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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Uma posição corajosa de Mário Mesquita

Conto voltar ao tema em breve, mas tenho urgência em saudar o vice-presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC), Mário Mesquita, por esta posição corajosa.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Cada cavadela, cada minhoca


Portanto, a manipulação na televisão é mais fofinha...


terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Assalto à última trincheira da liberdade?


Será útil assentarmos desde já no seguinte: os jornalistas são trabalhadores por conta de outrem, assalariados mais ou menos precários mas geralmente subordinados a uma hierarquia que o patrão estabeleceu, escolheu e mantém enquanto merecer a sua confiança. As excepções são estatisticamente negligenciáveis para o que agora importa discutir.

Pelo menos formalmente, os jornalistas gozam das garantias constitucionais da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e do pluralismo. Mas as liberdades estão de algum modo limitadas pelos estatutos editoriais dos órgãos de informação aos quais eles prestam serviço, pelas orientações e pela disciplina editorial determinada pelas respectivas hierarquias editoriais – essas mesmas, as escolhidas pelos donos através de um sistema de delegação de confiança em cascata: os accionistas escolhem os directores; os directores escolhem os chefes de redacção, os editores de secção…

Ao contrário do que muitos leitores, ouvintes e espectadores poderão imaginar, de um modo geral os jornalistas não gozam de autonomia editorial nem sequer para escolher as áreas e os temas que tratam, nem são eles a decidir, pelo menos em última instância, o que é notícia. É à hierarquia, mais ou menos complexa, de acordo com a dimensão e/ou o modelo organizativo, que cabe estruturar as redacções, geralmente por áreas temáticas, bem como alocar a cada uma delas determinado conjunto de profissionais, coordenados por um superior hierárquico directo.

É a hierarquia editorial que distribui tarefas e aceita, ou não, as sugestões de trabalhos e estabelece as prioridades, atribui os espaços e define os destaques. Nalguns casos (os jornalistas queixam-se de tratar-se de casos a mais, com prejuízo da autonomia técnica que deveria ser-lhes reconhecida) são as chefias a determinar a orientação concreta das notícias e reportagens – os ângulos de abordagem, os pormenores a valorizar ou a desvalorizar, as perguntas a fazer, as pessoas «certas» a ouvir…

É útil termos presente esta descrição chã e simplificada da organização e funcionamento das redacções, para compreendermos as tensões de poder no seio destes organismos e as limitações e constrangimentos que elas produzem, com consequências necessariamente na qualidade da informação disponibilizada ao público. Mas também tomarmos consciência de que os próprios modelos e culturas organizativas traduzem dinâmicas inibidoras de uma expressão mais ampla da diversidade de opiniões no interior das redacções. 

De um modo geral, e sem prejuízo do reconhecimento do mérito próprio nalguns casos, são as relações de poder interno que justificam o acesso ao monopólio da opinião, com direito a coluna regular, habitualmente dividido pelos detentores dos cargos de topo e intermédios da hierarquia, por um ou outro redactor, os quais, juntamente com colunistas externos, constituem a elite editorial.

É essa elite que, com frequência, ocupa simultaneamente espaços de opinião nos principais jornais e revistas, possui lugar cativo de comentário na rádios e nas televisões, determina as tendências, desenha o consenso sobre os principais temas e projecta uma agenda comum da actualidade – salvo algumas honrosas excepções.

Neste contexto, a maior parte dos jornalistas não tem acesso a esse clube, seja pela natureza restritiva resultante das relações de poder e de confiança, seja também pela compreensível escassez de espaço útil.

Não admira, por isso, que inúmeros profissionais tenham encontrado no espaço público democratizado pela gratuitidade dos meios electrónicos, uma espécie de trincheira da liberdade de expressão, alimentando blogues e perfis em meios sociais, ora retransmitindo criações suas produzidas para os meios onde trabalham, ora publicando textos e imagens produzidos no âmbito da sua liberdade de criação, de opinião e de difusão.

