo, afinal quem rouba também dá esmolas.
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segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Explicações, procuram-se
Ainda que mal pergunte...
O secretário-geral do Partido Socialista mandou dizer que o anúncio, hoje, pelo Partido Social Democrata, de que o principal partido da maioria parlamentar e de governo não apresentará, nesta legislatura, uma proposta de revisão da Constituição, embora abra uma excepção para discutir a inclusão, na Lei Fundamental, de limites ao endividamento externo, é "uma grande vitória" do PS e dele próprio. Alguém conseguirá explicar:
a) Por que é que tal anúncio do PSD é uma vitória para o PS?
b) Se o PSD não voltará atrás nesta anúncio, como incumpriu outros anúncios e promessas?
c) Qual será o comportamento do PS na discussão da "excepção" matreiramente proclamada pelo PSD?
Agradecido.
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sábado, 10 de setembro de 2011
Sobre a contra-efemeridade da memória
O meu amigo Manuel tem uma forma estranha de ler os jornais: folheia-os, demora-se um pouco sobre aquilo que chama a sua atenção - um título, um lead, uma parte do texto captada de repente, uma legenda; se for o caso, pega no abre-cartas e destaca a página, dobra-a e coloca-a de lado; o que sobra dessa triagem vai direitinho para o saco destinado ao eco-ponto. Ainda hoje lhe perguntei se lerá tudo o que cortou. "Umas coisas sim, porque me interessam já; outras não, porque verificarei realmente não valerão a pena; outras, talvez um dia, se derem jeito", disse-me. E acrescentou: "Há quem pense que os jornais são produtos efémeros, porque já se esqueceu como se reúnem, ligam e interpretam memórias".
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quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Diversidade informativa
Uma amiga minha estranhou o facto de pelo menos dois acontecimentos de ontem - a audição do ministro da Saúde e a apresentação do chamado fundo de compensação para despedimentos - terem tido enfoques diferentes nos jornais. Respondi-lhe pedindo-lhe que não cedesse à tentação uniformizadora da informação: há demasiada gente a segui-la; e o povo necessita é de diversidade informativa. Como de pão para a boca.
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