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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O 25 de Novembro a Norte


Ocorreu-me um dia que, se tivesse de mudar de ofício, me seria muito agradável e gratificante tornar-me guardador de estátuas. Pensava, então, nas estátuas e bustos que conferem dimensão tangível à memória do mérito cultural, da generosidade cívica, da abnegação fraterna e do sacrifício sem limites, até da própria vida.

Sem grande esforço, poderia sugerir uma representativa galeria de obras que nos transportam muito para além do recorte físico e da textura dos materiais e nos conduzem ao significado das vidas e das personalidades perpetuado no espaço público.

Bem entendido, só poderia ser um guardador de estátuas virtuosas, e não das que atravessaram a noite de outros tempos, ou das que, pela calada da indiferença e da nossa desatenção, foram sendo plantadas de mansinho em praças e jardins, num cínico ajuste de contas, com beneplácito autárquico e condescendente branqueamento.

E muito menos das que, representando personagens de sinistra memória, em teimosia revanchista e contra o protesto popular, nos foram impostas.

É o caso da estátua do cónego Melo, colocada numa rotunda de Braga em 10 de Agosto de 2013, véspera do 38.º aniversário dos ataques às sedes do PCP, do MDP e da União dos Sindicatos de Braga, a 11 de Agosto de 1975.

Foi – e continua a ser – uma provocação e o cúmulo do branqueamento de uma figura consabidamente associada ao tenebroso MDLP e à onda de violência com que a extrema-direita procurou travar a marcha da Revolução, com recurso ao terrorismo bombista.

Com a agravante de ter sido caucionada pelo Partido Socialista, o único a aprovar a cedência municipal do espaço. Nem os vereadores do PSD, nem mesmo os do CDS acompanharam a então maioria autárquica.

Curiosamente o mesmo CDS que, alguns dias após a morte do famigerado clérigo, procurara fazer passar na Assembleia da República (sessão de 2 de Maio de 2008) um voto de pesar em cujo texto original constava este parágrafo:

“Em 1975, teve um papel decisivo na luta pela preservação das liberdades e pela instauração de uma democracia parlamentar”.

Para evitar o voto contra do PS – então com maioria absoluta – e permitir que a proposta passasse com a sua abstenção, embora quatro deputados socialistas viessem a votar a favor e muitos a ausentar durante a votação, foi acordada entre as duas bancadas a supressão de tão descarada provocação.

Acontece que, por lapso, presume-se que dos serviços da Assembleia da República, o que ainda hoje consta da acta da sessão[1] é a transcrição integral da primeira proposta, plasmando para a História em letra de forma a ilegítima condução do cónego Melo à galeria dos democratas.

Este incidente singular – e, suponho, desconhecido – no Diário da Assembleia da República talvez mostre como os acasos também entram na confecção desse manto espesso que vem recobrindo certas personagens, tecido de ocultações e de ambiguidades e legitimando a reabilitação cívica.

Por exemplo, Pires Veloso ganhou direito a busto recente na Praça da República, descerrado com abrilhantadora homenagem no Quartel-General da Região Militar Norte e presidida pelo ministro da Defesa, por ocasião do 40.º aniversário da sua tomada de posse como seu comandante, a 14 de Setembro de 1975.

Na base da peanha, na face lateral direita, aninhada rente à relva, pode ler-se numa placa envergonhada: Defensor da liberdade e democracia / Cognominado “O Vice-rei do Norte”.


Ocorrerem-me estes casos para deter-me num parágrafo amargo das “Palavras finais” deste magnífico livro – “O 25 de Novembro a Norte” – com que Jorge Sarabando nos leva de jornada pelo processo revolucionário no ano de 1975 até ao golpe militar.
Escreve ele:

“Beneficiando de cumplicidades no poder político emergente, tinham de livrar os bombistas da cadeia, arranjar destino para o exército de contratados que não puderam ‘ir buscar os comunistas à cama e liquidá-los’ ou meter os revolucionários  ‘no Estádio da Luz’, e arranjar para si próprios boas soluções de vida, o que não foi difícil”.                                

E, em nota, enuncia os exemplos da estátua do eclesiástico já atrás nomeado e do comandante do tenebroso MDLP, Alpoim Calvão, reintegrado na Marinha com direito a lançamento das cinzas fúnebres ao mar a partir de um vaso de guerra.

“Dias antes”, anota ainda, “tinha falecido o Almirante Vítor Crespo, militar de Abril e membro do Conselho da Revolução, e tão parcas foram as homenagens e esconsas as notícias da imprensa”.


O lançamento desta obra agora em segunda edição reveste uma especial importância, pela efeméride que assinala e pela extraordinária actualidade que algumas tensões desse período histórico readquirem no actual momento político, quando estão lançadas bases institucionais e políticas que possibilitem um decisivo virar de página.

Um vasto arsenal de argumentos, procurando contrariar tais possibilidades, e o recurso a insultos, nomeadamente contra o PCP, multiplica-se desde as hostes da Direita oficial e da Direita no PS, repercutindo-se, em muitos órgãos de comunicação social, num festim de adjectivos, afinado pelo diapasão da intolerância, em editoriais ressabiados, comentários, artigos de opinião e entrevistas que destilam ódios velhos e tresandam a ajustes de contas.

Como se fosse necessário, alguns cronistas e comentadores firmam em letra de forma a sua declaração de anticomunismo militante, a fim de manter vivo o fervor editorial por um modelo social, económico e político que ungiram como o único aceitável e brandindo fantasmas terríficos contra as alternativas de esquerda.