É uma prática que a própria elite com o privilégio da opinião nos media muito valoriza também, replicando as suas colunas, utilizando-a como plataforma adicional para intervenções supletivas, por vezes mais acutiliantes, ou versando temas diversos daqueles que habitualmente tratam. 

Uns e outros fazem assim uso de uma liberdade protegida pela Declaração Universal dos Direitos do Homem[1] e pela Constituição da República[2] que nem sequer o malfadado Código do Trabalho põe em causa, já que os poderes de direcção e disciplinar do empregador estão limitados à organização do trabalho, não podendo estes prejudicar a liberdade de expressão e de opinião e de divulgação do pensamento e da opinião[3].

Por conseguinte, é de estranhar que, entre os jornalistas, haja quem proponha o estabelecimento de restrições à utilização de meios sociais, designadamente para expressar opiniões próprias, para subscrever opiniões de terceiros ou para manifestar apoio a posições, propostas e correntes de pensamento, políticas, religiosas e outras. Uns poucos, com acesso às colunas de opinião e aos espaços de comentários nos media, passariam a deter em definitivo o exclusivo da opinião; os restantes, a maioria, veria capturado o que resta da sua liberdade.

A tendência regulamentista, em nome da preservação da «independência» dos jornalistas e, sobretudo, para não comprometer a «independência» dos órgãos para os quais trabalham, está fazendo caminho e receia-se que desague no congresso convocado para o próximo fim-de-semana, em cujo programa se enuncia a questão «Como conciliar o exercício profissional com blogues e páginas pessoais de jornalistas profissionais em redes sociais?».

O tema não pode ser tabu, mas aconselha toda a prudência, sob pena de lançar os jornalistas numa deriva «purificadora» e de verdadeira captura do derradeiro reduto de expressão da liberdade dos seus próprios camaradas. Se tal acontecer, será uma enorme tragédia para o Jornalismo e sobretudo para a Democracia.

A questão não é isolada – e porventura não é inocente –, compaginando-se com outras lançadas para um debate, que se espera franco e democrático, que causam legítima inquietação, girando em torno de ideias aparentemente consensuais, como a «independência individual dos jornalistas» e de eventuais propostas de revisão do regime de incompatibilidades da profissão, talvez incluindo nelas a participação cívica e política, e até de previsão legal dos «conflitos de interesses».

Há quem proponha até que os jornalistas declarem regularmente os seus «interesses» – todos, dos económicos próprios e de familiares, filosóficos, ideológicos, partidários, religiosos – numa espécie de ecografia pública capaz de perscrutar até ao mais ínfimo átomo das nossas consciências e fixar indelevelmente um retrato moral a escrutinar sabe-se lá por quem.

Mas não há dúvidas de que tais derivas, se não forem travadas pelo bom senso, pela prudência e pela sã camaradagem da diferença e da diversidade, sê-lo-ão pelo menos em razão da inconstitucionalidade e pela ostensiva agressão aos direitos, liberdades e garantias dos quais os jornalistas não estão desapossados.
 
Publicado originalmente em AbrilAbril




[1]              Artigo 19.º da DUDH – Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão.
[2]              Artigo 37.º, n.º 1 da CRP  – Todos têm o direito de exprimir e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informados, sem impedimentos nem discriminações. 
[3]              Artigo 14.º do CT – É reconhecido, no âmbito da empresa, a liberdade de expressão e de divulgação do pensamento e opinião, com respeito pelos direitos de personalidade do trabalhador e do empregador, incluindo as pessoas singulares que o representam, e do normal funcionamento da empresa.  

quinta-feira, 7 de abril de 2016

"E se fosse eu"… a tomar decisões?

