quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Miguel de Cervantes





Assinalando-se hoje o suposto aniversário de Miguel de Cervantes Saavedra, em Alcalá de Henares, Madrid, e como forma de lembrar quantas iníquos atentados contra a liberdade de ler, saber, pensar, ousar ir mais longe, tantas vezes justificados pelas "melhores razões", aqui deixo um trecho da minha predilecção da sua obra-prima:

Do engraçado e rigoroso escrutínio
que o cura e o barbeiro fizeram a biblioteca
do nosso engenhoso fidalgo

que ainda estava a dormir. O cura pediu à sobrinha as chaves do aposento onde estavam os livros causadores de tanto mal e ela deu-lhas de bom grado. Entraram todos lá e a governanta com eles, e acharam mais de cem volumes enormes, muito bem encadernados, e outros pequenos; e logo que a governanta os viu, saiu do aposento a toda a pressa, e voltou com uma escudela de água benta e um ramo de hissope, dizendo:
- Tome vossa reverência, senhor cura; asperja este aposento, para o caso de estar aqui algum fazedor de encantamentos, dos muitos que contêm estes livros, e nos enfeiticem, para nos castigarem pelas penas que queremos aplicar-lhes ao expulsá-los do mundo.
O cura riu-se da ingenuidade da governanta e mandou o barbeiro ir-lhe passando aqueles livros um por um, para ver de que tratavam, pois podia achar alguns que não merecessem o castigo do fogo.
- Não - disse a sobrinha -, não há nenhum que mereça ser poupado, porque todos foram malfeitores; o melhor será arremessá-los pelas janelas para o pátio, fazer um montão com eles e pegar-lhes fogo; e, se não, levá-los para o terreiro, e ali fazer a fogueira, e o fumo não incomodará ninguém.
(Miguel de Cervantes, D. Quixote de la Mancha (vol I, pág. 67), na belíssima tradução de José Bento editada pela Relógio D'Água)
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