terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Títulos de risco



Por estes dias, os meios de informação afadigam-se com o justo debate sobre a inaceitável descida da Taxa Social Única (TSU) a cargo dos empregadores, oferecida pelo Governo aos patrões como contrapartida pela aceitação de um escandalosamente parco aumento do Salário Mínimo Nacional, e que deverá ser revertida amanhã na Assembleia da República.

O tom dos media sobre o assunto cavalga a onda da dramatização – se o Governo tem ou não “plano B” para o chumbo parlamentar, que o primeiro-ministro garante aos patrões que honrará o compromisso, que os patrões pressionam António Costa, que o Governo e os patrões estão «reféns dos partidos», que o PS acusa o PSD de chantagem – à qual não falta a linguagem bélica: «Esquerda abre fogo da TSU sobre Costa e este dispara contra Passos»[1]

Basta ler os títulos dos jornais ou das televisões, por vezes ideologicamente armadilhados. Um deles – “Descida da TSU em risco» –, repetido dias a fio pela SIC Notícias e pela SIC generalista, e também usado nomeadamente pelo Jornal de Negócios, justifica alguma discussão, quer pelo que possa ter de pouco inocente, quer porque simplesmente ceda ao facilitismo, quer porque se socorra de artifícios da ambiguidade para atrair público.

As palavras possuem significados e pesos próprios e não é por acaso que escolhemos umas e não outras quando comunicamos. Como ensinavam já os velhos manuais, a preparação da mensagem jornalística «faz-se com a dupla preocupação de assegurar uma boa comunicação, isto é, de tornar a mensagem inteligível ao maior número de pessoas e de utilizar o melhor possível os meios técnicos de que se dispõe»[2].   

Além de um potencial de alarme inútil, a simples utilização da palavra «risco» comporta o… risco de colocar o(s) autor(es) das notícias na incómoda suspeita de adesão a uma das posições em confronto – no caso, a defendida pelas confederações patronais e a UGT, sua aliada histórica.

Em que consiste «risco» da descida da TSU? E para quem? Para os patrões… E por que razões é um «risco» e não uma vitória, desde logo para os trabalhadores, para a CGTP e para outras forças que consideram que a descida da TSU representa uma subtração ilegítima ao financiamento devido à Segurança Social?     

Talvez se argumente que se tratou de uma tentativa, mais ou menos infeliz, de simplificação da mensagem, de um deslize estilístico e não de uma subordinação das redacções à agenda dos patrões. Mas não há como reflectir sobre os perigos das «palavras armadilhadas», com Andreas Freund[3]:

«As palavras armadilhadas são, nada mais nada menos, desinformação veiculada por vocábulos de conteúdo tendencioso. Uma vez transpostas, com a sua carga de sentido demagógico, para a linguagem corrente, servem de munições de pequeno calibre na permanente batalha pela conquista dos espíritos.»

Ora, esclarece Philippe Breton[4], «a desinformação é uma acção que consiste em levar um receptor, que deliberadamente se pretende enganar, a tomar por válida uma certa descrição da realidade, favorável ao emissor, fazendo-a passar por informação segura e verificada».

É justamente para prevenir armadilhas e suspeitas que a profissão de jornalista é especialmente exigente, sendo avisado prevenirmo-nos até dos lugares comuns e dos bordões de linguagem aparentemente inocentes e tantas vezes à mão para uso que supomos consensual, mas que dissimulam realidades ideologicamente adversas.

Por exemplo, noticiamos que “Frio mata sem-abrigo”, mas na realidade quem os mata “é a miséria”, como propôs o jornalista Bertrand Poirot-Delpech, ao estender, no diário francês Le Monde[5], uma lista de rectificações de palavras e expressões armadilhadas.   

Há muitos anos, ainda os jornalistas estavam longe de adivinhar o turbilhão carregado de desafios e de riscos em que estão absorvidos os seus camaradas de hoje, o primeiro director do extinto Diário de Lisboa (1921-1990), Joaquim Manso[6], postulou os princípios fundamentais essenciais do exercício da profissão com uma síntese muito lúcida:

«O jornalismo exige clareza mental, bom senso, visão rápida e segura, sentido moral agudo, a fim de não misturar, na forja em que têm de trabalhar, o certo com o incerto, a paixão cega com a intolerância amável, o episódio inventado com a realidade bem observada»[7].          