Já se vê que Joana Vasconcelos se pôs a jeito com o depoimento parvo por causa do qual está a ser zurzida nas redes sociais.
No entanto, seria interessante problematizar a campanha de comunicação “E se fosse eu”, na qual pessoas conhecidas do grande público – incluindo o Presidente da República – enunciam, em vídeos divulgados pela RTP durante o dia de ontem, os objectos que colocariam na sua mochila de refugiados de faz-de-conta.
A acção inseriu-se na iniciativa mais vasta “E se fosse eu? Fazer a mochila e partir” (www.esefosseeu.pt), incluindo nas escolas, que “lançou o desafio para que, por um dia, todos nos colocássemos no lugar de um refugiado e pensássemos naquilo que levaríamos connosco se tivéssemos de partir”.
Pretendendo contribuir para um melhor acolhimento dos refugiados, especialmente junto das crianças, a iniciativa centrou-se na problemática do refugiado, procurando gerar “empatia com quem foge da guerra”, entre outros objectivos.
Ora, para não correr o risco de assentar na lógica ideológica da inevitabilidade das guerras, nem de tratar o tema pela rama das consequências que nos ficaram próximas e visíveis (a chegada de refugiados), seria útil incentivar a procurar ir mais fundo, conhecer e discutir as causas.

E talvez não fosse completamente inútil lançar agora o desafio recentrar a discussão, também com as crianças e o público: “E se fosse eu? Participar e decidir”…  

sábado, 26 de dezembro de 2015

Enigma

Por que razões a publicação de fotografias da consoada de "vários jogadores de futebol" nas redes sociais é notícia? 


Hipóteses:
A - Há um relevante interesse público (vá lá saber-se qual...)B - O povo das redacções é cusca e/ou deslumbradoC - Pronto, eu é que não percebo nada de critérios editoriais
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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

O outro PP

Há um partido muito poderoso, com forte influência no espaço público. É o PP - Partido das Personalidades. Os seus dirigentes dão entrevistas que se fartam.  
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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Meet do Colombo, o dia seguinte


Como era inevitável, os jornais de hoje estampam a respectivas narrativas sobre a brincadeira cibernética de ontem. Quanto ao "acontecimento", assumem dois eixos essenciais:
1.º - O anunciado "Meet" do Colombo foi uma brincadeira para provocar os media e a polícia; e
2.º - Como quer que seja, aquele e outros centros comerciais estão a reforçar a segurança.
E duas linhas de reflexão (ou contribuições para) sobre:
1.ª - Os riscos de uma deriva securitária alimentada pelos media, potenciada pela hipervalorização dos acontecimentos (e os não-acontecimentos transformados em factos mediáticos); e 
2.ª - A necessidade de análises qualificadas e sem preconceitos acerca destes fenómenos, suas causas e modos de os integrarmos num sistema - incluindo de políticas públicas - mais inclusivo e mais tolerante.
Um dia destes volto ao tema.
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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Um mett de jornalistas

O título do "Público" em linha -  "Foi um mett de jornalistas" - é de uma ironia acertada. Anunciado como uma "invasão" de um centro comercial em Lisboa por um milhar de jovens, agendada para as 14 horas de hoje, aguardado, consta, pelo habitual "forte dispositivo" policial, a brincadeira cibernética do gato e do rato deu em nada, ou em quase nada.
O caso - já falei no assunto, atrás - dá que pensar. Às polícias, aos jornalistas e aos cidadãos - e um teste à nossa capacidade de observar e interpretar os sinais dos tempos, a transformações e os desafios.  
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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Sobre o valor notícia da imbecilidade na rede

O título deste artigo na "Marianne" - "Desafios na Internet: Hidrocussão de inteligência colectiva?" - é muito sugestivo e não pode deixar de por-nos a pensar, e muito, sobre o assunto.
Problematizando de forma muito singela a "moda" dos chamados "banhos públicos" (tradução que suponho apressada de "ice bucket challenge" à qual eu prefiro algo como "desafio da baldada gelada"), Elodie Emery chama a atenção para a imbecilidade que toma conta da rede e contamina também os Media, rendidos ao disparate estival.
Até um dia? Até ao dia, avisa, em que ocorrer um acidente mortal com estas baldadas. Nessa altura, porém, receio, os Media encontrarão um novo ângulo para o tema. Chama-se a isso reverter o valor notícia da imbecilidade.
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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Não se enredem, que vão arrepender-se

