quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

A revolta da classe média grega e nós

Com a urgência do que importa retransmitir, reencaminho:

Grécia – "A revolta da classe média" – por Carlos de Matos Gomes
http://aviagemdosargonautas.net/2015/01/27/biscates-grecia-a-revolta-da-classe-media-por-carlos-de-matos-gomes/


A crise financeira que começou em 2008 nos Estados Unidos com o subprime e que o sistema financeiro americano fez alastrar como um cancro para as dívidas soberanas da Europa, atacou principalmente aquilo que se designa por classe média e, em particular, as mais vulneráveis, as do sul da Europa, dos países que menos parcelas de produtos transaccionáveis de alto valor acrescentado colocavam (e colocam) no mercado global, os menos industrializados. Era pois natural que fosse esta "classe média" desprotegida e frágil a pagar as favas.
Classe média é um conceito pouco rigoroso, mas contém a ambiguidade que acabou por ser o fermento da revolta que teve a sua expressão nas eleições da Grécia e na vitória do Syriza. Classe média inclui os que têm rendimentos que lhe permitem aceder a um "certo" estatuto, ou que ganharam hábitos de consumo que os fazem julgar que pertencem a essa classe, ou que se sentem com direito a viver como se pertencessem. É um conceito diferente de ser rico, ou pobre, porque para a classe média não existe grande distinção entre o ter e o parecer. A crise destruiu essa ilusão. Quem deixou de ter, deixou de poder parecer que tinha. Passou da classe média à pobreza indisfarçável.
Num inquérito na Europa cerca de 85% dos europeus declararam pertencer à classe média. Mesmo que muitos fossem classe média de pés de barro e muita aflição no fim do mês, constituíam a grande massa, o grande rebanho disponível para ser tosquiado e ordenhado. Foi a ele que se atirou quem manda nas finanças do mundo, os tais 1% que detêm a parte de leão da riqueza. Estava na classe média a mina que lhe ia permitir aos banqueiros restaurar as falências provocadas pelo esgotamento da economia de casino, ou de pirâmide, que tinham desenvolvido. Foi a classe média que pagou a Dona Branca de Wall Street e os SWAPS por todo o lado.
A crise da classe média atingiu com particular violência o sul da Europa. Economias pouco desenvolvidas, sem indústrias exportadoras capazes de colocar no mercado produtos de alto valor acrescentado, foram entregues pelas grandes potências nas garras dos países emergentes, que com eles competiam produzindo o mesmo a custos muito mais baixos. Mas antes, os mesmos que os entregaram agora aos chacais, tinham comprado a paz social e a paz política da Grécia e Portugal e até da Espanha, como antes haviam feito com a Itália, para evitar que se "passassem para o comunismo" na transição que haviam feito das ditaduras para os regimes democráticos, para o outro lado, em suma, criando uma cultura de consumo e bem-estar através de subsídios, de obras públicas e de emprego no Estado/Serviços públicos. Nasceu assim uma classe média sustentada politicamente.
O fim da guerra fria tornou esta classe média uma despesa e não um escudo contra o Bloco Comunista. Com a queda do Muro de Berlim e a entrada da China no comércio mundial, com o fim da Guerra Fria, aconteceu a esta classe média dos países do Sul o mesmo que aos contingentes de soldados desmobilizados após todas as outras grandes guerras: de repente passaram de seres amados e glorificados, neste caso não por patrioteiros que os aplaudiam, mas por gerentes bancários que andavam atrás deles a acenar com as patrióticas bandeirinhas do crédito fácil a poltrões que viviam acima das suas possibilidades! Uns vigaristas que não pagavam impostos das piscinas e se faziam coxos para ganharem subsídios, como os definiu o genial Rodrigues dos Santos.
A crise atirou para o nível dos sem-abrigo milhões de pessoas que se julgavam classe média, que tinham casa, carro, crédito, frigorífico e que trabalhavam para o Estado, directa ou indirectamente. Atirou, literalmente, para debaixo das pontes, pessoas que tinham rendimentos reais que lhes ofereciam o acesso a padrões de vida superiores a amplos sectores da classe trabalhadora e aos que viviam na ilusão de se integrarem neste grupo.
A dita crise traduziu-se para este amplo sector das sociedades europeias do sul num bofetão sem contemplações. Foram barrados à entrada da loja, da discoteca, do talho, do restaurante, do teatro, do hotel, até da escola, do hospital. Rua. Acesso restrito. Reservado o direito de admissão.
A votação desta classe média no Syriza foi o seu grito de revolta. A dúvida que esta vitória gera é a de saber se se trata apenas de uma revolta de clientes à porta do centro comercial, ou se alguma coisa de mais profundo ocorreu. Parece-me claro que estes votantes do Syriza querem apenas voltar a ser classe média, resta descobrir se querem ser uma nova classe média, que exija participar na definição dos seus interesses e lutar contra quem os desapossou do que tinham ou não. Isto é, temos de aguardar até percebermos se aprenderam alguma coisa, ou não.
O Syriza não é um movimento revolucionário. O seu sucesso deve-se, julgo, ao facto dos seus dirigentes terem entendido qual era e o que pretendia a sua "base social de apoio". A aliança para formar governo com os Gregos Independentes é reveladora do reconhecimento dos dirigentes do Syriza de quem são os seus apoiantes. Não há nenhum Maio de 68 à vista em Atenas. Não há estudantes a fazer de proletários. Não há 25 de abris na Grécia. Não haverá um PREC. Convinha que aqui em Portugal, o PS, o BE, as outras formações dispersas pela esquerda fizessem uma leitura sem falsas ilusões desta revolta da classe média grega. Como o Podemos deverá fazer e, se calhar, está a fazer aqui ao lado, em Espanha.