quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Geringonça, o tanas!


Estou como o Ferreira Fernandes, na sua crónica de hoje, na última página do “Diário de Notícias” – “Geringonça, o tanas!”. Mas por mais razões além daquela, que tem a ver com a cristalina aritmética da correlação parlamentar de forças, que FF tão brilhantemente explica.
O caso é que o termo “geringonça”, como referência à solução parlamentar que dá suporte ao governo do PS, está a impor-se. Melhor, está a ser imposto pelo sistema que tem exactamente o poder de impor – o sistema mediático.
Sumaríssima e superficialíssima arqueologia do tema: algures, já nem sei a que propósito, Vasco Pulido Valente terá usado o termo para designar não sei o quê; depois, Paulo Portas, ainda presidente do CDS-PP e deputado, retomou-o para zurzir a solução parlamentar já referida.
A tirada teve efeito. Como se fora uma manchete dos velhos tempos do “Independente”, colou. Colou entre os jornalistas – primeiro como pilhéria, depois como conceito. É aqui que bate o ponto.
No primeiro registo, a malta que lhe encontre piada mais ou menos inconsequente repete a piada, entre copos artigalhadas, aparentemente sem consequências. No segundo, já é coisa séria.
Ainda hoje, o título do jornal “i” sobre a aprovação, na generalidade, do Orçamento de Estado era o seguinte:
“OE. Geringonça sobrevive a prova de fogo mas vêm aí sobressaltos”
Assim mesmo, sem aspas nem itálicos – geringonça, coisa mal feita e que se escangalha facilmente; caranguejola; aparelho ou máquina considerada complicada, engenhoca, na definição de um dicionário vulgar – apropriando jornalisticamente uma expressão usada por um dirigente partidário e deputado para traduzir e expressar uma concreta avaliação político-partidária e visando um efeito muito concreto.
Usada em títulos e em texto corrido de notícias (e em artigos de opinião também), com aspas hipócritas ou sem elas, no “i” várias vezes, mas também no “Expresso” (veja-se o último número, caderno principal e revista incluídos), ou noutro jornal, a expressão empregue nos textos jornalísticos pode traduzir uma adesão à tese de Paulo Portas, senão mesmo uma tomada de posição dos jornalistas.
Mandando a deontologia elementar do Jornalismo que se distinga a opinião da informação, seria mais avisado que os jornalistas se abstivessem de usá-la no noticiário, sem prejuízo do direito de assumi-la nos espaços de opinião.
E não vale a pena argumentar (um bocadinho forçadamente, não é verdade?...) que o termo até é tido por “carinhoso”  “entre a esquerda” (volto ao “Expresso”) ou tentar “esvaziar com humor (…) o sentido da palavra” (Rui Tavares, no “Público” de hoje).
Em jornalismo, as palavras valem exactamente o que valem e os significados têm o peso que têm. E é deles que temos de prestar contas.