Um dos tópicos mais vivos e dramáticos da forma como os media têm tratado a contenda sobre a TSU é a especulada possibilidade de a apreciação parlamentar vir a produzir uma crise política que ponha em risco – aqui sim, há risco – o Governo, aliás do desejo confesso de muitos jornalistas e colunistas.

Da discussão do tema nos editoriais e colunas de opinião, ressalta a ideia, muito perigosa, dada à estampa nomeadamente pela directora do Dinheiro Vivo, de que «pode abrir-se uma crise política por causa de um tema económico»[8]. A simples tese da estanquicidade entre «temas económicos» e política é, em si mesma, uma proposta de abordagem estranha à democracia.

O problema é que talvez opiniões como esta façam carreira, persuadindo os cidadãos de que matérias como o financiamento das suas reformas ou dos serviços de saúde, da educação e da cultura devem ser furtadas ao debate político e remetidas para espaços reservados a tecnocratas e, já agora, à elite editorial que desenha e baliza o consenso que rege o mundo.
Mantenhamo-nos de atalaia, com este aviso Vicente Romano[9]:

«Sob a cobertura de uma suposta liberdade de expressão, os poucos que realmente dela dispõem, quer dizer, as minorias que detêm os meios para a expressar, tentam moldar sistematicamente as consciências de milhões de pessoas, condenando-as à menoridade intelectual, educando-as para a docilidade, para suportar, sem críticas, o sistema de dominação e exploração vigente, e para considerar como próprios os falsos ideais deste mesmo sistema».

No penúltimo fim-de-semana, jornalistas portugueses reuniram-se no seu IV Congresso, apresentando comunicações e intervindo nos debates com reflexões sérias, discutindo práticas profissionais e tendências – umas impostas, outras para as quais resvalam – que põem em causa precisamente o seu compromisso para com a verdade e com o respeito pelos cidadãos.

Entre outros assuntos, assinale-se a denúncia da perversidade da caça aos cliques e ao tráfego nas edições electrónicas, da frivolidade dos temas, da ligeireza do tratamento de temas importantes, dos títulos cheios de manha e das decisões que tantas vezes fazem tábua rasa de princípios ético-deontológicos e dos deveres de rigor e de ponderação.

Bem pregou Frei Tomás.

Ao final do primeiro dia de trabalhos, o sítio oficial do Congresso publicava um vídeo com o seguinte título: «Jornalista do PCP defende registo de interesses». Tinha todos os ingredientes para chamar a atenção.

Desconhece-se quantos cliques garantiu, mas o efeito apelativo estava garantido, sem deixar de dar a ideia, pouco edificante, de tal título não passar de uma graçola ou de uma picardia infantil.

A peça, escorreita e honesta, apresenta o autor da proposta como director da Global Imagens (está certo) e sub-director do Diário de Notícias (que já não é), sem nunca o identificar – e bem – pelo «atributo» forçadamente chamado para título.

Pedro Tadeu é realmente militante do Partido Comunista Português (PCP), ele próprio o assume em vários textos publicados na sua coluna semanal no DN e repetiu nas declarações prestadas na peça.

Mas as suas afirmações serviram apenas para sustentar, a partir do seu exemplo e do seu ponto de vista, estritamente pessoais, a autoridade da sua proposta. Era escusado rotular o autor, sobretudo com o qualificativo possessivo “jornalista do PCP”, e irrelevante e muito discutível o partido em que milita.

Aquele título poderia muito bem ser «Director da Global Imagens…», ou simplesmente «Congressista defende registo de interesses dos jornalistas”. Mas não seria a mesma coisa, pois não?

(Publicado em AbrilAbril)




[1] Público, 18 de Janeiro de 2017
[2] Philippe Gaillard, O jornalismo, Europa América, Lisboa (1974)
[3] Citado por Philippe Breton, A palavra manipulada, Caminho, Lisboa (2001)
[4] Philippe Breton, op. cit.
[5] Edição de 22 de Janeiro de 1997, citado por Breton, op. cit.
[6] Entre 7 de abril de 1921 e 11 de setembro de 1956, segundo Mário Matos e Lemos, Jornais diários portugueses no século XX – Um dicionário, Ariadne/CEIS20, Coimbra (2006)
[7] Citado por Victor Silva Lopes, Iniciação ao Jornalismo, Centro do Livro Brasileiro, Lisboa (1980)
[8] Rosália Amorim, «TSU, o improvável do improvável», in Diário de Notícias, de 18 de janeiro de 2017
[9] Vicente Romano, A formação da vontade submissa, Deriva, Lisboa (2006)