Dirigentes e outros intervenientes políticos, editorialistas, comentadores e entrevistados permanentes – dos dirigentes patronais e economistas de direita ao sociólogo-para-todo o serviço – em televisões, rádios e jornais de referência, regurgitam uma linguagem desbragada, carregada de fel e de chavões. É o PREC de novo, é o “Verão quente” outra vez – por aí fora…


O recurso a tais chavões insere-se numa prática continuada das evocações mal informadas, ou deliberadamente distorcidas, dessa fase dramática do processo revolucionário, como estratégia de diabolização e de segregação, uma espécie de anátema irrevogável muito suportada nas visões dominantes – ou o “discurso hegemónico”, para citar Jorge Sarabando – dos acontecimentos e nutrida num extenso pasto de preconceitos.

Daí a importância de obras à margem dos circuitos dominantes, como este “O 25 de Novembro a Norte”, e da decisiva contribuição que Sarabando coloca nas nossas mãos, justamente no ano em que se assinalam 40 anos sobre um período tão complexo e difícil.

Militante antifascista, comunista de longa data, cidadão generosamente empenhado na transformação social, discreto, de fala serena – com a serenidade clara de quem escuta para ouvir e observa mais do que fala, que facilmente se reconhece no tom e no estilo da obra –, Jorge Sarabando não é um narrador distante dos acontecimentos.

Na verdade, o autor viveu e testemunhou muitos dos acontecimentos e conviveu muitos anos com outras pessoas que também viveram esses e muitos outros. No entanto, não alardeia privilégios de memória e de experiência. Tão-pouco cede à tentação do discurso na primeira pessoa.

O que temos nas nossas mãos é o produto da inteligência do discreto observador participante e da laboriosa pesquisa que completa e aprofunda o estudo dos acontecimentos.

A jornada pelo processo revolucionário no ano de 1975, assim como a contextualização histórica, reflecte – é inegável – um olhar pessoal, mas suporta-se num vasto, diversificado, plural, sólido e contrastado conjunto de fontes – nada menos de 46 –, compulsando autores e obras de diferentes matizes e de muitos distintos engajamentos, entre os quais os testemunhos de destacados protagonistas, sob a forma de entrevista ou de registo autobiográfico.

O autor socorre-se igualmente de abundante informação coligida a partir de vários periódicos da época, destacando-se o extinto “O Comércio do Porto”, tendo mesmo consultado todas as edições deste diário, joeirando nele os factos relevantes para a sua narrativa e cotejando-os aqui e ali com outras fontes.

A opção por “O Comércio do Porto” como fonte de referência para muitos dos factos sobre os quais se constrói a evocação do período estudado constitui um dos aspectos interessantes da obra, pela abundância de elementos que nele colheu o autor e também pela transmutação editorial operada no periódico a partir de meados do ano.

Em plena “batalha da informação”, na conhecida expressão de Mário Soares, quer em torno dos casos “República” e Rádio Renascença, quer no ataque às orientações editoriais dos “jornais de Lisboa”, ao Rádio Clube Português, à Emissora Nacional, à RTP e à Rádio Renascença/Lisboa, a imprensa periódica portuense posicionava-se de distintas formas.

“Os jornais do Porto ficaram no limbo, mas o Comércio passaria a servir de porta-voz do MDLP, com articulistas de uma extrema virulência, como Fernando Barradas”, observa Jorge Sarabando (pág. 83), para recordar mais para diante que este jornal publicava a agenda semanal do brigadeiro Pires Veloso.

O certo é que “O Comércio do Porto” desempenhou um papel crucial na cobertura do terror bombista que varreu o Norte e também o centro do país a partir de Junho (embora com duas acções ainda em Maio) pelos operacionais do MDLP e do ELP.

Muito mais do que uma obrigatória tábua bibliográfica, que atesta a credibilidade da pesquisa e coloca ao alcance do leitor o escrutínio das informações carreadas para o livro, o manejo criterioso das fontes confirma o laborioso rigor empregue na sua elaboração.     

Com o corpus denso e sólido de fontes, e não obstante a leitura comprometida dos factos, sob um ponto de vista próprio ou mesmo de um lado da barricada (não é por acaso que o prefaciador, José Viale Moutinho, nos introduz à obra designando-a “livro-memória e bandeira”), é justo destacar a objectividade do estudo – não como mero ritual estratégico defensivo, pondo os factos a falar por si e dissimulando a subjectividade do autor, mas como condição para a procura da verdade.

Nesse sentido, assume particular relevo a estrutura expositiva dos acontecimentos, dos respectivos contextos, implicações e consequências que a obra segue, tanto na parte introdutória como nos sucessivos capítulos.

Num registo claro e informado, “O 25 de Novembro a Norte” (re)conduz-nos ao entusiasmo transformador do processo revolucionário entre as camadas populares, nas comissões de moradores, nas fábricas, nos campos, das lutas operárias, e da experiência democrática nas câmaras, sendo de destacar, no Porto, a criação do Conselho Municipal, que viria a ser, aliás, um alvo predilecto da contra-revolução.

Ao mesmo tempo, enquadra e esclarece a evolução dos ataques, por vezes violentos, às comissões administrativas da câmaras, dos entraves aos avanços políticos, os prenúncios e a consumação de retrocessos, das violências, ao mesmo tempo que vai dilucidando sobre os protagonistas e organizações, situando-os nos seus papéis, missões, propósitos, actos e omissões.