Seis breves notas de reflexão sobre a contaminação do "Jornalismo" pelas futilidades electrónicas:
  1. O facto de estar a bombar nas redes sociais uma brincadeira mais ou menos gira não a torna, por si, facto digno de notícia.
  2. O facto de umas tantas pessoas, circunstancialmente muito divulgadas no espaço público, praticarem este ou aquele acto e o fazerem constar nas redes não as torna necessariamente protagonistas de notícia.
  3. Há uma enorme e abissal diferença entre a curiosidade e o voyeurismo legitimado pela exposição nas redes e a mais elementar noção de interesse público.
  4. Nem tudo o que vem às redes sociais é peixe digno de servir na mesa dos cidadãos.
  5. É muito provável que muitos leitores, ouvintes e espectadores consideram que os jornalistas se interessam demasiado pelas vulgaridades e futilidades que "mexem" nas redes sociais e muito menos pelo que acontece na sociedade.
  6. É bem possível que venhamos a arrepender-nos ou mesmo a pagar com língua de palmo de tanto enredanço nas redes sociais e de tanto divórcio em relação à sociedade real.     
E, por favor, não digam que isto é coisa de bota de elástico tecnológico. Isto é só a gente a conversar, antes que seja demasiado tarde.     
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sexta-feira, 11 de julho de 2014

Vamos dar voz a esta luta

De que estás à espera?
É preciso continuar a dar voz a esta causa.
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quarta-feira, 25 de junho de 2014

Pessimismo social

Desculpem o pessimismo e a resistência, mas não acredito mesmo que a Revolução vá chegar pelo Facebook.
Talvez um dia destes discorra sobre este assunto do activismo nas redes sociais.
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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Balanços do ano

Não simpatizo com os balanços do ano. Estão sempre a desculpar o ano seguinte.
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sábado, 21 de dezembro de 2013

Rebelião pelos cabazes

Bem me parecia que aquela rábula de marketing, da oferta de um cabaz de compras a um desempregado voluntarista, protagonizada por uma cadeia de supermercados cujo dono passa a vida a debitar opinião em entrevistas em rádios, televisões e jornais, haveria de ter outros episódios.
Ficará por aqui, a rebelião pelos cabazes dos desempregados, dos precários e dos trabalhadores do Pingo Doce?
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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Um criticável portrait à trois e o insondável mistério do espaço público

A cerimónia de homenagem a Nelson Mandela dispensaria diversões. Não falo do gesto - espontâneo? - de Obama, de cumprimentar o presidente cubano, Raúl Castro, que mereceria ser simbolicamente associado às exéquias desse homem maior que tanto nos ensinou sobre a ética da tolerância.
Falo da frivolidade dos gestos do mesmo Obama, da primeira-ministra dinamarquesa e do primeiro-ministro britânico, assaz divertidos no portrait à trois.
As imagens do mais que dispensável momento lúdico dos três dirigentes tornaram-se virais por várias razões. As mais fúteis, pelo picante da reacção (apreensiva?, frustrada?, zangada?) de Michele Obama; as mais indignadas, porque esperavam circunspecção, sobriedade e "respeito"; as mais objectivas, pela perplexidade da inesperada infantilidade de três dirigentes que não poderiam, em circunstância alguma, em momentos destes, fazer as figuras que fizeram.
Mas o caso também serve para reflectir sobre os insondáveis mistérios do espaço público e das suas surpresas.
Talvez um dia volte a este assunto.
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domingo, 4 de agosto de 2013

"Eles"continuam a organizar-se

Insisto numa nota de reflexão que já fiz noutras ocasiões, designadamente aqui, já não sobre a mera emergência de respostas alternativas aos meios de informação capitalistas, mas já de completa afirmação e consolidação da revolta dos escravos contra o sistema que os exclui ou que os hostiliza.
Proponho uma primeira leitura sobre o "fenómeno" dos assim chamados repórteres ninja, sugerindo que as abordagens não se fiquem por aqui.
E insisto que estes fenómenos não são um problema para o jornalismo e para os jornalistas; são um desafio.     
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sábado, 25 de maio de 2013

