domingo, 24 de janeiro de 2016

Três notas na noite eleitoral


1. Já não restam quaisquer dúvidas de que Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) ganhou as eleições e de que será o novo Presidente da República a partir de 9 de Março (e não “a partir de hoje”, como escutei esta noite de vários jornalistas).
MRS tem certamente méritos pessoais e políticos (era o que faltava, para quem tem a carreira que tem e ocupou os lugares que ocupou!), mas é manifesto que ele é uma poderosa construção mediática ao longo de décadas de exposição.
É igualmente manifesto que MRS capitalizou a simpatia – e mesmo o tratamento francamente favorável – que a comunicação social lhe dedica e que não regateou nesta campanha, nem mesmo hoje, com direito a um longo directo nos telejornais da hora de almoço.
Só a campanha eleitoral, as encenações para os Media e a imensa futilidade das inúmeras cenas “de propaganda” repercutidas nos órgãos de informação dariam uma biblioteca enorme de estudos e de teses sobre a relação dos Media com uma das mais eficazes das figuras – simultaneamente criador e criatura.

2. Apesar da simpatia que irradia, da força do carácter que o distingue, da coragem que o anima, da enorme generosidade e abnegação com que sempre se entrega às causas dos pobres e dos explorados e da riqueza da mensagem e do projecto que transportou nesta campanha, bem como da extraordinária importância dos temas que trouxe a debate – alguns deles tabu para as outras candidaturas –, Edgar Silva não logrou um resultado justo.
Edgar Silva 
Por muito que pareça “cassete”, o resultado eleitoral de Edgar Silva é indissociável do recorrente preconceito em relação ao PCP, que o apoiou e que foi aliás – e muito bem – o seu certificado de garantia, preconceito esse que permanece na sociedade e que se reflecte nos Media e é alimentado pelos Media.
Os números também parecem indiciar que uma fatia apreciável do eleitoral natural de Edgar Silva terá cedido à tentação de fazer já uma escolha potencialmente ganhadora, na esperança de que Sampaio da Nóvoa à primeira volta um resultado que o projectasse com mais força na segunda, se não fosse possível conseguir a eleição hoje.

3. Do resultado obtido não se pode extrair, porém, qualquer consequência designadamente quanto ao peso específico do PCP e do PEV, quer no quadro parlamentar quer ao nível da sua influência no mundo laboral, cultural e cívico – ontem como hoje, amanhã e sempre.
Pelo contrário, os trabalhadores e o povo sabem com quem podem contar – sempre, e especialmente nos momentos mais duros e difíceis.