Com “O 25 de Novembro a Norte”, clarifica-se muito da trama complexa que foi criando dificuldades ao processo revolucionário; que peças se movimentaram e que responsabilidades históricas lhes cabem: de Spínola e Alpoim Calvão; de Mário Soares e Sá Carneiro e Freitas do Amaral; de Otelo, Vasco Lourenço e outros oficiais do 25 de Abril – e também dos que foram oficiais do 25 de Novembro – de Eurico Corvacho e Vasco Gonçalves e Costa Gomes; do PS e do então PPD e do CDS; do PCP e de vários outros partidos e formações

Mas Sarabando recorda como foram possíveis conquistas importantes, desde logo a Constituição da República, apesar do quadro extraordinariamente adverso e violento, e não obstante a “maioria democrática” proclamada pelo então presidente do CDS, Freitas do Amaral, já que o PS, o PPD e o CDS ocupavam, ao todo e por junto, 213 dos 250 lugares na Assembleia Constituinte. Cito, da página 76:

“E aqui encontramos uma das mais prodigiosas singularidades do Processos Revolucionário português, pouco abordada nas centenas de trabalhos académicos, jornalísticos, depoimentos, relatos biográficos que pudemos consultar. Enquanto nas ruas se desenrolava uma cruzada anticomunista, com o PS à frente, a acobertar toda a direita, enquanto se revelava a violência organizada dos saudosos do Império e da velha ordem, dispostos a tudo, enquanto os Países aliados da NATO exerciam as suas pressões económicas e militares, que Vasco Gonçalves e Costa Gomes se esforçavam por contrariar, a Constituição foi sendo escrita, e a Lei finalmente aprovada tornou-se a mais avançada da Europa”.

Dirigindo-se aos deputados constituintes no primeiro dia dos trabalhos[2], o Presidente da República, general Costa Gomes, avisou-os:

“É tarefa para génios gizar uma Constituição revolucionária, tão avançada que não seja ultrapassada, tão adequada que não seja flanqueada, tão inspirada que seja redentora, tão justa que seja digna dos trabalhadores de Portugal”.

Senhores deputados: em nome dos mais humildes, das classes mais desfavorecidas, que desejam, na luta do trabalho diário, o avanço da nossa revolução, vos peço que minimizeis os vossos interesses partidários, subordinando-os à consciência afinada pelos interesses maiores da Pátria e do povo de Portugal”.    

É importante sublinhar que os trabalhos da Assembleia Constituinte, que culminaram em 2 de Abril de 1976 com a votação global do articulado da Constituição, a leitura das declarações de voto dos partidos e a imediata promulgação pelo Presidente da República, se iniciaram a 2 de Junho de 1975, exactamente no mês que Sarabando fixa como aquele em que iniciou o “Verão Quente”.

Cumpriram-se, no passado Verão, exactamente 40 anos sobre esse período, efeméride redonda, propícia a evocações, e todavia tão mal recordada e até praticamente silenciada, a começar pelos meios de comunicação social – provavelmente por falta de memória ou de cultura histórica, por desinteresse, por má consciência, por falta de curiosidade e interesse por um período “mítico” tão frequente, mas tão desinformadamente, mencionado.

Note-se, seguindo Jorge Sarabando, que entre o primeiro acto terrorista da rede MDLP e grupos associados, em Maio de 1975, e o último em Abril de 1977, foram realizadas 566 acções violentas, destacando-se 310 atentados bombistas, 136 assaltos e 58 incêndios (pág. 74).

Só entre Julho e Novembro de 1975, em 85 dias “úteis”, isto é, de actividade terrorista no Norte e no Centro, registaram-se pelo menos 213 acções – se bem as contei – uma média de 2,5 por cada dia de operações.

O ponto máximo foi atingido no mês de Agosto, com 26 dias de actividade e mais de 83 acções – mais de três por dia – respondendo por pelo menos cinco mortos e inúmeros feridos.

Os alvos preferenciais eram as sedes e automóveis e residências de militantes de partidos de esquerda e de organizações sindicais. Só o PCP foi alvo 84 vezes, e nalguns casos repetidas, entre Junho e Dezembro de 1975. 

E, todavia, a Revolução movia-se. Nos campos, nas fábricas, nas associações de moradores, nos sindicatos, nos serviços, fazendo avançar também a frente legislativa, consolidando as conquistas populares, abrindo caminhos novos e criando as condições legais e materiais para transformar a sociedade.

Seguindo o enunciado de iniciativas legislativas ao longo deste livro e completando as pequenas lacunas com recurso à magnífica iniciativa editorial “Conquistas da Revolução”[3], encontramos pelo menos menos 65 durante o ano de 1975.

Entre muitas outras medidas, destacaria as destinadas a impedir a fuga de capitais e de valores do país; a proibição do despedimento sem justa causa; a criação do processo SAAL (de extraordinária importância para resolver os problemas da habitação, mas que também acabou à bomba); a criação do subsídio de desemprego; a Lei de Imprensa; a nacionalização da banca, dos seguros, dos transportes, da electricidade, da petroquímica e da siderurgia, da radiodifusão e da televisão, entre muitos sectores estratégicos para a economia; a criação do Provedor de Justiça; a instituição do salário mínimo nacional; o apoio ao cooperativismo; o direito ao divórcio nos casamentos católicos; o regime da Reforma Agrária e a legalização da ocupação de terras na sua Zona de Intervenção; e o regime da expropriação de prédios rústicos.

Ao mesmo tempo, nas empresas e em muitos sectores de actividade, os trabalhadores desenvolviam intensas lutas pela melhoria das suas condições, e em muitos casos tomaram nas suas mãos a condução dos destinos das fábricas abandonadas pelos patrões – um desafio extraordinário e complexo que veio a ser revertido, umas vezes à força, outras com a divisão dos próprios trabalhadores.