Política, redes sociais e patrulhamento jornalístico

No rescaldo da polémica em torno das bocas dos deputados Carlos Abreu Amorim (1) e José Lello (2), o "Diário de Notícias" (Francisco Mangas) publica hoje um interessante artigo, pondo três politólogos (António Costa Pinto, Adelino Maltez e André Freire), e ainda José Lello, a discorrer sobre as inconveniências das tiradas como as que aqueles escreveram instantaneamente no Twitter, dizendo (sem pensar?) o que lhes "ia na alma".
Não há dúvida de que mandar umas bocas nas redes sociais é uma nova modalidade de intervenção política, ou é pelo menos um exercício de liberdade de expressão. 
Talvez tenha alguma ponta de razão José Lello, ao estranhar a valorização que os jornalistas parecem dar-lhes, quando afirma: "Os jornalistas, como são incapazes de atacar os poderes instituídos, procuram a caixa (cacha) na não-notícia, exorcizam os políticos".
Mas, no essencial, faz-nos reflectir sobre as razões pelas quais os jornalistas patrulham tanto as contas de políticos e outras pessoas nas redes sociais, à cata do picante do dia...

(1) "Magrebinos: curvem-se perante a Glória do Grande Dragão!", 19/05/2013
(2) "Pai de Passos diz que 'filho está morto por se ver livre disto'. Os portugueses estão desesperados por se verem livres dele. Morto ou vivo.", 21/05/2013 
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sábado, 6 de outubro de 2012

O bispo da Internet falou assim

José Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda (foto oficial)

"Há pessoas que comunicam constantemente, no seio de uma família, através das redes sociais, sejam elas de telemóvel, da Internet ou do Facebook, do Twitter ou de outras formas, e depois já aconteceu estar com essas pessoas à mesa e não havia comunicação entre elas.". Estas palavras são de José Cordeiro. 
Apresentadas assim, não assumem qualquer relevância. Qualquer um de nós poderia proferi-las e isso não seria seguramente notícia. Mesmo que lhe acrescentássemos o tratamento honorífico Dom para passarmos a escrever "D. José Cordeiro", ou que precisássemos que este Dom se refere a um bispo, pouco acrescentaríamos de relevante. Qualquer padre, mesmo bispo, medianamente atento à dobadoira do mundo e às quotidianas coisas chãs do seu tempo saberia fazer tão sábia advertência, incorrendo porém no naturalíssimo risco de virem acoimá-lo de de geronte e outros nomes até menos simpático.
Dá-se o caso de esse tal José Cordeiro, sendo - já se percebeu - um bispo católico, não é um bispo qualquer. E não foi acaso que o título escolhido na versão em linha do "Diário de Notícias" o apresentou como o "bispo da Internet". É sabido: José Cordeiro, 45 anos, bispo de Bragança-Miranda, o mais jovem prelado português (foi ordenado há um ano, no dia 2 de Outubro), é um confesso e praticante entusiasta da Internet e das redes sociais e suponho (não confirmei) que é o único bispo católico português seguido no Facebook e o único a indicar um endereço pessoal de correio electrónico. O que me leva a supor que sabe do que fala.
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domingo, 19 de fevereiro de 2012

"A Casa da Mãe Joana", pois...

Há apenas um dia, ontem mesmo, ofereci aqui alvíssaras por informações sobre a origem de um interessantíssimo texto sobre a origem do at inglês, ou do "nosso" arroba, modernamente utilizado nos endereços de correio electrónico.
Ora, não tendo obtido resposta satisfatória a esta e a outras diligências, e tendo-me certa resposta cheirado a fraude, lá fiz o que tinha a fazer e que, por preguiça, não fizera: introduzir as expressões-chave "origem de @ arroba at" num simples motor de busca. De pronto me saiu esta "resposta", que mais não é - suponho - do que a versão original do texto que me fizeram chegar e que remete, de forma cristalina e honesta para uma citação do livro "A Casa da Mãe Joana", de Reinaldo Pimenta.
Um dia, talvez partilhe aqui uma reflexão sobre a honestidade intelectual que este caso me suscitou...