E mesmo assim, o país trabalhava e produzia. No final de Outubro, assinala Sarabando (pág. 123), um relatório do Instituto Nacional de Estatística publicado na imprensa é claro: há um “nítido aumento do nível de vida das populações”.

“É a luta de classes que nos ajuda a compreender a trama de um tempo tão dilacerado em que, apesar das divisões, se alcançaram conquistas que ainda hoje perduram”, reflecte o autor.

Ao deixar-nos, nas “Palavras finais”, o enunciado amargo dos retrocessos desde então – da reconstrução do grande capital, da perda da Reforma Agrária e do controlo público de sectores estratégicos da economia, do recuo nas funções sociais do Estado, das graves alterações às leis laborais, do regresso do medo e da pobreza galopante – Jorge Sarabando não desiste, porém, de uma de uma mensagem cheia de significado:
“Em tempo de aparente amorfismo e resignação nascem novos cantos”.

Saibamos, pois, cantá-los.


(Texto da minha apresentação, ontem, na UNICEP, no Porto)
 




[1] "Diário da Assembleia da República" de 3 de Maio de 2008, acedido em 20/11/2015
[2] “Diário da Assembleia Constituinte” de 3 de Junho de 1975
[3] Conquistas da Revolução, Edições Associação Conquistas da Revolução, Lisboa, 2014
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Cunhal em 100 palavras


A Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto (AJHLP) apresentou hoje uma obra singular. Cem autores, de distintas origens e ocupações, uns comunistas, alguém até antes pelo contrário, escreveram sobre uma palavra sobre Álvaro Cunhal. Portanto, 100 palavras sobre. 
Sendo apenas um em 100 (aqui fica a declaração de interesses) com um modesto texto relativo à palavra panfleto, sinto-me menos inibido para recomendar "Cunhal/Cem anos/100 palavras" pelo valor extraordinário das restantes 99 entradas de outros tantos autores, assim como da ideia e da cuidada edição. É obra.
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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O individualismo é tramado

Em “Terra de Catarina – Do Latifúndio à Reforma Agrária, Ocupação de Terras e Relações Sociais em Baleizão” (Celta, Oeiras, 2006), Margarida Fernandes discute, entre outros aspectos interessantes, as razões pelas quais a colectivização “falhou”, propondo-nos também uma reflexão sobre o problema do individualismo, muito útil para a abordagem à falência de outras experiências colectivas.
No essencial, resulta a noção de que a acção colectiva, designadamente através das cooperativas e que talvez pudéssemos estender aos sindicatos, só é válida e importante na medida em que permite concretizar e satisfazer objectivos e anseios individuais, e enquanto estes durarem.
Nesse sentido, a dimensão colectiva resulta meramente instrumental da satisfação de necessidades e objectivos individuais imediatos e transitórios, circunstancialmente comuns a um de indivíduos. Uma vez colocados perante uma ameaça externa ou na expectativa de que os fins individuais serão alcançados, estarão na disposição de “unir-se”. Transitoriamente…
Ainda que não partilhe dessa possibilidade tão sombria, ocorreu-me isto a propósito da mais ou menos recorrente evocação da “unidade da classe” como aquisição de “outros tempos”, bem como de certas reflexões que venho fazendo sobre os concretos obstáculos à materialização de alguns projectos colectivos.
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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Uma leitura actual

Para recordar/reler (ou ler mesmo, recomendando-se vivamente...), nos tempos que correm, também para para o "círculo da razão" que vai pululando e se vai impondo no pequeníssimo mundo mediático português:

Convivendo apenas com "decisores", convertendo-se numa sociedade de corte e de dinheiro, transformando-se em máquina de propaganda do pensamento de mercado, o jornalismo encerrou-se numa classe e numa casta. Perdeu leitores e crédito.
Serge  Halimi, "Os Novos Cães de Guarda", Celta, Oeiras, 1998*

* Como se fosse hoje. 
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sábado, 1 de dezembro de 2012

Cinco maneiras de vencer o medo


Na apresentação do seu último livro, "Vencer o Medo - Ideias para Portugal", Manuel Carvalho da Silva deixou cinco atitudes-chave para vencer o medo que parece tolher muita gente, a saber:
1.º - Exercitar a memória, não deixando morrer nem permitir o branqueamento das coisas que se passaram (o neoliberalismo e o neo-fascismo, esses sim, é que estão a trabalhar para a apagar ou branquear), e que são úteis à análise e à interpretação do tempo presente e da perspectivação do futuro;
2.ª - Construir a esperança, com a razão, com ideias, propostas e o seu confronto para gerar alternativas e não aceitar o fatalismo nem a inevitabilidade que querem impor-nos;
3.ª - Resistir à ofensiva, criando incomodidade nos que nos oprimem, apesar do desequilíbrio da relação de forças;
4.ª - Exercer a cidadania, especialmente através da participação em todas as frentes de discussão e de intervenção;
5.ª - Defender a afirmação do Estado de Direito.
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sábado, 26 de novembro de 2011

O fojo do lobo da Samardã

Na vertente da montanha que dominava a Samardã, havia um fojo - uma cerca de muro tosco de calhaus a esmo onde se expunha à voracidade do lobo uma ovelha tinhosa. O lobo, engodado pelos balidos da ovelha, vinha de longe, derreado, rente com os fraguedos, de orelha fita e o focinho a farejar. Assim que dava tento da presa, arrojava-se de um pincho para o cerrado. A rês expedia os derradeiros berros fugindo e furtando as voltas ao lobo que, ao terceiro pulo, lhe cravava os dentes no pescoço e atirava com ela escabujando sobre o espinhaço; porém transpor de salto o muro era-lhe impossível, porque a altura interior fazia o dobro da externa. A fera provavelmente compreendia então que fora lograda; mas em vez de largar a presa, e aliviar-se da carga, para tentar mais escoteira o salto, a estúpida sentava-se sobre a ovelha e, depois de a esfolar, comia-a. Presenciei duas vezes esta carnagem em que eu - animal racional- levava vantagem ao lobo tão-somente em comer a ovelha assada no forno com arroz. 
De uma dessas vezes, pus sobre uns sargaços a Arte do padre António Pereira, da qual eu andava decorando todo o latim que esqueci; marinhei com a minha clavina pela parede por onde saltara a fera, e, posto às cavaleiras do muro, gastei a pólvora e chumbo que levava granizando o lobo, que raivava dentro do fojo atirando-se contra os ângulos aspérrimos do muro. Desci para deixar o lobo morrer sossegadamente e livre da minha presença odiosa. Antes de me retirar, espreitei-o por entre a juntura de duas pedras. Andava ele passeando na circunferência do fojo com uns ares burgueses e sadios  de um sujeito que faz o quilo de meia ovelha. Depois, sentou-se à beira da restante metade da rês; e, quando eu cuidava que ele ia morrer ao pé da vítima, acabou de a comer. 
É forçoso que eu não tenha algum amor-próprio para confessar que lhe não meti um só graeiro de cinco tiros que lhe desfechei. As minhas balas de chumbo naquele tempo eram inofensivas como a balas de papel com que hoje assanho os colmilho de outras bestas-feras.

Camilo Castelo Branco, "O Degredado", in "Novelas do Minho"
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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"Diário de Uma Gota"


Agenda.

É já amanhã à noite (22 horas), na FNAC do NorteShopping, em Matosinhos: Fernando Nobre, presidente da AMI, e Pedro Olavo Simões, jornalista, apresentam o "Diário de Uma Gota", de Ivete Carneiro, que é uma grande reportagem como se fosse um diário; e vice-versa. 
É de ouvi-los e é obrigatório ler. Também estou lendo, no vagar dos dias, sobre esses 31 dias da singular missão da Ivete no seio da missão da Assistência Médica Internacional na ilha de Bolama, na Guiné-Bissau, redescobrindo-se como jornalista e reinventando-se como cidadã: não há como mergulhar nas realidades-outras para compreender melhor o sentido das coisas e da vida.
Recomendo vivamente.  

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"Seis Fantasmas do Centenário" da República

No seu estilo mordaz, irreverente e acutilante, o jornalista e escritor César Príncipe convida "os cidadãos a participar nas solenes exéquias da República, encerradas as comemorações oficiais das implantação", tendo eleito "Seis Fantasmas do Centenário, cujos restos estão destinados a repousar no Panteão de Rafael Bordalo Pinheiro".
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

José Saramago nasceu há 89 anos

16 de Novembro (de 1993) 
Viagem para Roma. Pela terceira vez faço anos no ar, entre Roma e Lisboa. A primeira, em 90, foi quando do descolamento da retina, com o olho vendado e a caminho duma operação de prognóstico duvidoso, e portanto imaginando o pior, mas, no fundo, com este veio de optimismo incurável que percorre felizmente a massa obscura do meu congénito pessimismo, se dele pode ser prova, só para dar esse exemplo, o facto de nunca ter sido uma criança alegre.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote - Diário-I, 1994

José Saramago nasceu há 89 anos. Hoje, a Câmara Municipal de Lisboa entrega à Fundação José Saramago as chaves da Casa dos Bicos.  
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quinta-feira, 28 de abril de 2011

"Jardim, a Grande Fraude"

Ribeiro Cardoso conseguiu apresentar hoje, na Livraria Bertrand – Dolce Vita, no Funchal, Madeira, o seu livro “Jardim, a Grande Fraude”, depois de ter sido adiada, por alegada falta de sala de última hora, a sessão marcada para o dia 12 de Abril, num hotel da cidade.
Sobre a obra e o autor, duas notas:
Primeira – O livro, que pretende radiografar e analisar o jardinismo, na sua génese, na sua circunstância e nas suas consequências, é obra de oficina honesta. Honesta, porque cuida de deixar clara a origem dos materiais utilizados no seu laboratório, abundantemente constituído por recortes de imprensa e bibliografia diversa, além do recurso a dezenas de entrevistas com personalidades, embora nem todas identificadas por razões de prudência. E honesta também porque não ilude ninguém: “não persigo a isenção nem a objectividade absolutas, mito e quimera que por aí correm para acalmar consciências, enganando-as”, anuncia na “declaração prévia”.
Segunda – Este livro só poderia ser escrito por um jornalista sénior, que viveu directamente boa parte dos acontecimentos essenciais, ou teve deles conhecimento no seu tempo e no seu contexto – e o contexto é um cimento essencial para ligar os factos na narrativa. É pena que esta vantagem – e é do capital de memória que falo – esteja a ser desperdiçada e tenha sido até despejada borda fora em tantas e tantas redacções.
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sexta-feira, 22 de abril de 2011

"A Flor de Abril"

Agenda.