PS: Escuso de dizer que já não devo recompensa a ninguém, certo?
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sábado, 18 de fevereiro de 2012

Alvissaras pela fonte deste texto

De pessoa amiga, cujo endereço rasurei, recebi um interessante texto sobre a origem do at inglês e do nosso arroba - o caracter @ usado nos endereços electrónicos entre o nome do utilizador e a designação do fornecedor do serviço ou entidade. Mas gostaria muito de conhecer a origem, a fonte, o autor. Alguém pode ajudar?

---------- Mensagem encaminhada ----------
De: xxxxxxxxxxxxx@hotmail.com>
Data: 18 de Fevereiro de 2012 11:20
Assunto: FW: Entre os símbolos, temos @ !
Para:

Durante a Idade Média os livros eram escritos pelos copistas, à mão.
Precursores dos taquígrafos, os copistas simplificavam o seu trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais  rápido (tempo não faltava naquela época). O motivo era de ordem económica: tinta e papel eram valiosíssimos.
Assim, surgiu o til (~), para substituir o m ou n que nasalizava a vogal anterior. Se reparar bem, você verá que o til é um enezinho sobre a letra.
O nome espanhol Francisco, também grafado Phrancisco, foi abreviado para Phco e Pco ? o que explica, em Espanhol, o apelido Paco.
Ao citarem os santos, os copistas os identificavam por algum detalhe significativo de suas vidas. O nome de S. José, por exemplo, aparecia seguido de Jesus Christi Pater Putativus, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde, os copistas passaram a adoptar a abreviatura JHS PP, e depois simplesmente PP. A pronúncia dessas letras em sequência explica por que José, em Espanhol, tem o apelido de Pepe.
Já para substituir a palavra latina et (e), eles criaram um símbolo que resulta do entrelaçamento dessas duas letras: o &, popularmente conhecido como e comercial, em Português, e ampersand, em Inglês, junção de and (e, em Inglês), per se (por si, em Latim) e and.
E foi com esse mesmo recurso de entrelaçamento de letras que os copistas criaram o símbolo @, para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de casa de.
Foram-se os copistas, veio à imprensa - mas os símbolos @ e & continuaram firmes nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço. Por exemplo: o registo contabilistico 10@£3 significava 10 unidades ao preço de 3 libras cada uma. Nessa época, o símbolo @ significava, em Inglês, at (a ou em).
No século XIX, na Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar as práticas comerciais e contabilísticas dos Ingleses. E, como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses davam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo devia ser uma unidade de peso. Para isso contribuíram duas coincidências:
1 - a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cujo inicial lembra a forma do símbolo;
2 - os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba. Por isso, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registo de 10@£3 assim: dez arrobas custando 3 libras cada uma. Então, o símbolo @ passou a ser usado por eles para designar a arroba.
O termo arroba vem da palavra árabe ar-ruba, que significa a quarta parte: uma arroba ( 15 kg , em números redondos) correspondia a 1/4 de outra medida de origem árabe, o quintar, que originou o vocábulo português quintal, medida de peso que equivale a 58,75 kg .
As máquinas de escrever, que começaram a ser comercializadas na sua forma definitiva há dois séculos, mais precisamente em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados), trouxeram no teclado o símbolo @, mantido no do seu sucessor - o computador.
Então, em 1972, ao criar o programa de correio electrónico (e-mail), RoyTomlinson usou o símbolo @ (at), disponível no teclado dessa máquina, entre o nome do usuário e o nome do provedor. E foi assim que Fulano@Provedor X ficou a significar Fulano no provedor X.
Na maioria dos idiomas, o símbolo @ recebeu o nome de alguma coisa parecida com a sua forma: em Italiano, chiocciola (caracol); em Sueco, snabel (tromba de elefante); em Holandês, apestaart (rabo de macaco). Em alguns, tem o nome de certo doce de forma circular: shtrudel, em iídisch;
strudel, em alemão; pretzel, em vários outros idiomas europeus. No nosso, manteve sua denominação original: arroba.