A flor de Abril, já se sabe, convencionou-se, é o cravo. Falo de Abril da Revolução. Portanto, é o cravo, mas é o cravo vermelho. Insisto no pormenor pelo significado profundo do símbolo e pelo ponto de partida da novidade editorial que amanhã dia 23, aliás, Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, pelas 16 horas, é apresentada na FNAC de Santa Catarina (Porto). "A Flor de Abril" assim se intitula a estreia literária do jornalista ("Jornal de Notícias") Pedro Olavo Simões, destinada a contar às crianças o 25 de Abril e a lembrar aos pais que, afinal, a revolução sempre aconteceu e que trouxe muitas coisas importantes de que às vezes esquecemos...  
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segunda-feira, 28 de março de 2011

"Ambiente Uma Questão de Ética"

Sugestão para a agenda de quarta-feira, dia 30, com um tema bem actual:
Às 21:30, na sede da Associação Campo Aberto, na Rua de Santa Catarina, 730-2.º andar, Porto, Maria José Varandas continua a apresentação (2.ª parte) do seu livro “Ambiente Uma Questão de Ética”
“O Princípio da Responsabilidade, Éticas Ambientais e sua relação com as políticas do ambiente, Ética da Terra e Movimento Conservacionista, Ética e políticas europeias para o ambiente, direito ambiental, são alguns dos temas em foco”, informa a Campo Aberto.
Maria José Varandas, presidente da Sociedade de Ética Ambiental, é licenciada em Filosofia e Mestre em Filosofia da Natureza e do Ambiente, e investigadora do Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa em ética e valores. Autora de várias obras como “O Valor do Mundo Natural” (2003) e “Vida: Propriedade do Organismo ou do Planeta?” (2004).
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sexta-feira, 4 de março de 2011

Muito mais de um milhão de portugueses nas avenidas, ruas e praças

Mesmo sem Facebook e outras coisas, o movimento sindical pôs na rua, em apenas cinco dias, mais de um milhão de pessoas em Lisboa (noutras cidades, como o Porto, foram igualmente impressionantes) celebrando o primeiro 1.º de Maio livre (1974) e que representou o decisivo impulso para a Revolução.
É que “havia organização e quadros capazes de apontar um caminho”, recordou Américo Nunes, dirigente sindical histórico da Intersincal, falando ontem à tarde, no Porto, na apresentação do livro “Contributos Para a História do Movimento Operário e Sindical – Das raízes até 1977”, de que é um dos autores.
As manifestações do 1.º de Maio tinham sido preparadas pela Intersindical num contexto de repressão fascista, por serem ilegais. Com o 25 de Abril, o movimento sindical reorganizou, de forma radical e com rapidez e eficácia extraordinárias, não só o tipo de iniciativas, mas também o seu conteúdo e a sua orientação estratégica, determinando consequências decisivas.
Logo no dia 26 de Abril, um conjunto muito importante de sindicatos (entre eles o dos Jornalistas), subscreveu um importante comunicado, proclamando a participação dos trabalhadores no processo revolucionário e apresentando, entre outras “reivindicações imediatas, fundamentais e intransigentes”, o 1.º de Maio como feriado, total liberdade sindical, fim à carestia de vida, aumento imediato de salários, instituição do salário mínimo nacional, redução do horário de trabalho semanal para 40 horas (em cinco dias), liberdade de reunião e associação, direito à greve e imprensa completamente livre e responsabilidade das redacções na orientação das publicações.
Hoje, porém, “há um enorme ataque do neoliberalismo, porque nós avançámos muito em poucas décadas”, disse, na mesma sessão, o secretário-geral da CGTP, Manuel Carvalho da Silva, sublinhando a urgência de uma reflexão sobre a solidariedade, desde logo entre os trabalhadores, e de defesa dos direitos sociais, dos horários de trabalho, da segurança social e de outras conquistas dos trabalhadores.   

quarta-feira, 2 de março de 2011

Horizontes da Ética

Agenda e não só.
Os Professores Doutores Jorge Cunha e Carlos Mota Cardoso apresentam amanhã, às 18.30 horas, no Auditório 1 do Campus da Foz da Universidade Católica (Centro Regional do Porto), o livro “Horizontes da Ética – Para uma cidadania responsável”, de João Baptista Magalhães, editado pela Afrontamento.
Ex-professor de Filosofia no Ensino Secundário e de Deontologia no Instituto Superior de Serviço Social do Porto, João Baptista Magalhães, mestre em Epistemologia e Filosofia do Conhecimento pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, dirige a colecção Sapiens da Afrontamento e é autor de manuais de Filosofia e de outras duas obras importantes: “A Ideia de Progresso em Thomas Khun no Contexto da Nova Filosofia da Ciência” e “Locke. A “Carta sobre a Tolerância” no seu contexto filosófico”.
Nestes seus “Horizontes”, João Baptista Magalhães não se limita a guiar-nos, aliás de forma fina e delicada, pelo fascinante percurso das concepções de Ética, pois oferece-nos a sua bússola num labirinto de problemas de ética, moral e cidadania que o quotidiano, pessoal e profissional, representa para tantos de nós. 
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

"Expresso & Avante!, Dois espelhos do mundo"

Agenda, sem falta, depois de amanhã.


Do prefácio:
“… o autor traça linhas de comparação/colisão de Jornalismo de Sistema e de Contra-Sistema. Os textos em que se busca a prova de vida desta tese incidem sobre exemplares do Expresso e do Avante!. Os números de observatório poderiam ser outros, já que todos transportam o código originário, o selo de compromisso. Os conteúdos são hierarquizados segundo uma Agenda de Interesses. Os balizamentos doutrinários ressaltam, por mais que se encene isenção. A declaração de imparcialidade é um truque estilístico do persuasor para vender o seu produto, para nos capturar nas redes ou circularidades sistémicas/anti-sistémicas. As compulsações conduziram-nos, página a página, imagem a imagem, a um discurso organizado para nos atrair/alistar.
O Expresso e o Avante! cumprem os seus papéis de reguladores do Espaço Público, com os meios que lhes foi possível ou permitido mobilizar nos campos de influência, no raio económico-social de cobertura. As vantagens sistémicas pendem para o Expresso: capacidade instalada, virtuosismo gráfico, cabaz de suplementos, publicidade selectiva, fontes do poder, audiência alargada. O Avante! é folheado em bastiões ideológicos e frentes de protesto. Exprime um idioma contracorrente na Babélia Mediática. No trânsito histórico, Expresso e Avante! têm protagonizado um conceito-paradigma de comunicação social, antes e depois do 25 de Abril, com a respectiva carteira de intenções e o correspondente contrato social: o Expresso (1973), na perspectiva de uma República da Iniciativa Privada; o Avante! (1931), na perspectiva de uma República da Iniciativa Pública. Daí que, no “antigo regime”, o Expresso, embora sujeito a Exame Prévio, fosse tolerado: representava uma diferença evolutiva da situação, enquanto o Avante! teve de ser produzido e distribuído na clandestinidade.
A História prossegue. O Expresso e o Avante! persistem, no séc. XXI, a doutrinação. O Expresso, como produto convicto de mercado, busca a sustentabilidade na componente comercial. O Avante!, como oferta de ruptura, não aceita condicionamentos publicitários. Merecem, cada um na sua margem, que nos debrucemos sobre as suas orientações e práticas. São dois intérpretes com plena noção dos seus papéis instru(mentais). São duas fábricas de leitores e de eleitores. De “leitura obrigatória” para não perdermos o pé nas encruzilhadas do mundo. São dois grandes e irreconciliáveis portugueses. O Expresso assinala 38 anos, o Avante! celebra 80. A melhor prenda de aniversário, numa Sociedade do Conhecimento sem tabus, seria que ninguém lesse o Expresso sem ler o Avante! e ninguém lesse o Avante! sem ler o Expresso. A literacia mediática alcançaria uma “coroa de glória” ou uma síntese democrática. Movidos por um espírito de Cidadania da Informação - convidamos os “prezados leitores” para um verdadeiro “Prós e Contras”. Martela o “marketing” que “ler jornais é saber mais”. Saber escrever também não seria dom menor. Saber ler também não seria má ideia.
Carecemos de um Plano Nacional de Leitura dos Média.”

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os gémeos do Dr. Mengele, a propósito do Dia do Shoah (Holocausto)


Há 66 anos, em 27 de Janeiro de 1945, foi libertado o campo de concentração nazi de Auschwitz-Birkenau, na Polónia, criado cinco anos antes. Nele foram mortos um milhão e 100 mil seres humanos, um milhão dos quais judeus.
Ainda hoje é o símbolo do Holocausto, do extermínio decretado e executado pela Alemanha nazi que sacrificou cerca de seis milhões de judeus, além de milhões de outros cidadãos - ciganos, comunistas, dissidentes políticos, deficientes... - e por isso a data de 27 de Janeiro foi instituída como o Dia do Shoah, ou Dia do Holocausto.
Ao evocar os mortos de Auschwitz-Birkenau, tamanho foi o número, somos tantas vezes tentados a esquecer, ou a omitir, o que foi o seu sofrimento prévio à morte e à... sobrevivência de todos aqueles que os soldados soviéticos encontraram ainda com vida neste campo de extermínio.
E todavia são tristemente famosas as "experiências médicas" realizadas ali, particularmente as do famigerado Dr. Josef Mengele, entre as quais as pesquisas em gémeos, anões e outros indivíduos como "anomalias genéticas" que foram objecto de um estudo da investigadora Nancy L. Segal, da Universidade do Estado da Califórnia, nos Estados Unidos da América (EUA), uma das autoras de um impressionante livro dirigido por Arthur L. Caplan, "Quando a Medicina Enlouqueceu - A Bioética e o Holocausto" (Instituto Piaget, Lisboa, 1997).
No capítulo que lhe coube no livro, Nancy L. Segal problematiza não só a metodologia do Dr. Mengele e o uso actual de dados gerados na experimentação nazi, incluindo a perspectiva de gémeos sobreviventes acerca de tal uso, mas questões médicas, psicológicas e sociais que eles enfrentaram todos estes anos.
Entre a Primavera de 1943 e Janeiro de 1945, o Dr. Mengele usou centenas de pares de jovens gémeos masculinos, criteriosamente seleccionados logo na rampa de chegada do campo de concentração e colocados em pavilhões próprios à sua disposição. Na foto acima, da autoria de Nancy L. Segal e reproduzida na obra referida, podemos ver um sobrevivente durante um encontro que assinalou o 40.º aniversário da libertação do campo, apontando a sua própria imagem enquanto criança entre os (apenas) 157 gémeos libertados no dia 27 de Janeiro de 1945 diante dos barracões dos gémeos.
Entre a colecção de horrores, crueldade e humilhação a que foram submetidos nas experiementações in vivo de Mengele estão transfusões de sangue entre pares de gémeos; exposição a raios x; injecções de um deles com substâncias letais como o tifo, por exemplo, para comparação ulterior com o co-gémeo; pares cosidos costas com costas; pares mortos simultaneamente para serem dissecados, a fim de que se estudassem comparativamente a evolução de doenças provocadas num deles...
O livro – fruto de uma conferência em Maio de 1989 na Universidade do Minnesota para analisar o significado do Holocausto da Bioética – reúne artigos muito importantes para a discussão de temas como o reencontro dos sobreviventes com a memória do seu próprio sofrimento e a legitimidade do uso de dados das experiências dos médicos nazis pelos médicos actuais, tendo em conta a forma brutal e anti-ética com que foram obtidos.
“Em Auschwitz, éramos tratados como mercadoria: o cabelo era utilizado para colchões; a gordura para sabão; a pele para candeeiros; o ouro retirado dos dentes dos mortos ia para o tesouro nazi; e muitos de nós fomos utilizados como cobaias. Actualmente, alguns médicos querem utilizar a única coisa deixada por estas vítimas (…) Utilizar os dados nazis é obsceno e demente”, lê-se num dos testemunhos publicados na obra.
Nele, Eva Mozes Kor descreve o dia-a-dia horrível dos gémeos-cobaias, as quais eram inoculados por exemplo micróbios que produziam febres altas destinadas a registo sem que o paciente recebesse qualquer tratamento. Outra sobrevivente,Sara Seiler Vigorito, explica: “O tifo, a tuberculose e a sífilis, para citar só algumas, eram injectados nas vítimas para estudar as fases progressivas das doenças. Os pacientes não eram tratados a fim de curar a doença. Pelo contrário, eram sujeitos a observação, os dados eram registados, as vítimas eram mortas, efectuava-se uma autópsia para estudar os efeitos internos da doença, registavam-se mais dados e o corpo da vítima era exterminado”.
Aliás, “a eficácia de Mengele não permitia desperdícios. Não perdia tempo a obter o consentimento das vítimas nem com emoções mostrando compaixão. As experiências eram executadas sem anestesia ou paliativos que seriam inúteis e ineficazes”. A testemunha narra situações como a de uma incisão de bisturi ao longo de uma perna de uma criança (amarrada à marquesa) seguida de operações de raspagem do osso. “Quando acaba, atam-lhe a perna e a criança é levada para a jaula… não lhe dão nada para a dor”.      
“Ao contrário de um médico investigador ético, o cientista nazi não tinha como objectivo final a preservação da vida humana e o alívio do sofrimento”, prossegue Sara Vigorito, observando que qualquer investigador que secundarize a “vida humana, suplantada pela ciência e o progresso (…) torna-se um investigador a trabalhar à sombra de Mengele e dos homólogos nazis”.
 “Após a apresentação deste breve perfil do médico nazi, do seu sistema de valores e método de «experimentação», deverão os dados resultantes das vítimas ser reutilizados?”, questiona. “A minha resposta é que o cientista que reutiliza estes dados está a aderir aos valores e aos métodos dos médicos investigadores nazis, transportando o seu trabalho para a pesquisa contemporânea e dandos-lhes, deste modo, a credibilidade e o consentimento”.

sábado, 13 de novembro de 2010

Uma biografia de Álvaro Cunhal

Chega no dia 18 às livrarias "Álvaro Cunhal - Retrato Pessoal e Íntimo", uma biografia escrita por Adelino Cunha, "por se tratar de uma das figuras mais importantes do século XX português", segundo explica o próprio.
E acrescenta:
"Não existia até agora uma narrativa biográfica completa sobre Álvaro Cunhal. Desde a sua infância até à sua morte. Este livro tenta preencher esse espaço vazio. É uma biografia política que tenta contar a sua história, abordando o seu papel político na luta contra a Ditadura e após o 25 de Abril e a vertente artística, mas é também uma biografia com caracteres da sua vida familiar e íntima. Não se pode entender Álvaro Cunhal como político sem conhecer Álvaro Cunhal como homem, como pai, como filho, como irmão e como amigo. Esta narrativa tem essa ambição".

Mais desenvolvimentos aqui.
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Há dias em que...

... apetece dizer como Régio:
«Vem por aqui!» – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui!»
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Miguel de Cervantes





Assinalando-se hoje o suposto aniversário de Miguel de Cervantes Saavedra, em Alcalá de Henares, Madrid, e como forma de lembrar quantas iníquos atentados contra a liberdade de ler, saber, pensar, ousar ir mais longe, tantas vezes justificados pelas "melhores razões", aqui deixo um trecho da minha predilecção da sua obra-prima:

Do engraçado e rigoroso escrutínio
que o cura e o barbeiro fizeram a biblioteca
do nosso engenhoso fidalgo

que ainda estava a dormir. O cura pediu à sobrinha as chaves do aposento onde estavam os livros causadores de tanto mal e ela deu-lhas de bom grado. Entraram todos lá e a governanta com eles, e acharam mais de cem volumes enormes, muito bem encadernados, e outros pequenos; e logo que a governanta os viu, saiu do aposento a toda a pressa, e voltou com uma escudela de água benta e um ramo de hissope, dizendo:
- Tome vossa reverência, senhor cura; asperja este aposento, para o caso de estar aqui algum fazedor de encantamentos, dos muitos que contêm estes livros, e nos enfeiticem, para nos castigarem pelas penas que queremos aplicar-lhes ao expulsá-los do mundo.
O cura riu-se da ingenuidade da governanta e mandou o barbeiro ir-lhe passando aqueles livros um por um, para ver de que tratavam, pois podia achar alguns que não merecessem o castigo do fogo.
- Não - disse a sobrinha -, não há nenhum que mereça ser poupado, porque todos foram malfeitores; o melhor será arremessá-los pelas janelas para o pátio, fazer um montão com eles e pegar-lhes fogo; e, se não, levá-los para o terreiro, e ali fazer a fogueira, e o fumo não incomodará ninguém.
(Miguel de Cervantes, D. Quixote de la Mancha (vol I, pág. 67), na belíssima tradução de José Bento editada pela Relógio D'Água)
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